Esquerda gélida: o feminismo tem algo a dizer?

Em meio aos novos riscos de ascenso da ultradireita, e à falta de um projeto de transformações, pensadora feminista indaga: não terá se esgotado o paradigma que se opunha ao capitalismo sem questionar a estrutura falocêntrica de seu projeto de dominação?

Alessandra Affortunati, entrevistada por Marcel D. C. Souza, em Outras Palavras

O balanço sobre as heranças e dívidas do século XX é uma constante nos estudos das Ciências Humanas, em especial, nos que se desenvolveram a partir de críticas e avaliações sobre a história e a historiografia das correntes teóricas, das experiências políticas, revoluções, guerras e genocídios deste século.

Nos últimos dez anos, com a ascensão internacional de programas fascistas, a fase atual de extermínio na colonização israelense em Gaza, o sequestro do presidente latinoamericano Nicolás Maduro, bem como a intensificação e avanço, pós-Bolsonaro, da violência policial e privatizações no Brasil, em meio a uma premente incapacidade política das esquerdas de realizar alguma contraposição efetiva a esses avanços, essa constelação de fatores atualiza a importância de um balanço crítico.

Não apenas devido a prejuízos produzidos por de ataques da extrema-direita – mas talvez por uma desorientação dos que, em princípio, desejariam superar o capitalismo — vemos aparecer no centro dos debates expressões como “o futuro da esquerda” e questões sobre o diagnóstico de nosso tempo.

Livros como o “Junho de 2013: a rebelião fantasma”, publicado pela Boitempo em 2023, ou “A esquerda que não teme dizer o seu nome”, de Vladimir Safatle, republicado em 2025, são seguidos por entrevistas ou podcasts onde, vira e mexe, uma militante ou um influenciador faz um balanço sobre a sua história de vida e sua formação política nos últimos 20 anos. As ruas e os rolezinhos de 2013, as ocupações nas escolas em 2014, o golpe sobre Dilma em 2016, Bolsonaro, militares no poder e Lula. Mais recentemente, uma entrevista com a professora Marilena Chaui, na Folha de São Paulo, pareceu ser mais um desses balanços.

A escritora, filósofa e psicanalista Alessandra Affortunati Martins tem algo a dizer neste debate. Fala a partir de uma perspectiva feminista. Estuda, há cerca de uma década, o papel que a psicanálise (ou sua ausência) podem jogar no enfrentamento da ultradireita. Mais recentemente tem se debruçado ao ocultamento das mulheres na produção intelectual e política ao longo da História – praticado inclusive no âmbito da esquerda. Acaba de publicar “A palavra das mulheres como pharmakon: uma leitura arqueológica”, artigo em que examina o sufocamento, a partir do advento da lógica aristotélica, de outras modalidades de conhecimento – em especial as ligadas aos saberes das mulheres. Lançará em julho pela editora Cult, o livro Discursos da Vulva, em que se choca com a ideia freudiana da falta do pênis ou do falo e busca dar voz a outras cadeias de formas e linguagens associadas ao feminino. Na entrevista a seguir, ela debate tanto os impasses da esquerda quanto os papéis que podem caber às mulheres na reconstrução de horizontes políticos pós-capitalistas.

Alessandra tem 5 livros publicados: Sublimação e Unheimliche (Pearson, 2017), Freud e o patriarcado (Hedra/FAPESP, 2020), O sensível e a abstração (e-galaxia, 2021), Breve História da Carne (Iluminuras, 2023) e Limiares: desafios contemporâneos da psicanálise (Blucher, 2024).

Gostaria de recuperar, primeiro, seu balanço sobre as mudanças que identifica em suas próprias concepções ao longo das últimas décadas. Em 2019, quando tive contato com sua obra, eu via os intelectuais como capazes de compreender a realidade da ascensão do fascismo no Brasil. Mas talvez o entendimento de intelectuais não tenha produzido os efeitos esperados. O que mudou depois do governo Bolsonaro e da pandemia de Covid-19 ?

