O Brasil que carrega o agro nas costas. Por Padre Carlos

Por Política e Resenha

Há um discurso sedutor e repetido à exaustão por empresários do campo, parlamentares ruralistas e publicitários do agronegócio: “o agro carrega o Brasil nas costas”. Mas, quando olhamos com atenção os números, os incentivos, as isenções fiscais e o financiamento público, a pergunta inevitável se impõe: será que não é o Brasil que está carregando o agro nas costas?

Comecemos pela Lei Kandir, em vigor desde 1996, que isenta de ICMS as exportações de produtos primários, como a soja. Quando um produtor exporta grãos in natura, não paga imposto estadual. Quem cobre essa isenção? O Governo Federal — e quem banca o governo? Nós, os contribuintes. Estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul recebem repasses milionários da União para compensar o que o agro deixou de pagar. Uma conta salgada para o povo e um alívio lucrativo para os grandes exportadores.

Esse modelo também impede que o Brasil dê um salto industrial. Em vez de transformar a soja em óleo, farelo, ração ou outros derivados dentro do país, gerando empregos e riqueza, o agronegócio opta por exportar matéria-prima crua. Lucro máximo para poucos, valor agregado mínimo para o Brasil.

Não para por aí. O Plano Safra 2024 destinou R$ 348 bilhões ao agronegócio, com juros subsidiados ou até negativos. Enquanto o cidadão comum paga 12%, 14% ao mês no cartão de crédito, o grande produtor rural toma empréstimos quase sem custo. É o Estado brasileiro abrindo os cofres para quem já é rico — e fechando para quem precisa.

Mas o que o agro devolve à sociedade por todos esses privilégios?
– Poucos empregos gerados
– Alta concentração fundiária
– Avanço contínuo sobre terras indígenas e quilombolas
– Queda de 90% nas multas por desmatamento
– Aumento de casos de trabalho análogo à escravidão
– Desmonte da fiscalização trabalhista e ambiental

Tudo isso se soma a uma realidade cruel: a fome voltou ao Brasil, e mesmo assim os gigantes do agro dizem que “alimentam mais de 1 bilhão de pessoas no mundo”. Alimentam lá fora, sim, mas quem alimenta o povo brasileiro é a agricultura familiar, que põe mais de 70% dos alimentos na nossa mesa, mesmo sendo esquecida pelas políticas públicas.

É preciso dizer em alto e bom som: o agro como está não distribui renda, não desenvolve o país, não preserva o meio ambiente e não promove justiça social. Ao contrário, se beneficia de um Estado que transfere recursos públicos ao setor privado, sem exigir contrapartida digna.

Estamos diante de dois Brasis rurais:
– Um agro industrial, blindado, subsidiado e violento com o meio ambiente e os povos do campo;
– Outro, invisibilizado, que planta feijão, milho, mandioca e hortaliça — e sustenta nossa segurança alimentar.

Não é o agro que carrega o Brasil. É o povo brasileiro, com seus impostos e seu suor, que carrega o agro nas costas. E ainda escuta que deve ser grato.

Está na hora de revisar quem sustenta quem.
E de parar de premiar o abuso disfarçado de orgulho nacional.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por José Costa.

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

um × cinco =