É possível derrotar o bolsonarismo em São Paulo? Por Valerio Arcary

A extrema direita explora de forma impiedosa todos os temores e ansiedades que fragmentam a sociedade

No A Terra é Redonda

1.

A última pesquisa DataFolha, realizada nos primeiros dias de julho, não trouxe variações importantes sobre os humores populares, até porque 55% da população ainda não decidiu em quem poderia votar. As eleições para prefeito não atraíram até agora a atenção da maioria absoluta. A principal novidade da campanha foi a confirmação do ex-comandante da Rota (tropa de elite da PM-SP), coronel Ricardo Mello Araújo como vice de Ricardo Nunes e o alinhamento com o bolsonarismo.

Isso não impediu que Pablo Marçal e José Luiz Datena, dois pré-candidatos que disputam espaço à direita e extrema direita, tenham oscilado para cima 3%, pontuando 10% e 11%, ainda dentro da margem de erro. É improvável que Kim Kataguiri, que pontou 3%, um a menos que na pesquisa anterior, assim como Tabata Amaral, possa concorrer porque Milton Leite controla o União Brasil, e já fechou apoio ao atual prefeito Ricardo Nunes.

O mistério sobre Datena se mantém, mas é improvável que venha a concorrer, não só porque já desistiu outras quatro vezes, e acabou de passar por duas cirurgias, mas também, porque o PSDB, embora dividido pela liderança municipal de José Aníbal, tem participação no governo Nunes que já recebeu apoio de seus parlamentares.

Sem a presença de Datena e Kim, Nunes teria 26%, Boulos, 25%. As informações mais importantes parecem ser três: (a) se mantém uma disputa polarizada entre Nunes e Boulos, porque os outros candidatos estão em um patamar tão menor, qualitativamente, que não poderão sequer sonhar com uma passagem para o segundo turno.

(b) No entanto, embora no segundo pelotão, Marçal, 12% e até Marina Helena do Novo (que pode ser um acidente, por confusão com Marina Silva, ministra do meio-ambiente) 7%, ambos, explicitamente, de extrema-direita, não serão inofensivos, poderão cumprir um papel “triangular” desequilibrador, concentrando fogo como coadjuvantes informais; ou, diretamente, como sublegendas de Nunes.

(c) A candidatura com maior potencial de crescimento é a de Boulos porque atraiu somente 44% dos votos dos eleitores de Lula, em 2022, e pode crescer muito já que pontou só 15% entre os que ganham até 2 salários mínimos, um grupo que responde por 42% da amostra, e no qual o PT, Marta Suplicy e o lulismo têm muita influência.

As principais variáveis político-eleitorais são, portanto, relativamente animadoras: (i) a divisão na extrema-direita parece ter vindo para ficar e Marçal e Marina Helena, dois aventureiros, provavelmente, não se retirem, tentando cumprir um papel auxiliar; (ii) a divisão da direita entre Nunes e Datena, se, surpreendentemente, o PSDB vier a confirmar apoio até 5 de agosto; (iii) o esvaziamento do centro, devorado pela direita com a inclinação do pêndulo do herdeiro de Bruno Covas para a direita dura, e a dificuldade de Tabata Amaral, na centro-esquerda, submergindo com 2%, ao lado de super-revolucionários invisíveis; (iv) e a unidade da esquerda, o fator mais importante de impulso de Boulos. Parece evidente que Boulos, neste contexto, embora candidato do PSol, não poderá fazer uma campanha, estritamente, alinhada ao programa da esquerda radical, como em 2020.

2.

A Frente de Esquerda está sendo construída em torno de um programa de acordo com a acumulação dos movimentos sociais mais importantes da cidade, como o feminista e negro, popular e sindical, ambientalista e estudantil, mas, sobretudo, com o PT e outros partidos. Um programa cujo denominador comum será, como sempre acontece quando se fazem Frentes, em torno da posição mais moderada. A esquerda mais combativa deve ser consciente deste compromisso. Sem esta unidade, na conjuntura em que estamos, seria impossível disputar com mínimas chances.