Estudo o nazifascismo de maneira intensa há décadas. O interesse pela obra de Walter Benjamin, que se iniciou nos anos 2000, também me conduziu para esse contexto de análise crítica entre as décadas de 1920-1945 na Europa. Antes de 2015, porém, esses estudos tinham uma versão talvez menos programática e só naquele ano assumiram protagonismo nas pesquisas que realizei em um pós-doutorado sobre O homem Moisés e a religião monoteísta. O ensaio foi escrito por Freud logo após a ascensão de Hitler ao poder e do exílio de Freud na Inglaterra.

Quando a extrema-direita se consolida como força política no Brasil de hoje, esse repertório anterior situa o fenômeno em minhas reflexões sobre o presente, mas ele ainda deixa várias lacunas para pensá-lo. O ano de 2018, por conseguinte, trouxe a mim a tarefa inglória de tentar entender algo sobre o bolsonarismo.

Comecei pelo Olavo de Carvalho que se nomeava filósofo. Li uma série de escritos olavistas quando quase ninguém da esquerda considerava isso importante e simplesmente subestimava a extrema-direita. Em um debate com Vladimir Safatle, publiquei pelo site da N-1 edições o ensaio “Da melancolia à mania suicida: o círculo demoníaco brasileiro”, que traça o panorama do que pude esmiuçar à época dessas investigações. Depois publiquei outros textos em que mostro como, sem dúvida, a crítica ainda é importante, mas só ela não dá mais conta de operar como resistência à força da direita. Constatando tal limite da crítica, assumi que os problemas atuais são sintomas modernos em amplo sentido e que todos nós somos responsáveis por eles.

Com isso, rompe-se o elemento judicativo moralista inerente a muitas análises críticas para permitir a entrada de um lugar importante da psicanálise. Toma-se, por meio dela, as múltiplas soluções de compromisso sintomáticas, isto é, as suas várias camadas – sociais, psíquicas, históricas, políticas – para decompô-las e analisá-las até dissolvê-las. O caráter antitético da crítica tem mostrado cada vez mais fortemente seus limites em uma era digital que opera por 0 ou 1, daí a importância de dar ênfase às mediações que se alocam nos limiares entre as diferentes posições que sempre são identidades – não só no que se chama “lutas identitárias”. Qualquer predicado atribuído a um nome é uma identidade, inclusive filósofo ou psicanalista, lacaniano ou freudiano, por exemplo.

A mudança, ainda anterior à Covid-19, mas que se acirrou a partir dela, se refere à glorificação e à heroicização do fascismo hoje e, de outro lado, uma espécie de impotência da memória e da história como formas de resistência à violência. Estou escrevendo um texto agora sobre os meandros dessa mudança a partir de Donald Trump, Eichmann, O. J. Simpson e o abismo de Gaza. A conexão entre tais figuras e elementos históricos, aparentemente disparatada, parte de escritos de duas feministas estudiosas de psicanálise e teoria crítica: Jacqueline Rose e Shoshana Felman. Esse fracasso importante da memória deve ocupar psicanalistas e filósofos – repetir, recordar e elaborar parecem insuficientes como alternativa ao mal e podem inclusive servir aos seus fins, eis o que me parece estar em jogo agora.

É uma trajetória de investigação pouco comum. De que maneira ela se relaciona à sua formação intelectual e pessoal?

Minha posição política à esquerda foi uma construção vagarosa, que se deu durante os primeiros anos de graduação em Psicologia na PUC-SP e se consolidou também teoricamente com os estudos que realizei pouco depois na Filosofia da FFLCH-USP. Minha família é composta por pessoas de direita – não extrema-direita, mas claramente de direita. Essa origem sempre concedeu um ar estrangeiro ao meu lugar como intelectual de esquerda. Ou seja, ser de esquerda não havia sido uma questão de berço, como ocorre com muitos intelectuais. Esse traço estrangeiro de minha origem demarca uma posição nem sempre confortável de sustentar; a vantagem talvez tenha sido o fato de que minha adesão às posições predominantes tenha sempre ocorrido de maneira dificultosa, e, desistindo de ser o que jamais poderia ser, tive muita liberdade intelectual.

