Da retomada do território à universidade: a formatura de uma mulher Kaingang na Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha

Mais do que um diploma, a formatura em Odontologia de uma jovem indígena reafirma o papel das políticas públicas, das ações afirmativas e da resistência comunitária na construção de novos caminhos

Por Ivan Cesar Cima e Roberto Liebgott, em Cimi Regional Sul

A luta do povo Kaingang pela demarcação da Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha, localizada nos municípios de Cacique Doble e Sananduva, no norte do Rio Grande do Sul, expressa a persistência histórica na defesa de seus direitos originários diante da omissão do Estado e das permanentes disputas fundiárias. Mesmo após o reconhecimento técnico de que se trata de território tradicional, o processo demarcatório permanece paralisado por contestações judiciais e decisões que desconsideram a ocupação histórica indígena, aprofundando a insegurança territorial e social vivida pela comunidade.

Nesse cenário de resistência contínua, a formatura de Tailine Franco, mulher Kaingang da Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha, assume um significado que ultrapassa a dimensão individual. Sua conclusão do curso de Odontologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), celebrada no dia 31 de janeiro de 2026, constitui-se como um ato político coletivo, que evidencia a relação indissociável entre território, educação e dignidade para os povos indígenas.

“A luta do povo Kaingang pela demarcação da TI Passo Grande do Rio Forquilha expressa a persistência histórica na defesa de seus direitos originário”

A celebração ocorreu no próprio território reivindicado pelos Kaingang e reuniu comunidade, familiares e apoiadores. Em um espaço ainda marcado pela fragmentação territorial e pela negação de direitos, o diploma de Tailine simbolizou mais do que uma conquista acadêmica: representou a permanência de um povo que resiste às tentativas históricas de apagamento, seja pela violência fundiária, seja pela exclusão educacional.

Filha de um processo de retomada territorial iniciado nos anos 2000, Tailine cresceu em acampamentos precários, à beira de estradas, em um contexto de insegurança jurídica, racismo e criminalização da luta indígena. Sua trajetória pessoal revela, de forma concreta, os impactos da morosidade do Estado na demarcação das terras indígenas, bem como a importância das políticas públicas de inclusão no enfrentamento das desigualdades estruturais.

Ao acessar e permanecer na universidade pública, Tailine atravessou espaços que historicamente não foram pensados para corpos indígenas. Como tantas outras estudantes indígenas no país, enfrentou o racismo cotidiano, o racismo institucional e o permanente questionamento de sua presença. Sua formatura expõe uma contradição central da sociedade brasileira: quando o Estado garante direitos — como o acesso ao ensino superior por meio de ações afirmativas — os povos indígenas demonstram sua capacidade de produzir conhecimento, ciência e cuidado; quando esses direitos são negados, produz-se sofrimento social evitável.

“A formatura de Tailine Franco, mulher Kaingang da Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha, assume um significado que ultrapassa a dimensão individual”

Luta pelo território

Essa trajetória não pode ser dissociada da luta territorial. A Terra Indígena Passo Grande do Rio Forquilha teve seus estudos de demarcação concluídos e sua portaria declaratória publicada. No entanto, decisões judiciais fundamentadas na tese do marco temporal buscaram anular esse reconhecimento, como se a memória, a presença e a história dos povos indígenas tivessem data de validade. Apesar de o Supremo Tribunal Federal ter declarado a inconstitucionalidade dessa tese, a realidade concreta segue marcada pela fragmentação: apenas uma pequena parte dos quase três mil hectares declarados encontra-se hoje sob posse do povo Kaingang.

Nesse contexto, a celebração da formatura de Tailine também se torna um gesto de denúncia. Não há educação plena sem território garantido. Não há futuro possível para os povos indígenas sem a efetivação do direito originário à terra. Cada jovem indígena que chega à universidade carrega consigo a luta de sua comunidade, e cada diploma conquistado reafirma a urgência da demarcação das terras indígenas como política estruturante de justiça social e ambiental.

“A celebração da formatura de Tailine também se torna um gesto de denúncia. Não há educação plena sem território garantido”

Depoimento

Durante a celebração, Tailine fez um depoimento que sintetizou essa dimensão coletiva de sua conquista, recuperando memórias da luta territorial, destacando o papel das políticas de ações afirmativas e reafirmando que nenhuma vitória indígena é individual, mas fruto da resistência de famílias, comunidades e povos inteiros.

Ao final da celebração, entre rezas, danças, palavras e partilha, reafirmou-se uma certeza ancestral: o povo que cuida da terra não será esquecido. A história de Tailine Franco demonstra que a luta pela demarcação das terras indígenas não se restringe à disputa por hectares, mas diz respeito à possibilidade concreta de futuro, de permanência e de florescimento coletivo.

A formatura de uma mulher Kaingang em Passo Grande do Rio Forquilha revela, com clareza, que quando a terra resiste, o povo floresce — e que cada direito garantido produz frutos que ultrapassam gerações.

“Tailine fez um depoimento que sintetizou essa dimensão coletiva de sua conquista, recuperando memórias da luta territorial, destacando o papel das políticas de ações afirmativas”

Confira depoimento de Tailine:

Gostaria de agradecer a presença de todos aqui presentes.
Acredito que muitas das pessoas presentes acompanharam a nossa trajetória de luta desde 2004, quando iniciamos a retomada do território Passo Grande do Rio Forquilha, além de tantas outras situações delicadas e dolorosas que enfrentamos enquanto família e enquanto comunidade. Trago hoje algumas memórias pessoais, mas que também são coletivas, para refletirmos sobre a importância desta conquista.