Não se deve, portanto, exigir de Guilherme Boulos um papel que ele não pode ocupar. Acordos são feitos para serem respeitados. Ao mesmo tempo, é a autenticidade de Boulos, construída em vinte anos de luta do MTST pela moradia popular, que o legitima com candidato que une a esquerda. Ser autêntico é ser simples, honesto e claro.

Análises de inspiração marxista devem concluir com previsões. Análises, no campo da esquerda, não se resumem à interpretações dos conflitos. Devem orientar uma aposta política considerando o cálculo de probabilidades. Não são, “tecnicamente”, neutras ou inconclusivas. Devem ser o mais rigorosas e objetivas, sem autoengano. Mas a capacidade de antecipação de cenários nos coloca em posição de vantagem relativa, porque permitem uma avaliação séria das possibilidades e, também, dos riscos.

Ainda que análises considerem tendências e contratendências é inescapável apresentar qual, entre as hipóteses consideradas, é a mais provável. Uma previsão não é uma profecia. Marxismo não autoriza oráculos. Um prognóstico é sempre uma hipótese. O argumento deste texto é que Boulos está, realmente, na disputa, por uma razão fundamental: é mais do que provável que Boulos estará no segundo turno, como em 2020.

E, no segundo turno, mudam, qualitativamente, as condições da luta política. Segundo turno é uma luta entre duas taxas de rejeição. O bolsonarismo tem uma taxa de rejeição muito elevada em São Paulo. Esta variável não permite concluir que Boulos é favorito. Mas tampouco é justo afirmar que é impossível vencer. Ceticismo não é realismo. Fatalismo “intuitivo” é péssimo critério.

Uma questão de método se coloca quando pensamos a perspectiva eleitoral em São Paulo em 2024. Prognósticos para o futuro são como os contrafactuais para o passado. O passado foi um campo de possibilidades. O que aconteceu tem muita força, mas não anula que estavam colocados outros desenlaces. Um contrafactual é uma hipótese do que poderia ter acontecido. Uma previsão é uma hipótese do que poderá acontecer.

No Brasil, as margens de erro são grandes, ainda mais com a antecedência de mais de três meses. É necessário medir, ponderar, ajustar, calibrar a força de distintos fatores que exercem pressões de primeiro, segundo, ou terceiro grau. Mantida a mesma relação social de forças, as possibilidades estarão limitadas a um estreito cenário. Acontece que a relação social de forças pode mudar. Provavelmente, oscilará. O Brasil não é um país escandinavo, e não há lugar para o tédio.

Temos que considerar nas previsões os fatores constantes. Não podemos considerar o impacto do aleatório, acidental, contingente, como foi, por exemplo, o episódio da facada em Juiz de fora em setembro de 2018. Fatos “gigantescos” podem acontecer, por suposto. Não é possível, neste momento, ter a percepção de qual será a conjuntura curta no último mês de campanha em setembro. Não sabemos se a aprovação ao governo Lula, um fator qualitativo, será maior ou menor que hoje.

Mas, por enquanto, ainda é majoritária. Não sabemos se, com as investigações da Polícia Federal sobre Jair Bolsonaro, o cerco jurídico irá se apertar, para citar outra incógnita essencial. As margens de erro, neste momento, são, portanto, grandes ou pequenas? São imensas. A variável tempo não pode ser ignorada, porque estamos na oposição, e as amplas massas concentram atenção nas eleições somente na reta final, a rigor nas últimas duas semanas.

3.

Portanto, temos pressa para fazer campanha. As margens de incerteza existem. Marxismo deve se inspirar em boa ciência, ou seja, prudência nos prognósticos. E o comportamento social das classes tem muito de imprevisível. Mas regularidades existem. E respondem, em primeiro lugar, à primazia dos medos. Qual dos medos será maior? Já aprendemos, amargamente, que o desempenho da economia não é uma variável “absoluta”.

