Contra a redução epistêmica: em defesa de Nêgo Bispo e da substantividade do pensamento contracolonial. Por Pâmela Carvalho

A pesquisadora e historiadora Pâmela Carvalho discute em texto de opinião a obra do intelectual e filósofo quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, em contraste com recente texto publicado no Blog da Boitempo com críticas à produção e impacto do escritor

No Alma Preta

O mundo acadêmico e político atravessa uma encruzilhada histórica: diante do colapso das narrativas dominantes, eurocêntricas, lineares e monoculturais, emergem vozes que ousam deslocar o centro do discurso. Em 21 de janeiro de 2026, no Blog da Boitempo, foi publicado o texto “Contra Nego Bispo”, assinado por Douglas Barros, que critica o pensamento de Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo. O autor pretende situá-lo como um sujeito que teria abandonado a análise material do mundo em favor de uma “visionarização” mítica ou essencialista, um desvio perigoso para a esquerda crítica.

A discrepância entre o que Bispo efetivamente construiu como contribuição filosófica e política e a forma caricatural com que seu pensamento foi retratado não é apenas um mal-entendido acadêmico. Trata-se de uma forma de epistemicídio silencioso, a lógica pela qual determinados saberes negros são reinterpretados por lentes eurocêntricas que não dialogam, mas cooptam e neutralizam. Por isso, é necessário devolver ao pensamento de Nêgo Bispo sua densidade, sua historicidade e sua coerência consigo mesmo.

Essa forma de violência intelectual, atualizada pelo artigo já citado, não é nova. Ela é estrutural e funda o próprio edifício do Ocidente. Como nos ensinou Frantz Fanon, o colonialismo não é apenas um regime de exploração econômica; é uma arquitetura de mundo que classifica existências. Ele decide quem é humano em plenitude e quem é humano em falta. Ele decide quem produz saber e quem produz apenas experiência. Quem pensa e quem sente. Quem teoriza e quem vive.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a reputação de um autor. É algo muito maior: quem tem o direito de propor categorias para pensar o mundo.

Nêgo Bispo não escreveu para ser autorizado. Ele escreveu para existir. E isso, para a modernidade colonial, é um escândalo.

O incômodo que seu pensamento provoca não é teórico; é ontológico. Ele não pergunta apenas “o que é o colonialismo?”, mas “que tipo de mundo o colonialismo tornou pensável?”. E, mais ainda: “que mundos ele tentou tornar impensáveis?”. Responder a um texto que se propõe a estar “contra” Nêgo Bispo não é, portanto, um gesto de defesa pessoal. É um gesto de defesa cosmopolítica no sentido mais radical do termo: uma disputa sobre quais mundos cabem dentro da ideia de mundo.

Quem foi Nêgo Bispo e o que ele realmente propôs

Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, não foi um autor no sentido moderno do termo. Ele foi um acontecimento, de forma não metafórica, e sim metodológica.

O pensamento de Bispo não nasce de um gabinete, mas de um território. Não nasce da separação entre sujeito e objeto, mas da convivência entre gente, rio, planta, memória, reza, luta, trabalho e sonho. Ele não escreve a partir da distância; escreve a partir da implicação. E isso, para as epistemologias coloniais, é visto como defeito. Para as epistemologias ancestrais, é condição de verdade. Bispo nasce e se forma no quilombo Saco-Curtume, no Piauí. Não se trata de um dado biográfico irrelevante, mas de um dado ontológico. O quilombo, para ele, não é apenas um lugar; é uma forma de mundo. Uma tecnologia de existência. Um modo de reorganizar o tempo, o espaço, o parentesco, a economia, a política e o sagrado.

Em Colonização, Quilombos: modos e significados e em A terra dá, a terra quer, Bispo não está apenas descrevendo práticas. Ele está formulando conceitos. Mas conceitos que não surgem da abstração, e sim da vida. Conceitos enraizados. Conceitos com cheiro de chão, de folha, de suor, de comida partilhada. O que a crítica não compreende, ou se recusa a compreender, é que o pensamento de Bispo não é menos rigoroso por não ser cartesiano. Ele é rigoroso de outro modo. Um rigor que não separa pensar e viver. Um rigor que não se constrói contra a experiência, mas com ela.

Isso é intolerável para uma tradição que entende o pensamento como aquilo que se separa do mundo para observá-lo de cima.

Bispo pensa de dentro. E pensar de dentro é sempre perigoso para quem construiu o mundo de fora.

Contracolonialidade não é fuga. É confronto

O texto publicado no blog da Boitempo acusa Bispo de abandonar a análise material para se refugiar em uma espécie de cosmovisão. Essa crítica só é possível porque o autor parte de uma noção muito específica do que seja “material”.

