O Império Yankee se prepara para o fim do mundo! Por Orlando Calheiros

Enquanto acreditamos nas falsas promessas da ONU e na esperança da decadência do império, ele se atualiza e se prepara para o fim do mundo!

em Café Amargo

Fotos em preto e branco. Saigon, Vietnã. Centenas se amontoam no topo de um prédio do governo dos EUA, disputando espaço, oxigênio e esperança, na expectativa de embarcar em um helicóptero pequeno demais para tanta gente. Longe dali, em um porta-aviões, militares estadunidenses empurram ao mar helicópteros do então governo do Vietnã do Sul — seus aliados, seus subordinados — para abrir espaço aos fugitivos do continente. Enquanto isso, o Exército do Vietnã do Norte avança, pronto para ocupar a capital.

Você certamente já viu ao menos algumas dessas imagens. Trata-se da Queda de Saigon, um dos eventos mais emblemáticos do século XX — e talvez um dos mais didáticos.

Para muitos, essas cenas, combinadas a escândalos políticos como o caso Watergate e a uma crise econômica interna profunda, marcam o início do fim do império estadunidense em meados dos anos 1970. Um declínio que não ficou restrito às entrelinhas: foi anunciado publicamente por livros da época, como After Hegemony, de Robert Keohane, publicado em 1984.

A “boa nova” se espalhou rápido. Invadiu os cinemas, contaminou o imaginário cultural e virou tema de filmes como Taxi Driver e RoboCop. Isso do “nosso” lado. Do outro, o conservador, a decadência virou palavra de ordem, motor de mobilização política e — não por coincidência — slogan eleitoral. Foi nesse caldo que surgiu, pela primeira vez em campanha presidencial, o agora reciclado Make America Great Again, usado por Ronald Reagan.

A vitória de Reagan não foi uma reação à decadência: foi sua reorganização consciente. A crise econômica interna serviu de pretexto para uma agenda agressiva de redução de políticas sociais, desregulamentação ultraliberal, cortes de impostos para os mais ricos e o enfraquecimento sistemático dos sindicatos. Paralelamente, os EUA dobraram a aposta em uma retórica de polarização global, vestindo um discurso messiânico que antagonizava não apenas a URSS, mas também o Japão, então visto como ameaça no “livre mercado”.

O resultado foi simples e brutal: o império “decadente” não caiu — se reprogramou. Adaptou-se aos ventos ultraliberais do fim do século XX, isto é, às exigências do fluxo global do capital. Com o colapso da União Soviética — amplamente patrocinado pelos EUA —, entrou nos anos 1990 com sua hegemonia renovada.

Renovada, é claro, sob novas regras.

Os Estados Unidos chegaram triunfantes aos anos 1990, mas à custa de uma deterioração acelerada das condições de vida da maioria da população e de um crescimento contínuo da dívida pública. Sua política de domínio global arou o terreno para a expansão de suas empresas mundo afora, ao mesmo tempo em que abandonava a produção local. Fábricas e empregos migraram para a Ásia e a África; aos EUA restaram os lucros financeiros dessas operações. Aos bilionários! Cidades inteiras colapsaram, enquanto os mais ricos se tornavam obscenamente mais ricos.

Não foi acidente. Foi projeto.

A suposta decadência nunca foi um erro de cálculo, mas parte de uma estratégia deliberada de readequação do país a um mundo globalizado — nos termos impostos por ele próprio.

Uma adequação ao mundo vindouro, uma conquista do futuro!

Décadas se passaram, e o que vimos foram sucessivas tentativas, com maior ou menor sucesso, de ajustar esse modelo e mantê-lo alinhado aos “ventos da economia” — leia-se, aos desejos do capital. Para isso, recorreu-se a tudo: guerras, invasões, golpes, políticas de influência e intervenções ao mais puro estilo da Guerra Fria, mesmo depois do fim oficial dela.

De fato, os Estados Unidos nunca foram muito melhores ou muito piores do que agora. Nem mesmo sob governos supostamente progressistas. Sempre entre bombas atômicas e drones assassinos.

É aqui que nos encontramos.

Trump não é uma ruptura; é uma atualização. Ele representa uma nova readequação dos EUA ao contexto global: um mundo economicamente influenciado pela China, com a Rússia reposicionada como potência regional e com corporações e bilionários detendo mais poder do que nações inteiras. Nações no plural! Um mundo em que o Estado-nação não desaparece, mas se esvazia — torna-se um “nome fantasia”, útil apenas como uma forma de organização dos negócios. Como se fossem setores de empresas globais. Mais do que isso: um mundo em que o próprio conceito de capital e geração de valor se redesenha por meio de moedas virtuais, ativos intangíveis e fortunas que ultrapassam qualquer parâmetro imaginável. E, talvez o ponto central, um mundo que caminha rapidamente para um colapso climático irreversível.

Trump representa, portanto, uma política explícita de conquista do futuro. Um futuro distópico.

Como todo presidente dos EUA, Trump serve diretamente aos fluxos do capital — grupos plenamente conscientes de que o mundo de outrora, abundante em energia e recursos, está prestes a ruir. Grupos que sabem que não haverá mundo para todos e que, por isso, se organizam para preservar os seus próprios mundos.

A missão nefasta de Trump é preparar os EUA para um cenário em que a água vale mais como insumo energético para data centers do que como condição básica de vida — inclusive para a própria população americana. Um mundo em que o colapso dos indicadores sociais, a precarização da existência, a degradação ambiental e o endividamento crônico da nação são tratados como detalhes irrelevantes no processo de consolidação do poder.

Mais ainda: esses colapsos são frequentemente instrumentalizados como combustível narrativo dessa política de conquista do futuro — como vemos hoje na mobilização contra imigrantes e na política de tarifas.

A invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente são apenas mais um capítulo desse processo. O momento em que os EUA finalmente deixam de fingir. Já não jogam — nem simulam jogar — segundo as regras do passado. O mundo para o qual estão se adaptando exige novas regras, desenhadas à força.

Enquanto isso, o nosso lado insiste no faz de conta institucional. Acredita em notas de repúdio de uma ONU impotente, ou se agarra à esperança reciclada de que o império americano está, finalmente, ruindo, que este sejam os últimos suspiros de um moribundo.

Já são mais de cinquenta anos de espera desde a Queda de Saigon…

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