Se Israel intervier na missão humanitária da flotilha, diz ativista gaúcha que está a bordo do Spectre, “o país cometerá mais um crime porque a flotilha não está cometendo nenhuma ilegalidade. Ela está amparada em todas as leis do Direito Internacional”
Por Patricia Fachin, em IHU
“Não estamos indo para Israel. Estamos indo para Gaza. Em nenhum momento queremos chegar a Israel. Se nos interceptarem e nos levarem para Israel, isso será um sequestro”, declara Gabi Tolotti, integrante da delegação brasileira a bordo da Flotilha Global Sumud.
Na manhã de ontem, 30-09-2025, quando estava próxima da costa do Egito, a uma distância de aproximadamente 370 quilômetros de Gaza, a presidente do PSOL do Rio Grande do Sul conversou com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU por WhatsApp. Naquele momento, a flotilha estava entrando na zona crítica e em algumas horas se aproximará da área de risco máximo, chamada linha laranja, a mais de 160 quilômetros de Gaza, onde outras embarcações foram interceptadas por Israel. “Não temos como saber o que vai acontecer porque, da mesma forma como pessoas já morreram em flotilhas, outras flotilhas conseguiram furar o bloqueio e chegar a Gaza. Essa é a maior flotilha de todos os tempos, mas não é só a maior: se somarmos todas as flotilhas de ajuda humanitária para Gaza, elas não chegam ao número de barcos que há desta vez. Justamente por isso ainda está muito incerto o que acontecerá”, comenta.
Apesar da incerteza, a flotilha segue rumo a Gaza. Para os integrantes da missão, relata a entrevistada, dois cenários são esperados: “sermos interceptados, sequestrados em águas internacionais e levados para Israel contra a nossa vontade, ou chegar em Gaza e conseguir entregar a ajuda humanitária, com alimentos e remédios”. Gabi Tolotti está a bordo do Spectre, barco atacado duas vezes por drones na costa da Grécia. Na entrevista a seguir, ela dá um breve depoimento dos últimos dias da missão, que está sendo transmitida ao vivo pelo YouTube desde 27 de setembro, e pede que todos ajudem, exercendo pressão para que a flotilha consiga furar o bloqueio israelense e entregar alimentos e remédios aos palestinos.
Gabi Tolotti é jornalista e relações públicas. Chefe de Gabinete da Deputada Luciana Genro (PSOL-RS), iniciou a militância no movimento estudantil, sendo uma das fundadoras do Movimento Juntos!, organização de juventude anticapitalista brasileira. É dirigente do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), militante internacionalista com organizações de esquerda nos Estados Unidos e México. Também é coordenadora executiva da Conferência Internacional Antifascista, que acontecerá no Brasil em 2026.
Confira a entrevista.
IHU – Onde vocês estão neste momento?
Gabi Tolotti – Estamos a 200 milhas náuticas de Gaza. Viajamos mais ou menos 100 milhas por dia e estamos a dois dias da Faixa de Gaza. Neste momento, estamos em águas internacionais, perto da costa do Egito. Para termos uma ideia, a Madleen foi interceptada a 110 milhas náuticas e a Handala, a 70 milhas náuticas. Estamos chegando no ponto crítico da nossa missão.
IHU – Como estão vivendo essas últimas horas em que se aproximam da zona de risco máximo?
Gabi Tolotti – Estamos entrando na zona crítica. As próximas duas noites serão fundamentais. Temos conosco um navio que veio da Itália e está nos ajudando. Também temos navios de emergência.
No Spectre, barco onde estou, todo mundo está calmo. Viemos preparados para quatro cenários que imaginamos que possam acontecer. O mais provável deles é uma intervenção de Israel.
Gostaria de dizer uma coisa sobre isso para esclarecer aos leitores: se Israel intervier na nossa missão, o país cometerá mais um crime porque a flotilha não está cometendo nenhuma ilegalidade. Ela está amparada em todas as leis do Direito Internacional. É uma missão civil humanitária, que está carregando ajuda para Gaza. Mesmo quando se trata de uma guerra – e aqui não se trata de uma guerra, mas de um genocídio –, nenhum país pode bloquear a ajuda de outro para ajuda humanitária. Seria um crime nos interceptarem em águas internacionais. Além disso, não estamos indo para Israel. Estamos indo para Gaza. Em momento algum queremos chegar a Israel. Se nos interceptarem e nos levarem para Israel, isso será um sequestro.
IHU – Quais são os outros três cenários?
Gabi Tolotti – Desde o início da missão estamos trabalhando com quatro cenários. O primeiro deles era ter algum embargo burocrático para que não pudéssemos deixar Barcelona. Isso não aconteceu e não achávamos que seria o mais provável.
O segundo cenário era um ataque cruel, com bombas, letal para a missão. Esse tipo de ataque já aconteceu em uma flotilha anos atrás, onde morreram dez pessoas – para nós este também não era o cenário mais provável.