Para Bispo, o material não é apenas aquilo que pode ser mensurado, quantificado ou representado como mercadoria. O material é aquilo que sustenta a vida. Aquilo que a reproduz. Aquilo que a faz persistir. O material é o chão, a água, o corpo, o alimento, o tempo partilhado, o cuidado, a memória. Essa definição é mais radical do que a definição moderna.

O colonialismo ensinou que o mundo é um estoque. Bispo responde: o mundo é uma relação.

Sua ideia de contracolonialidade não é uma teoria da resistência simbólica, mas uma teoria da reorganização da vida. Ele não quer apenas derrubar o sistema; quer criar outras formas de estar no mundo que não dependam dele. E isso é profundamente material.

O problema é que essa materialidade não cabe nas categorias da economia política clássica. Ela exige outro vocabulário. Outro tempo. Outro modo de prova. E é exatamente aí que mora o desconforto.

Cosmofobia: quando o mundo do outro vira ameaça

Nêgo Bispo nomeou algo que a modernidade colonial sempre praticou, mas raramente confessou: a cosmofobia. Não se trata de medo do cosmos no sentido astronômico, mas de medo de mundos. Medo de que existam outras formas de organizar a vida, outras ontologias, outras gramáticas do real que não passem pelo filtro do Ocidente.

O colonialismo sempre foi cosmofóbico. Ele não invadiu apenas territórios. Invadiu regimes de verdade. Ele não sequestrou apenas corpos; sequestrou sentidos. Ele não extraiu apenas ouro e trabalho; extraiu também narrativas, rebatizando-as como superstição, mito, atraso, irracionalidade. Cosmofobia é o nome do pânico que a modernidade sente quando percebe que não é o centro do universo.

O pensamento de Bispo incomoda porque ele não pede autorização para existir dentro das categorias do colonizador. Ele não quer “dialogar” no sentido conciliador. Ele quer reorganizar o tabuleiro. Quando ele fala de mundos, não está fazendo poesia. Está fazendo ontologia política.

Ele nos lembra que a colonialidade não é apenas um sistema de dominação econômica, mas uma máquina de estreitamento do possível. Ela produz escassez de mundo. Ela transforma a pluralidade em exceção. Ela transforma a diversidade em ruído. O projeto colonial não é apenas dominar. É normalizar.

Normalizar o tempo.
Normalizar o corpo.
Normalizar o saber.
Normalizar a morte.
Normalizar a violência.

A cosmofobia é o motor invisível dessa normalização.

Epistemicídio: o assassinato lento dos modos de saber

A crítica ao pensamento de Bispo repete, sem nomear, um gesto antigo: o gesto de declarar que certos modos de conhecimento não são propriamente conhecimento. Isso tem nome: epistemicídio. Esta política é o processo sistemático de desqualificação, silenciamento e substituição de saberes que não se encaixam nos padrões da ciência e da filosofia europeias modernas. Ele não mata apenas livros; ele mata línguas, práticas, cosmologias, rituais, memórias, formas de ensinar, formas de aprender, formas de narrar o mundo.

O que Bispo faz é interromper esse assassinato lento. Ele não pede para que os saberes quilombolas sejam “incluídos” no cânone. Ele recusa o cânone como instância suprema. Ele não quer reconhecimento; quer reciprocidade. E isso é mais radical. Porque a inclusão pressupõe hierarquia. A reciprocidade pressupõe equivalência.

O texto “Contra Nego Bispo” opera, ainda que involuntariamente, a partir da lógica da inclusão: avalia se o pensamento de Bispo é ou não compatível com os critérios da crítica materialista clássica. Mas Bispo não está tentando ser compatível. Ele está tentando ser consequente.

Ele está dizendo: talvez o problema não esteja no meu pensamento. Talvez esteja na estreiteza do quadro que o avalia.

Oralidade, corpo e território como tecnologias de pensamento

Uma das armadilhas mais recorrentes da modernidade é supor que o pensamento só existe quando se separa da vida. Que a teoria só nasce quando se abstrai do corpo. Que a razão só se torna legítima quando se afasta da experiência.

Essa é uma ficção útil ao colonialismo. Porque ela transforma os povos que pensam com o corpo, com o território, com a memória oral, com a ancestralidade em povos sem filosofia.

Bispo desmonta essa ficção. Ele nos mostra que a oralidade não é ausência de rigor, é outro tipo de rigor. Um rigor que não se baseia na fixação, mas na circulação. Não na acumulação, mas na partilha. Não na autoria individual, mas na co-criação. A oralidade não é instável; ela é viva. E tudo o que é vivo se transforma.

