Democracias frágeis, quintais disputados e o retorno dos xerifes do mundo

A derrubada rápida de um regime vizinho, sem capacidade de dissuasão militar, envia um recado universal: governos economicamente frágeis, isolados diplomaticamente e sem base social consistente tornam-se alvos potenciais

Por Marcio Ferreira*, Le Monde Diplomatique Brasil

A captura de Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos provocou reações profundamente divergentes na América Latina e escancarou uma realidade incômoda: a democracia na região é frágil não apenas por seus déficits internos, mas porque está permanentemente submetida às lógicas de poder de um sistema internacional cada vez mais regido por zonas de influência e decisões unilaterais.

Cinco países – México, Chile, Brasil, Cuba e Colômbia – condenaram a operação e criticaram a captura de Maduro. Em sentido oposto, Equador e Argentina aplaudiram a ação. Essa divisão não é episódica. Ela revela projetos distintos de inserção internacional e diferentes compreensões sobre soberania, legalidade e democracia.

A operação norte-americana não contou com autorização da ONU, tampouco com aval do Congresso dos EUA, configurando uma intervenção à margem do direito internacional. Mais do que um fato isolado, trata-se da aplicação prática do que pode ser chamado de Corolário Trump da Doutrina Monroe: a ideia de que o continente americano constitui um espaço sob tutela direta de Washington.

Formulada originalmente em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe pretendia afastar as potências europeias do continente. Reformulada em 1904 por Theodore Roosevelt, passou a legitimar o intervencionismo direto dos Estados Unidos na América Latina ao longo do século XX, como nos casos da Nicarágua, Haiti, Cuba, República Dominicana e no apoio a golpes militares no Chile e na Argentina.

A novidade agora não está apenas na ação em si, mas no contexto global em que ela ocorre. A derrubada rápida de um regime vizinho, sem capacidade de dissuasão militar, envia um recado universal: governos economicamente frágeis, isolados diplomaticamente e sem base social consistente tornam-se alvos potenciais. A Venezuela funciona como laboratório.

Esse movimento tem consequências que extrapolam a América Latina. Ao agir como “xerife” incontestável no seu entorno, Donald Trump estabelece um precedente perigoso: legitima, ainda que indiretamente, que outras potências façam o mesmo em suas áreas de influência. O silêncio – ou a neutralidade estratégica – da Rússia e da China não é acidental.

Ao reconhecer, na prática, os respectivos espaços de hegemonia de Vladimir Putin e Xi Jinping, Washington envia um sinal claro: “cada um cuida do seu quintal”. Nesse cenário, Taiwan e a Ucrânia têm razões concretas para preocupação. A regionalização do imperialismo transforma conflitos locais em peças de uma negociação maior entre superpotências.

O silêncio de Rússia e China não deve ser interpretado como indiferença, mas como parte de uma lógica clássica de acomodação entre potências. A divisão do mundo em zonas de influência, típica da Guerra Fria, retorna agora sem os freios ideológicos daquele período. Cada “xerife” patrulha sua região, tolerando ações semelhantes dos demais, desde que seus interesses vitais não sejam afetados. Esse arranjo informal corrói a ideia de ordem internacional compartilhada e substitui a cooperação por um equilíbrio instável baseado no medo, na força e na barganha permanente.

O encontro recente entre Trump e Putin, oficialmente voltado à guerra na Ucrânia, dificilmente ignorou a Venezuela. Em geopolítica, acordos tácitos e silêncios estratégicos costumam valer mais do que declarações públicas. A própria Rússia sinalizou solidariedade ao povo venezuelano, mas deixou claro que não pretende se envolver.

A reação europeia foi distinta. Espanha classificou a intervenção como imprópria e afirmou que não a reconhecerá. A União Europeia evocou o direito internacional e a soberania nacional, mesmo reconhecendo que o governo Maduro carece de legitimidade democrática. O ponto central, contudo, permanece: o direito do povo venezuelano foi atropelado, substituído por uma solução externa, unilateral e militarizada.

Quando Trump declara abertamente que seu interesse na Venezuela é o petróleo, o discurso se desnuda. Como afirmou o presidente Lula, trata-se de uma grave afronta à soberania. O temor latino-americano não é abstrato. Hoje é a Venezuela; amanhã pode ser qualquer país que detenha recursos estratégicos, reservas energéticas, minerais ou extensas terras produtivas.

O contraste retórico ajuda a compreender o momento. Javier Milei, ao comemorar a intervenção, celebrou a ação em nome da “liberdade”, enquanto tentava associar Lula a Maduro, ignorando o distanciamento já existente entre o governo brasileiro e o regime venezuelano. Trata-se menos de análise política e mais de guerra cultural, onde slogans substituem argumentos.

No fundo, o episódio revela uma verdade desconfortável: a democracia latino-americana é duplamente vulnerável. Internamente, sofre com instituições frágeis, desigualdade social e lideranças autoritárias. Externamente, é tratada como variável ajustável em um tabuleiro global dominado por potências que se comportam como polícias regionais.

O “xerife do mundo” não desapareceu. Ele se multiplicou. Cada potência patrulha seu espaço, redefine regras, escolhe aliados e inimigos. Nesse jogo, a democracia torna-se retórica conveniente, a soberania vira obstáculo e os povos, figurantes de decisões tomadas muito acima de suas vontades.

Para o Brasil e para a América Latina, o episódio venezuelano funciona como um alerta estratégico. Em um mundo marcado pela disputa por recursos naturais, energia e alimentos, países detentores de vastos territórios e riquezas tornam-se alvos potenciais de pressões externas. Defender a democracia, nesse contexto, significa também defender a soberania, o multilateralismo e a capacidade de decidir os próprios rumos. Caso contrário, a região corre o risco de voltar a ser tratada não como sujeito político, mas como espaço disponível à ação dos novos xerifes do mundo.

Pensar a América Latina a partir da Venezuela exige abandonar ilusões. O desafio não é apenas derrubar ditaduras ou denunciar fraudes eleitorais, mas defender a democracia contra sua instrumentalização pelas grandes potências. Caso contrário, o risco é claro: em nome da ordem, da liberdade ou do mercado, o lobo seguirá liderando e julgando o rebanho.

*Marcio Ferreira é jornalista, Mestre em Sociologia e Doutorando em Sociologia Política pelo IUPERJ/UCAM

Imagem:  Wikimedia Commons

Deixe um comentário

O comentário deve ter seu nome e sobrenome. O e-mail é necessário, mas não será publicado.

doze − 12 =