Essa origem distante exigiu de meus afetos o esforço de tentar entender a linha de raciocínio que dali se desdobrava. Isso é muito difícil, quase impossível. Mas faço esse exercício em nome do amor que sinto pela minha mãe, que é conservadora. Quando minha raiva cresce, busco entender o lado da outra pessoa, o que não significa justificar posições que não considero éticas.

Como você vê hoje as relações entre marxismo e psicanálise? Ou ainda, como você localiza o seu trabalho intelectual na tradição marxista? Estranho falar em revolução hoje?

Responder a esta pergunta complexa implicaria o resgate de toda uma tradição, especialmente a da teoria crítica frankfurtiana que articula de diferentes formas psicanálise e marxismo. Seja como for, talvez fosse importante trazer a razão pela qual a primeira geração da Escola de Frankfurt resolveu se dedicar à psicanálise. Tanto Theodor Adorno quanto Max Horkheimer voltaram sua atenção à obra de Freud e outros psicanalistas porque tinham uma pergunta sobre o fracasso da revolução proletária. Era evidente que a precarização extrema da classe trabalhadora já tinha ocorrido em grande parte da Europa antes e, sobretudo, depois da Primeira Guerra Mundial ou ainda mais após a queda da bolsa em 1929, por exemplo. Isso redundou, paradoxalmente, no fortalecimento da extrema-direita e trouxe ainda a ascensão de Hitler. Como entender esse fracasso da revolução, que seria esperada quando a classe trabalhadora não tivesse mais nada a perder e se desse conta da sua força de trabalho como valor e, por conseguinte, como forma de luta? O que se viu não foi exatamente o que se esperava.

Por outro lado, a Revolução Russa trouxe uma série de aberturas importantes para o viés revolucionário da esquerda e entrou em disputa com o capitalismo, mas no longo prazo o enredo stalinista apresentou um horror que não se pode negar: em muitas dimensões foi algo análogo ao que houve de pior na extrema-direita. Como ficamos, então? Brinco que atualmente retornei ao cartesianismo e sou a essência da dúvida. Retomo um procedimento marxista de análise das mediações em cada uma das situações materiais e históricas que se apresentam. Mas a dialética, embora ainda necessária, não é mais suficiente. Talvez, por isso, para além das questões de mercado, a psicanálise tenha se tornado uma ferramenta essencial.

Lendo a entrevista de Marilena Chaui, principalmente nos momentos de crítica ao que ela chama de “movimentos identitários”, lembrei do seu artigo “Política: entre fraldas sujas e amor” em diálogo crítico com Maria Rita Kehl. Como você avalia esse impasse de alguns intelectuais e suas críticas aos movimentos e pautas identitárias, no nosso tempo histórico?

As pautas tidas como identitárias estão em circulação desde as décadas de 1960-70. De fato, como aponta Nancy Fraser, desde a era Clinton algumas lutas e discursos serviram como formas tanto de escamotear quanto de dar livre curso ao caráter predatório de um novo modelo de capitalismo, o neoliberal globalizado. Contudo, o fato de, como sempre, o capitalismo se apropriar do que convém aos seus interesses mais nefastos não invalida o que é debatido e reivindicado nas lutas por direitos e justiça. Por isso, minha pergunta: por que a esquerda tradicional tem invalidado, na mesma onda da extrema-direita, as pautas ligadas a marcadores sociais?

Um dos argumentos usados pela esquerda tradicional é o modismo e o outro seria o enfraquecimento da luta de classes que se veria subdividida. Não considero nenhum desses dois argumentos fortes. Gostaria de lembrar, só para citar um exemplo contraditório sobre o argumento da moda, como o próprio Roberto Schwarz, um dos principais ícones da esquerda que tenho denominado tradicional, reconhecia que o marxismo, à época da ditadura, estava situado entre a intelectualidade brasileira de forma não só livre, como última tendência da moda nos diferentes circuitos simbólicos das artes e do pensamento:

Em 1964 instalou-se no Brasil o regime militar, a fim de garantir o capital e o continente contra o socialismo. O governo populista de Goulart, apesar da vasta mobilização esquerdizante a que procedera, temia a luta de classes e recuou diante da possível guerra civil. Em consequência, a vitória da direita pôde tomar a costumeira forma de acerto entre generais. O povo, na ocasião, mobilizado mas sem armas e organização própria, assistiu passivamente à troca de governos. Em seguida sofreu as consequências: intervenção e terror nos sindicatos, terror na zona rural, rebaixamento geral de salários, expurgo especialmente nos escalões baixos das Forças Armadas, inquérito militar na Universidade, invasão de igrejas, dissolução das organizações estudantis, censura, suspensão de habeas corpus etc. Entretanto, para surpresa de todos, a presença cultural da esquerda não foi liquidada naquela data, e mais, de lá para cá não parou de crescer. A sua produção é de qualidade notável nalguns campos, e é dominante. Apesar da ditadura da direita, há relativa hegemonia cultural da esquerda no país. Pode ser vista nas livrarias de São Paulo e Rio, cheias de marxismo, nas estréias teatrais, incrivelmente festivas e febris, às vezes ameaçadas de invasão policial, na movimentação estudantil ou nas proclamações do clero avançado. Em suma, nos santuários da cultura burguesa a esquerda dá o tom. Esta anomalia – que agora periclita, quando a ditadura decretou penas pesadíssimas para a propaganda do socialismo – é o traço mais visível do panorama cultural brasileiro entre 1964 e 1969. Assinala, além de luta, um compromisso.

Pois bem, essa passagem de Cultura e Política, 1964-1969 (Schwarz, 1970) ilustra precisamente um paralelo entre aquilo que hoje a esquerda tem dito sobre as denominadas lutas identitárias e o que a esquerda marxista brasileira vivia nos primeiros anos da ditadura. Naquela época, o marxismo também se tornou um modismo. Nenhum intelectual da esquerda considerou que as pautas e reivindicações da esquerda deveriam se dissolver em função de tal modismo simbólico; ao contrário, o modismo inclusive foi aproveitado para servir como uma maneira válida, ainda que parcial, de resistir à exploração da classe dominante.

Não raro vemos agora intelectuais da esquerda desqualificarem feminismos (mesmo os feminismos marxistas), as análises decoloniais, pós-colonialistas ou queer, alegando tal modismo e a suposta abertura de espaço ao neoliberalismo. De outro lado, não renunciam a se colocarem como mercadorias nas plataformas digitais ou outras instâncias de poder que dão visibilidade e difundem seus trabalhos, mesmo quando estas obedecem à lógica mais predatória do capitalismo. É impossível renunciar totalmente a elas no sistema em que vivemos. Então de onde vem tal condenação? Bem, o capitalismo pode ter absorvido em parte as pautas denominadas identitárias para revestir-se de humanitário, mas reduzir e culpabilizar os feminismos, as pautas decoloniais ou queer pelo neoliberalismo é um salto capcioso.

Uma coisa é a crítica do que as redes sociais vinham fazendo até pouco tempo com os diferentes nichos de mercados – e isso já mudou com o anti-wokismo, infelizmente – e o que empresas também utilizaram para cooptar certas lutas. Outra coisa, bem diferente, é desqualificar as próprias lutas e os discursos pelo fato de eles terem sido parcialmente absorvidos em algumas esferas de interesse do mercado e do poder institucional. Muitos intelectuais “críticos” nem se dão ao trabalho de estudar ou mergulhar no que tem sido arduamente construído por muitos/as teóricos/as e intelectuais que utilizam marcadores sociais em suas análises. Alguns poucos intelectuais da esquerda tradicional leem o suficiente para desqualificar rapidamente e voltar ao mesmo lugar. Só consigo concluir que estão mais preocupados em não perder poder e espaços antigos de privilégio e prestígio.