O problema da modernidade não é que ela queira registrar. É que ela quer congelar. Ela quer transformar o mundo em arquivo. Em objeto.

Bispo recusa essa objetificação da vida. Ele pensa com os pés no chão. Literalmente. Ele pensa com os caminhos, com as folhas, com os rios, com os mortos, com os nascidos e com os que ainda virão. Isso não é misticismo. É política.

Porque quem controla o que é considerado pensamento controla o que é considerado possível.

O erro da esquerda quando se torna colonial

Talvez a parte mais difícil desse debate seja reconhecer que a crítica ao pensamento de Bispo não vem da direita. Vem da esquerda. E isso exige coragem.

A esquerda, quando não revisa suas próprias heranças coloniais, pode se tornar guardiã de um universalismo que só serve a alguns. Pode se tornar polícia do método. Pode confundir rigor com rigidez. Pode confundir materialismo com reducionismo. Pode esquecer que as categorias com as quais ela pensa o mundo também têm história, e essa história é colonial.

O que Bispo desafia não é a crítica ao capitalismo. É a ideia de que só existe uma maneira legítima de criticar o capitalismo. Ele nos pergunta: e se a luta não for apenas contra um sistema, mas contra um modo de imaginar? E se o colonialismo não for apenas uma estrutura, mas uma pedagogia do mundo? E se a revolução não for apenas a tomada dos meios de produção, mas a devolução dos meios de existência? Essas perguntas não são evasivas. São abissais.

O falso dilema entre o material e o simbólico

Um dos equívocos mais persistentes da crítica dirigida ao pensamento de Nêgo Bispo é a tentativa de enquadrá-lo dentro de uma oposição que a própria história do pensamento crítico já demonstrou ser insuficiente: a separação rígida entre o material e o simbólico, entre o econômico e o cosmológico, entre o político e o espiritual. Essa dicotomia, herdeira direta do racionalismo moderno e de suas clivagens ontológicas, não apenas empobrece a análise como também invisibiliza formas de vida e de luta que jamais se organizaram segundo essas compartimentalizações.

Quando Bispo pensa o colonialismo como uma experiência totalizante, ele não está negando suas dimensões econômicas, mas reconhecendo que o capital não opera sozinho; ele precisa de narrativas, de hierarquias de valor, de regimes de sentido, de pedagogias do mundo que tornem a exploração aceitável, naturalizada, quase invisível. Não existe acumulação sem desumanização prévia, e não existe desumanização sem uma gramática simbólica que a autorize. O colonialismo, nesse sentido, não é apenas uma estrutura de dominação; é uma ontologia forçada, um modo de dizer quem conta como vida e quem pode ser descartado.

A crítica que acusa Bispo de abandonar a análise material em favor de uma “cosmovisão” parte de uma concepção extremamente estreita do que seja o material. Ela assume, sem problematizar, que o material é aquilo que pode ser convertido em valor de troca, em mercadoria, em força de trabalho. Mas para povos que sempre tiveram suas formas de vida ameaçadas pela colonização, o material não é apenas aquilo que se compra e se vende; o material é aquilo que sustenta a existência: o território, a água, a terra, o tempo compartilhado, o corpo, a ancestralidade, os ciclos da natureza, as redes de cuidado, as formas de reprodução da vida que não se deixam traduzir integralmente pela lógica do capital.

Ao afirmar isso, Bispo não está fugindo da materialidade; ele está aprofundando o que ela significa. Ele está dizendo, em outras palavras, que a luta contra o colonialismo não pode ser apenas uma luta por outra distribuição de riquezas dentro do mesmo mundo, mas precisa ser também uma luta por outros mundos possíveis, outras ontologias, outras maneiras de definir o que é riqueza, o que é valor, o que é vida digna de ser vivida. Essa não é uma evasão; é uma radicalização.

Universalismo, razão e o problema da tradução forçada

Outro ponto sensível do debate diz respeito ao universalismo. A crítica a Bispo, ao insistir que ele estaria abandonando parâmetros racionais universais em nome de uma perspectiva localizada, não percebe que o universalismo moderno nunca foi verdadeiramente universal. Ele sempre foi situado, ainda que se apresentasse como neutro; sempre foi particular, ainda que se proclamasse absoluto. Ele sempre falou a partir de um lugar específico, europeu, branco, cristão, burguês, enquanto afirmava falar em nome da humanidade inteira. Esse universalismo não é apenas uma categoria filosófica; é uma tecnologia de poder.