Os dois cenários mais prováveis até o momento são sermos interceptados, sequestrados em águas internacionais e levados para Israel contra a nossa vontade, ou chegar em Gaza e conseguir entregar a ajuda humanitária, com alimentos e remédios. Esses são os dois cenários com os quais estamos trabalhando no momento.
IHU – Qual sua expectativa ao chegar na linha laranja?
Gabi Tolotti – Não temos como saber o que vai acontecer porque, da mesma forma como pessoas já morreram em flotilhas, outras flotilhas conseguiram furar o bloqueio e chegar a Gaza. Essa é a maior flotilha de todos os tempos, mas não é só a maior: se somarmos todas as flotilhas de ajuda humanitária para Gaza, elas não chegam ao número de barcos que há desta vez. Justamente por isso ainda está muito incerto o que acontecerá.
Nos últimos dias, vimos o apoio à flotilha crescer no mundo inteiro: Espanha, Itália, Alemanha. Em Berlim, 100 mil pessoas estiveram nas ruas, e houve greve geral na Itália. Quanto mais pressão internacional houver, mais provável é que consigamos furar o bloqueio. Pedimos que todos nos ajudem, exercendo essa pressão.
IHU – Notícias internacionais informam que integrantes da Flotilha Global Sumud desembarcaram em Creta e vão retornar para seus países. Por que deixaram a missão?
Gabi Tolotti – Não foram muitos desembarques. Houve duas questões: primeiro, a flotilha está com o cronograma atrasado por conta dos dois ataques que sofremos e por ser a maior missão da flotilha de todos os tempos. Então, é muito detalhe para organizar. Essa não é só a maior missão da flotilha; é maior do que todas as outras missões humanitárias para Gaza juntas.
Além disso, nosso maior barco, o Family, onde estavam Thiago Ávila e mais 35 pessoas, como a ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau, teve um dano irreversível no motor e foi preciso dividir as pessoas nas outras embarcações. Pessoas que já estavam com o cronograma de suas idas atrasado tiveram a opção de desembarcar em Creta. Estamos falando de um total de 600 pessoas na flotilha e, no máximo, desembarcaram 25 delas. É um número irrisório considerando o total de pessoas na missão.
IHU – Como aconteceram os ataques ao Spectre, embarcação onde você está?
Gabi Tolotti – A nossa embarcação foi atacada por drones na costa da Grécia. Foram três ataques com quatro bombas químicas. Dois drones largaram uma bomba cada e o último drone que nos atacou largou duas bombas ao mesmo tempo. É uma bomba química: o drone vem, larga uma caixa mais ou menos do tamanho de um celular e dentro dela tem um produto químico que, se tocar em alguém, dá coceira, alergia e queima a pele.
Nós ficamos protegidos nesse momento. Nosso treinamento para drones é ficar embaixo de algum teto e, depois do ataque, precisamos nos lavar imediatamente com água salina. Ninguém encostou no produto químico, então, não sabemos a gravidade que causaria na pele das pessoas, mas a flotilha estudou o que são esses químicos e sabemos que causam queimaduras e coceira. O produto tem um cheiro horrível.
IHU – Desde quando você acompanha a situação dos palestinos em Gaza? Por que o interesse por esse povo em particular, entre tantos oprimidos?
Gabi Tolotti – Acompanho a luta do povo palestino em Gaza desde as edições do Fórum Social Mundial que aconteciam em Porto Alegre. Fiz parte da coordenação do Acampamento da Juventude e tive contato com pessoas que lutam e defendem a causa palestina. A partir disso, tomei conhecimento do que acontecia em Gaza e comecei a acompanhar esta luta.
IHU – Por que decidiu integrar a Flotilha Global Sumud?
Gabi Tolotti – Acompanho as flotilhas há muitos anos. Thiago Ávila, que é um dos coordenadores do comitê da flotilha, foi integrante do meu partido, o PSOL, durante muitos anos. Quando ele e a Greta Thunberg foram interceptados e sequestrados no Madleen, avisei minha organização, o Movimento de Esquerda Socialista (MES), uma tendência interna do PSOL, que na próxima flotilha eu gostaria de ir para Gaza. Todo mundo achou muito bom porque esta é uma luta necessária. Tem três pessoas da nossa organização aqui hoje.
IHU – Como tem sido a rotina a bordo?
Gabi Tolotti – Faz 29 dias que estamos a bordo e a nossa rotina é muito bem-organizada. Somos 22 pessoas. Precisamos lavar, cozinhar, organizar as tarefas diárias. Temos uma rotina bem estabelecida. Diariamente, fazemos algum tipo de treinamento: para ataques de drones, ataques de incêndios, de interceptação. Somos bem treinados para as coisas que podem acontecer.
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Gabi Tolotti (Foto: Arquivo Pessoal)