Na minha visão, o avesso da crítica é a desqualificação. Ela é a sombra do trabalho intelectual. O trabalho intelectual, se ele mantém-se alinhado à dialética, implica um mergulho nos discursos para separar o joio do trigo e contribuir para uma espécie de movimento da crítica pelas mediações, pelos detalhes, pelas contradições e impasses. Pegar tudo em bloco – feminismo, decolonial, queer, lutas identitárias – e jogar no lixo é um movimento, a meu ver, anti-intelectual. Agora a esquerda quer culpabilizar feministas pela divisão da pauta de classe – me parece um absurdo. Desde Engels e Marx sabe-se que a primeira divisão de classes se deu pela divisão sexual do trabalho… Só posso desconfiar de tal narrativa e, como disse, a atribuo a uma atual disputa de poder entre a própria classe intelectual, o que é lamentável.

No diálogo crítico com Maria Rita Khel, a certa altura você escreve “velhas fórmulas psicanalíticas ou marxistas usadas de maneira judicativa desqualificante não cabem mais”. Esse problema não poderia ser elaborado de outra maneira, que não o conduza à chave entre velho e novo? Sinto que essa dicotomia pode reduzir a discussão a uma espécie de busca por atualizar o antigo, como se a questão fosse que os antigos não se atualizaram e ficaram obsoletos. Contra isso, eu diria que acho extremamente atual não querer entrar no século XXI

Eu diria que, sim, o mundo digital reconfigurou o mundo a tal ponto que o universo da sensibilidade se contraiu e essa é uma perda desastrosa. Mas lembro sempre da frase pronunciada por minha amiga Lívia Santiago Moreira que cita Adam Phillips em sua pesquisa sobre as patologias da ficção, na qual mostra os limites das ficções que sustentaram a modernidade e o patriarcado: “se a única resposta possível é a catástrofe, está faltando uma teoria, uma outra ficção”. Acho que não querer entrar no século XXI também indica uma renúncia de inventar uma outra ficção. Para a Marilena Chaui que fez um arco monumental de análises críticas como filósofa brasileira esta resistência a entrar no novo século certamente é perdoável, mas para nós não acho um bom caminho… Ainda há muito trabalho inventivo pela frente e talvez seja melhor salvaguardar a alegria de inventar novas ficções do que a melancolia da crítica.

Você poderia explicar melhor este último ponto?

Quando você menciona a entrevista dada pela Profa. Marilena Chaui, temos que considerar que ela ocorreu após o artigo Contra calúnia, no qual ela defendia Boaventura. Recorrer à erudição na defesa de um amigo, cuja posição social e política, em muitos aspectos, corresponde à dela, sem que tenha havido um mergulho efetivo nas narrativas sobre o que aconteceu e nos meandros das situações, nos artigos escritos pelas mulheres em questão, nas ideias e nos argumentos delas em contraste com os dele, indica uma identificação e não uma análise crítica. Quando, na crítica, não há dedicação às mediações e aos processos, concluo que houve desqualificação por mera identificação de classe e de lugar de poder com colegas e pares, válido para o âmbito privado íntimo. Na esfera pública, me entristece que o trabalho intelectual sirva a esse fim. Vira apenas uma canetada.

Ademais, é preciso considerar igualmente que um capitalismo de guerra, ideologicamente nacionalista, volta-se às pautas ditas identitárias e as coloca como alvo central de ataque. Recentemente, o anti-wokismo estadunidense, por mais paradoxal que seja, deu aval ao conservadorismo existente na esquerda, que também aparece muitas vezes alinhado ao patriarcado e a processos colonialistas.

O que considero extremamente complicado é essa desqualificação das pautas ditas identitárias por parte de intelectuais e militantes de uma esquerda tradicional, pois grande parte das feministas e populações dissidentes se alinhavam à esquerda, mas vêem-se atacadas por apresentarem outras camadas que estremecem lugares de poder na esquerda tradicional. Então, sim, fiz aquela divisão entre “lutas ditas identitárias e esquerda tradicional” em meu artigo em diálogo com a Maria Rita Kehl, mas acho uma tristeza assistir a essa subdivisão, que, insisto, não é causada pelas feministas.