Ao declarar-se universal, ele transforma tudo o que escapa a ele em particularismo, folclore, exotismo, crença, cultura — mas não em pensamento pleno. A crítica a Bispo repete esse gesto quando exige que seu pensamento seja traduzido integralmente para categorias que não foram feitas para acolhê-lo, e, quando ele resiste a essa tradução, acusa-o de obscurantismo, idealismo ou irracionalidade. Mas nem toda tradução é neutra. Há traduções que são formas de captura.

Bispo recusa ser traduzido nos termos de uma racionalidade que sempre precisou eliminar mundos para se afirmar como única. Ele não rejeita a razão; ele rejeita a ideia de que exista apenas uma razão legítima. Ele não recusa a crítica; ele recusa o monopólio da crítica. Essa recusa não é anti-intelectual. É profundamente filosófica. Ela nos obriga a perguntar: quem decidiu o que conta como argumento? Quem decidiu o que é prova? Quem decidiu o que é conceito? Quem decidiu o que é filosofia? Essas decisões nunca foram neutras. Elas sempre estiveram atravessadas por relações de poder.

Nêgo Bispo e a filosofia da vida concreta

O pensamento de Nêgo Bispo não se organiza como um sistema fechado. Ele não pretende oferecer uma teoria totalizante do mundo, mas sim um modo de caminhar dentro dele. Seu pensamento não busca dominar o real, mas escutá-lo. Ele não quer enquadrar a vida; quer aprender com ela.

Isso o coloca em uma tradição que a modernidade insiste em não reconhecer como filosófica: a tradição daqueles que pensam a partir da experiência, da memória, da oralidade, da relação, da ancestralidade, da convivência com os ciclos da natureza. Essa tradição não se organiza por tratados, mas por narrativas, por cantos, por rituais, por práticas cotidianas que são, em si mesmas, formas de elaboração conceitual.

Quando Bispo fala de quilombo, ele não está falando apenas de um refúgio histórico de escravizados. Ele está falando de uma tecnologia social de reinvenção da vida em contextos de morte. Ele está falando de uma inteligência coletiva que soube reorganizar o tempo, a economia, a política e o sagrado de modo a não reproduzir integralmente as lógicas do opressor. Isso é filosofia. Mas é uma filosofia que não cabe nos moldes clássicos. A insistência em não reconhecer isso como pensamento pleno revela mais sobre os limites da crítica do que sobre os limites de Bispo.

O problema não é Bispo; é o campo

Talvez seja preciso dizer isso de modo direto: o problema não é que Nêgo Bispo seja insuficientemente crítico; é que o campo crítico ainda é insuficientemente descolonizado.

Ele ainda opera com uma ideia muito estreita de racionalidade. Ele ainda associa abstração a profundidade, e enraizamento a ingenuidade. Ele ainda suspeita do pensamento que nasce da vida, mas confia plenamente naquele que nasce da separação. O incômodo que Bispo provoca é sintoma de algo maior: a dificuldade que a esquerda tem de lidar com formas de pensamento que não pedem autorização para existir.

Pensar não é traduzir o mundo: é escutá-lo

O que o pensamento de Nêgo Bispo nos convoca a fazer não é apenas compreender o colonialismo de outra forma, mas reaprender o que significa pensar. Essa talvez seja a dimensão mais radical de sua obra: ele não propõe apenas novas respostas, mas desloca as próprias perguntas. Ele não pergunta apenas “como superar o colonialismo?”, mas “o que é que o colonialismo nos ensinou a chamar de pensamento?”, “que formas de inteligência foram silenciadas para que uma única se tornasse hegemônica?”, “que mundos foram tornados impossíveis para que um único mundo pudesse se afirmar como universal?”.

Essas perguntas não cabem dentro de uma crítica que se limita a medir o pensamento do outro pelo grau de aderência a categorias prévias. Elas exigem outra postura: uma postura de escuta. Mas não a escuta paternalista, que tolera o outro como diferença cultural, e sim a escuta que aceita ser transformada. Escutar Bispo é aceitar que talvez não sejamos o centro de nada. É aceitar que o mundo não precisa ser explicado a partir de nós. É aceitar que a razão moderna não é a medida de todas as coisas, mas apenas uma entre muitas formas de organizar o sensível, o pensável, o dizível.

Essa aceitação é profundamente política, porque mexe com privilégios epistêmicos. Ela nos obriga a abandonar a confortável posição de árbitros do pensamento.

A recusa da hierarquia como gesto político

O pensamento moderno é profundamente hierárquico. Ele organiza o mundo em escalas: mais desenvolvido, menos desenvolvido; mais racional, menos racional; mais científico, menos científico; mais filosófico, menos filosófico. Essa hierarquia não é um erro colateral: ela é a própria engrenagem do colonialismo. Quando Bispo recusa essas escalas, ele não está relativizando tudo; ele está politizando tudo.