Durante sete anos de acampamento, vivemos sem energia elétrica, sem saneamento básico, sem banheiro, com pouco acesso à saúde e à educação diferenciada para o nosso povo Kaingang. Infelizmente, essa não é uma realidade isolada: muitos parentes ainda vivem essas mesmas condições enquanto lutam pela demarcação de seus territórios. Diante disso, como se permitir sonhar? Sonhar em ser dentista, médico, enfermeiro, psicólogo — ou qualquer outra profissão — se desde muito cedo nos é apresentada uma realidade dura, em que tudo isso parece tão distante, quase impossível?  Mas eu consegui.

E muitos outros indígenas também conseguiram sonhar, ingressar na universidade, se formar, transformar a realidade de suas famílias e levar um atendimento específico às suas comunidades. Isso só foi e é possível graças às políticas de ações afirmativas, às cotas e às políticas de permanência e apoio estudantil. Por isso, deixo aqui meu respeito e meus parabéns a todos os estudantes indígenas que seguem incansáveis na luta todos os dias. Nossas conquistas enquanto indígenas nunca são e nem serão individuais, e esta não seria diferente, pois sempre tive o apoio da minha comunidade, parentes, amigos e conhecidos, além do apoio incentivo incansável da minha família. Aos meus pais, Ireni e Marcelina, que trabalharam — e trabalham — muito para que pudéssemos ter a chance de sonhar.

Mesmo tendo apenas a quarta e a quinta série, com trabalho duro e muita persistência, junto com meu irmão Leonir, conseguiram formar dois técnicos em enfermagem, um professor e, hoje, uma cirurgiã-dentista. Muito obrigada por tudo. Esse mérito é de vocês.  Durante esses anos de graduação, vi meus pais enfrentarem as mais diversas e dolorosas situações. Meu pai nos criou com dignidade, trabalhando na colheita da maçã. Minha mãe, como cozinheira, vendendo roupas pela região, vendendo pães, cucas e tudo mais — quem a conhece sabe que ela sempre esteve lutando e o quanto essa mulher é guerreira. Se um dia eu for metade do que essa mulher é, já estarei satisfeita.

Meu pai não pôde estar presente em muitos momentos importantes da minha vida. Desde 2014, perdemos celebrações como meus 15 anos, a formatura do ensino médio, a de técnica em enfermagem e até mesmo a minha entrada na faculdade. Essas celebrações não aconteceram porque sempre faltava uma parte da família, pela realidade que muitos aqui conhecem. Por isso, este momento é muito especial: é a primeira vez que meu pai, minha família e todos vocês presenciam a celebração da minha primeira formatura. Hoje, infelizmente, nossa família segue incompleta pela perda do meu irmão Leonir. Mas tenho certeza de que, de onde ele está, celebra essa conquista conosco e se orgulha, pois este também era seu desejo. Foi um sonho que a nossa família sonhou, sempre juntos.

Meus agradecimentos também aos meus irmãos William e Edimo, que, dentro de suas possibilidades, sempre estiveram à disposição para me ajudar nesses sete anos de faculdade. Também ao meu namorado Ruan pelo apoio e incentivo nos últimos 3 anos de graduação.  Essa conquista representa tanta coisa pra nós, mas especialmente muito trabalho duro, sacrifico e superação ao longo destes anos. Dizem que pra vencer basta força de vontade e trabalho, entretanto esquecem que as oportunidades nunca foram iguais para nós indígenas, tudo é conquistado através de muita luta. Se fosse apenas trabalho duro, muitas realidades já teriam sido transformadas há muito tempo. Minha família me deu o suporte essencial, mas jamais teria condições de arcar com uma faculdade particular de odontologia.

Foi graças à luta do povo brasileiro, dos movimentos sociais, do movimento indígena que hoje a universidade pública recebe indígenas e nos oferece condições mínimas de permanência como: bolsas, auxílios e, no meu caso, até apoio para a compra de materiais odontológicos. São essas políticas públicas que garantem que pobres, pretos, indígenas, quilombolas e outras populações historicamente excluídas tenham acesso a uma educação pública, gratuita e de qualidade. Assim, compartilho com vocês a minha aprovação no programa de residência na atenção Básica, saúde da família e comunidade, na escola de saúde pública de Porto Alegre, Através da reserva de vagas de ações afirmativas para indígenas darei continuidade a minha formação com mais 2 anos de estudo e dedicação a profissão que escolhi.  Ainda assim, mesmo sendo pública, a universidade continua sendo majoritariamente acessada pela elite.

Enfrentamos diversos tipos de racismo, dentre eles o racismo institucional, além das inúmeras dificuldades de pertencimento em um espaço que não foi pensado para nos receber, reconhecer a nossa capacidade e valorizar o conhecimento ancestral que carregamos enquanto indígenas. Também enfrentamos a saudade de casa. Perdemos almoços de domingo, aniversários e despedidas. No meu caso, não consegui me despedir de pessoas muito especiais: minha vó Maria, Farofa, Ricardo e até mesmo a minha Nina.

Que vocês estejam em paz e celebrando conosco hoje.  Por isso, aos que estão aqui hoje, especialmente os jovens, que os profissionais indígenas sejam inspiração para que vocês sigam a própria jornada, que apesar dos inúmeros desafios no final valerá a pena. Hoje temos oportunidades de ocupar espaços que historicamente nos foram negados — e seguimos lutando para que cada vez mais indígenas ocupem esses lugares, se sintam pertencentes e plenamente capazes de estar onde sempre foi nosso por direito.  Que cada vez mais Kaingang se formem e lutem pelo seu povo!  Que este seja um dia feliz, para conversarmos, rirmos e comemorarmos juntos. Espero que todos consigam aproveitar da melhor maneira este momento comigo e com a minha família.  Mais uma vez obrigada a todos e todas que se fazem presentes aqui hoje!

Tailine Franco, mulher Kaingang. Foto: Arquivo Formatura Tailine Franco

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