Um último ponto que queria acrescentar a essa problemática é um tipo de discurso da intelectualidade da esquerda tradicional que não cola mais em razão de uma crítica – ou ataque – que a extrema-direita tem feito em relação a uma certa hipocrisia que circunda lugares de privilégio da classe intelectual acadêmica. Como vimos acima, a partir do exemplo de Roberto Schwarz, no passado a classe intelectual e artística seguiu livre à esquerda mesmo com o poder nas mãos da extrema-direita. Por que a direita atual já mirou as universidades e a classe intelectual? Porque há lugares de poder, privilégios e prestígio entre acadêmicos que a extrema-direita, infelizmente, não quer mais deixar de lado. É verdade que houve uma precarização do trabalho acadêmico, mas ainda – e felizmente é assim – é um lugar com privilégios, prestígio e poder simbólico relevantes. Nessa conta de poderes e privilégios acadêmicos, que já se perdeu bastante em função do avanço tecnológico e não das lutas tidas como identitárias, o discurso tradicional de esquerda, elaborado por intelectuais, não admite ou não enxerga seu próprio poder e se interpreta quase como uma espécie de proletariado ou como uma parcela neutra ao lado da classe oprimida. Isso claramente não se sustenta…

Recentemente li “Breve história do conflito Israel-Palestina”, de Ilan Pappe. Ali fica claro como a criação das universidades em Israel respaldou a ideologia sionista colonizadora por meio de argumentos sobre justiça. Alegar que a academia tem professores destituídos de poder e que só fazem pesquisa, escrevem e ministram aulas em um lugar quase análogo ao da classe trabalhadora ou apenas ao lado desta é uma falácia. Subestimar ou esconder o poder da posição do intelectual, que tem respaldo institucional acadêmico, é apenas uma forma de manter intacto tal poder sem dar bandeira para não perdê-lo. Pautas identitárias entraram na academia e um grupo de intelectuais viu seu lugar de poder estremecido. Ao invés de abrir um campo comum, começaram a desqualificar lutas e discursos que também têm no horizonte a igualdade, a justiça, a resistência contra a opressão… Acho isso muito triste.

Entendo que iniciativas como a criação do GEPEF se inserem nesse campo de reflexão sobre a implicação e a consequência do trabalho intelectual na luta política. Sempre interpretei suas reflexões sobre o problema das formas pelas quais se dão o trabalho intelectual na luta de classes, como sendo um “cuidado benjaminiano”. E, para não cair na ideia de “perguntar ao intelectual sobre os futuros da política das esquerdas”, queria poder perguntar sobre suas experiências políticas e o seu balanço sobre a situação da organização política dos trabalhadores intelectuais nos últimos anos.

O trabalho intelectual de feministas, que ajudei a organizar por meio do Grupo de Estudos, Pesquisas e Escritas Feministas, é uma forma de resistência tanto ao patriarcado ostensivo da extrema-direita quanto ao patriarcado subterrâneo da esquerda – e aqui não serve recorrer à categoria mulher para falar de feminismo, pois há muitas mulheres que ocupam posições análogas às de esquerdomachos. A resistência política por meio da abertura de espaços de pensamentos, escritas, estudos e difusão é uma resistência vagarosa porque não pode e nem quer ser panfletária. Ela opera no plano simbólico, criando espaços discursivos que sustentam posições de resistência à violência e às injustiças de gênero, sem renunciar à interseccionalidade, ou seja, sem desconsiderar as violências de classe e raça que se alinhavam às de gênero. É um trabalho político de bastidores e às vezes abre caminhos institucionais para mostrar sua voz, mas não se adequa aos interesses estruturais das instituições.

Lendo o seu último artigo publicado, “A palavra das mulheres como phármakon: uma leitura arqueológica”, não pude deixar de pensar nos seus trabalhos sobre a vulva, principalmente sobre o “sufocamento da lógica da vulva”, amplamente discutido em dossiê organizado para a revista Cult em 2024. Me parece que esta sua investigação percorre suas reflexões e configura uma espécie de projeto político-epistemológico de apontar essas supressões e conceder a consistência real dessas modalidades de linguagem e saber soterradas pelo discurso dominante. Há um livro novo seu em que você sistematiza esses seus últimos trabalhos mais recentes sobre a vulva em caminho de lançamento. Você pode falar um pouco sobre ele e da história da sua relação com esses estudos?