Ele está dizendo que não existe neutralidade na forma como organizamos o conhecimento. Ele está dizendo que chamar algo de “cosmovisão” em vez de “filosofia” não é inocente. Ele está dizendo que chamar algo de “sabedoria popular” em vez de “epistemologia” não é despretensioso. Ele está dizendo que essas escolhas de nome produzem efeitos materiais, porque organizam quem pode falar, quem pode ensinar, quem pode decidir.

A crítica que tenta enquadrar Bispo como um pensador que teria abandonado a análise material em favor de uma espécie de espiritualismo ignora que, para povos historicamente colonizados, o mundo nunca foi dividido nesses compartimentos. Corpo, território, memória, espiritualidade, economia e política sempre estiveram imbricados. A separação moderna é que é artificial. O que Bispo faz é recusar a artificialidade dessa cisão.

O pensamento que não quer dominar

Existe uma obsessão moderna por sistemas, por teorias totais, por modelos que explicam tudo. Essa obsessão não é apenas intelectual; ela é também colonial. Ela expressa o desejo de controle, de previsibilidade, de ordenamento do mundo segundo parâmetros que possam ser administrados. O pensamento de Bispo não quer controlar o mundo. Ele quer conviver com ele. E isso não é fraqueza; é ética.

Ele não se organiza como uma doutrina, mas como um modo de estar. Não como um conjunto de teses, mas como um conjunto de práticas. Não como um manual, mas como uma caminhada.

Esse tipo de pensamento é difícil para a academia moderna porque ele não se deixa capturar facilmente. Ele não cabe em fichamentos. Ele não se resume em conceitos estanques. Ele exige presença, tempo, convivência, escuta. E tudo o que exige tempo, presença e escuta é considerado improdutivo pela lógica colonial-capitalista.

O incômodo como índice de verdade

Talvez devêssemos começar a ler o incômodo como um índice de verdade.

O pensamento de Bispo incomoda porque ele não se esforça para ser palatável. Ele não se adapta aos modos consagrados de validação. Ele não pede licença. Ele não implora reconhecimento. Ele existe.

E isso, para uma tradição acostumada a decidir quem pode existir como pensamento, é profundamente perturbador. O texto “Contra Nego Bispo” não é apenas uma crítica a um autor; é uma tentativa de reencaixá-lo em uma moldura que ele próprio rompeu. É um esforço para domesticar aquilo que nasceu como indomesticável. Mas Bispo não quer ser domesticado. Nunca coube nesta caixa.

A tarefa que ele nos deixa

O que está em jogo neste debate não é apenas o estatuto de um autor. É o estatuto de mundos inteiros. Reduzir Nêgo Bispo a um pensador “mítico”, “idealista” ou “espiritualista” é um modo de reduzir os mundos que ele expressa. É uma forma elegante de dizer: isso não é pensamento de verdade. E nós sabemos onde esse gesto termina. Na exclusão. No silenciamento. No epistemicídio.

O legado de Nêgo Bispo não é uma teoria fechada. É uma tarefa. Ele nos deixa a missão de reaprender a pensar sem colonizar.

De reaprender a criticar sem hierarquizar.

De reaprender a teorizar sem apagar.

De reaprender a escutar sem traduzir tudo à força.

Essa tarefa é desconfortável porque ela exige que abandonemos a posição de centralidade. Ela exige que aceitemos que há pensamentos que não querem ser absorvidos pelo nosso repertório, mas sim transformá-lo. Defender Bispo não é concordar com tudo o que ele disse. É reconhecer que ele deslocou o chão.

E quando o chão se desloca, não se trata de consertá-lo, trata-se de aprender a andar de novo.

Pâmela Carvalho – Educadora, historiadora e mestre em educação, gestora cultural, pesquisadora ativista das relações raciais e de gênero e dos direitos de populações de favelas. Fundou o coletivo de educação antirracista Quilombo Etu. É articuladora do Mulheres Negras Decidem e filiada ao Movimento Negro Unificado. É coordenadora na Redes da Maré e representa institucionalmente a organização na secretaria executiva do Fórum Permanente pela Igualdade Racial (FOPIR) e na Coalizão Negra por Direitos.  Coordena o Centro AfroCarioca de Cinema e é moradora do Parque União, no Conjunto de Favelas da Maré (RJ).

O intelectual e filósofo quilombola Antônio Bispo dos Santos. Foto: Alexia Melo /Conaq

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