A extrema direita explora de forma impiedosa todos os temores e ansiedades que fragmentam a sociedade: Assusta as camadas médias de trabalhadores com a insegurança pública, alarma os evangélicos contra perseguições imaginárias, aterroriza os pequenos proprietários contra o perigo do comunismo, apavora a classe média conservadora contra o feminismo, os movimentos negros e LGBTQI’s, assombra os idosos com a denúncia da desordem e envenena toda a sociedade com a denúncia de corrupção. Em resumo, faz luta ideológica implacável: mente, confunde e intoxica.

Mas o desempenho do governo Lula será importante do contexto das eleições municipais. Qual será o cenário econômico-social mais provável em setembro? (a) todos os indicadores disponíveis sugerem a continuidade de uma recuperação econômica, que não deve ir além de 2,5% do PIB em 2024, mas depois de quatro anos que somaram um retrocesso do PIB superior a 8%, e uma redução do desemprego; (b) estamos em um contexto externo de crescimento lento da economia mundial, tanto nos EUA, na Europa como no Japão, que se reflete nos países semiperiféricos, mas com revalorização dos preços das commodities, o que protege as reservas cambiais e, mesmo considerando os limites impostos pelo arcabouço fiscal, não sugere recessão.

(c) A queda da inflação para menos de 4%, embora muito mais alta nos alimentos, não anulou o crescimento do consumo das famílias, mesmo que a taxa Selic ainda em 10,5%, iniba o endividamento de bens duráveis; (d) um ataque especulativo cambial é muito improvável porque o Brasil foi o segundo principal destino de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) em 2023, recebendo US 64 bilhões só menor do que o recebido pelos Estados Unidos (US$ 341 bilhões).

As eleições serão um processo em dois turnos. Mas ocorrerão deslocamentos sociais e políticos entre o primeiro e o segundo. As linhas de classe na capital de São Paulo para a primeira eleição, dia 6 de outubro estão se definindo: (i) ao contrário da campanha de Lula em 2022, com a presença de Alckmin na candidatura a vice, nenhuma fração burguesa apoiará Boulos no primeiro turno, mesmo com a presença de Marta Suplicy, e de um bolsonarista na vice de Nunes.

(ii) A moderna classe média paulistana – quadros de alta escolaridade em funções executivas no setor privada ou público, profissionais liberais como economistas, engenheiros, médicos, arquitetos, advogados – é a maior e mais próspera do país e, historicamente, hostil à esquerda, mas dividida diante da extrema direita; (c) a tradicional classe média proprietária dos pequenos negócios e imóveis se deslocou em maioria para o apoio ao bolsonarismo.

(d) A informalidade é menor em São Paulo, proporcionalmente à média nacional, mas é muito grande, e se subdivide em três segmentos, os assalariados sem contrato, como as domésticas e os ambulantes, os trabalhadores por conta própria sem empresas, como os uberizados, ou os “faz tudo” nos bairros – eletricistas, por exemplo- e os pequenos negócios familiares e, embora divididos, são, em maioria, atraídos pelo neofascismo. (e) A classe trabalhadora com contratos, carteira assinada ou funcionários públicos, a base social histórica do PT e da esquerda na cidade, metalúrgicos e operários de empresas grandes e médias, professores, bancários, funcionários de empresas públicas está, também, dividida, mas a maioria se inclina à esquerda.

(f) Os mais pobres nas extremas periferias se inclinam à esquerda, em função da lealdade ao lulismo, e uma memória política das gestões de Luiza Erundina, Marta Suplicy e Fernando Haddad. Em resumo, será difícil, mas unindo o mundo do trabalho, explorados e oprimidos, a esquerda pode conquistar a maioria social. Sim, podemos.

*Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://amzn.to/3OWSRAc]

 

 

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