A pergunta exigiria uma quantidade imensa de desdobramentos, mas prefiro convidar o leitor da entrevista a ler o artigo citado por você que saiu na Revista Kriterion no ano passado e o livro Discursos da Vulva, que sairá em breve pela Editora Cult.

De qualquer modo, posso dar algumas indicações desses estudos aqui. Em primeiro lugar, a misoginia é algo seríssimo e não é possível diminuir ou desqualificar o que mulheres elaboraram nas três principais ondas feministas e em suas mais amplas vertentes de pesquisas e lutas. Quando um intelectual resiste a esse ramo de pensamento, não o considero como alguém relevante na atualidade. É grave. É como se um intelectual fizesse de conta que o estruturalismo ou o materialismo-histórico-dialético é irrelevante; por isso, talvez, essa minha espécie de decepção em relação a alguns intelectuais que antes admirava. Muitos deles não se deram ao trabalho de fazer uma revisão bibliográfica mínima e emitem seus juízos sem nenhum constrangimento por terem poder de fala já conquistado. É um desserviço para uma posição que se diz comprometida com a igualdade e a emancipação, como já disse. Tal atitude revela muito mais uma defesa psíquica, ela mesma parte de processos de apagamentos detectados pelos diferentes feminismos e pelos estudos antirracistas, decoloniais e/ou pós–colonialistas. Hoje, porém, uma defesa psíquica de recusa não é justificável. O trabalho psíquico também tornou-se uma exigência importante para uma boa produção intelectual, pois a subjetividade deve igualmente estar à altura de nosso tempo. Ou seja, se está psiquicamente defendido, atacando uma pluralidade gigantesca de estudos, reflexões e lutas atuais, também é necessário cuidar disso em análise… Não que não possa haver crítica, mas a crítica deve ser devidamente trabalhada, o que lamentavelmente não é o que tem ocorrido – mas acho que já falei sobre esse ponto.

Além de psicanalista, tenho uma herança benjaminiana muito forte na minha formação filosófica. A partir dela considero importante destacar a origem dos conceitos na história. Origem não é o encontro de uma data ou de um ponto específico da gênese de algo, mas uma dynamis a partir da qual o conceito hoje reescrito é capaz de encontrar sua universalidade nas tramas da história. Como mulher feminista refleti sobre um modo específico de desqualificação da mulher: acusá-la de sedutora e colocar o lugar da beleza como um elemento superficial e fútil. Claro que a beleza e a sedução podem recair em algo narcísico, ligado ao feminino que se presta a ser mero objeto ao olhar do Outro – não sei se isso também é tão simples assim, mas enfim. Entretanto, a beleza e a sedução têm uma importância histórica, social, filosófica e subjetiva indiscutível. Por que esses dois aspectos recebem juízos tão pejorativos quando atrelados à mulher, sendo que constatamos de maneira indiscutível o poder da beleza e da sedução nas relações e na vida humana?

Lendo Os usos do erótico, de Audre Lorde, comecei a refletir sobre os campos eróticos e vivos das mulheres que são minados pelos discursos misóginos. Rastreando a origem desse problema, observei que foi a condenação da sofística pelos filósofos que primeiro condenou o lugar da sedução e depois desqualificou por completo o lugar das mulheres, o que pude detectar por meio de uma recuperação arqueológica da mulher mais bonita do universo clássico, Helena, e de Aspásia, uma intelectual sedutora e inteligentíssima desqualificada por homens em diferentes peças teatrais e discursos.

Com a vulva obtém-se outro aspecto fundamental para a psicanálise hoje: a vulva não é a falta do pênis ou do falo, como sempre se indicou pela ideia da ameaça de castração. A vulva é apenas uma outra cadeia de linguagem. É a essa outra cadeia de formas e linguagens que busco dar voz em meu novo livro por meio da psicanálise, da estética e do feminismo. Estou ansiosa para ter essa nova obra em circulação.

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