Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações, fala sobre os avanços significativos na cobertura de vacinas. Anuncia até 40 milhões de doses do imunizante contra a dengue ainda em 2026. E garante: não há qualquer tipo de desabastecimento
Por Gabriel Brito, em Outra Saúde
Uma das principais bandeiras da campanha que elegeu Lula à presidência, a vacinação se tornou símbolo político de um governo que se prepara para uma nova guerra eleitoral. Após pouco mais de três anos, é possível fazer um balanço da reconstrução do Programa Nacional de Imunização (PNI).
Conforme se pode conferir nos Painéis de Vacinação do Ministério da Saúde, é possível dizer que a promessa de retomada de bons índices de cobertura vacinal foi cumprida. Pouco a pouco, o negacionismo antivacinas é revertido e a sociedade se reconcilia com as recomendações sanitárias mais básicas.
O que se observa, em especial, é a retomada dos níveis das principais vacinas do calendário infantil. A cobertura da BCG, por exemplo, que havia sofrido queda de 38,8% entre 2015 e 2021, voltou ao nível de 97,9% em 2025. Das 16 vacinas oferecidas até 1 ano de idade, três estão com cobertura acima de 90% e outras dez ultrapassam os 80%.
“Conseguimos recuperar entre 10 e 15 pontos percentuais da cobertura vacinal da maior parte do calendário vacinal. Hoje, nós temos algumas vacinas registrando a meta ótima, algumas passando de 80%, outras chegando próximo de 90%”, disse Eder Gatti, diretor do departamento do PNI, no Ministério da Saúde, que concedeu entrevista ao Outra Saúde.
Além dos objetivos delineados em 2023, há novidades. A principal delas é a vacina de dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, de São Paulo. Eder Gatti informa que a vacinação em massa deve começar já no segundo semestre.
“Para este ano, esperamos ter entre 20 e 40 milhões de doses. Até aqui, o Butantan está entregando ao ministério quantidades que permitem algumas estratégias em locais específicos. Começamos a vacinação de profissionais da atenção primária à saúde de todos os municípios brasileiros e conforme o Butantan entregar as próximas doses, vamos avançar progressivamente”, contou.
A novidade está diretamente relacionada ao investimento federal no setor. O BNDES aportou R$ 1,4 bilhão na expansão do parque produtivo da fundação paulista. Finalizadas as etapas de aprovação técnica, a produção, em parceria com laboratório chinês, deve atingir 60 milhões de doses – o que coloca no horizonte próximo a universalização da vacina contra a dengue.
Além disso, o PNI recebeu o reforço de duas novas vacinas contra bronquiolite em crianças, uma delas aplicada ainda na gestação e que garante a proteção dos bebês por meio do cordão umbilical.
“Estamos projetando ainda para este semestre a vacina pneumocócica 20, a mais moderna do mundo contra meningites e pneumonias, uma atualização de uma vacina já existente no PNI, que trouxe grandes atualizações”, afirma.
Para além da vacinação infantil, que ocupa a maior parte do PNI, Eder Gatti também analisou a atualidade das campanhas de imunização com adolescentes e adultos. Em sua visão, o programa Saúde na Escola produziu bons resultados, mas revela preocupação com as parcelas mais velhas da população.
“Há melhoras progressivas na cobertura vacinal de HPV. Entre idosos, temos visto a vacinação cair. Quando começar a campanha de gripe, provavelmente no final de março, esperamos reverter esse cenário”, explicou.
Na conversa, o médico infectologista explica questões de rotina na garantia do acesso às vacinas, que enfrentam dificuldades, como as desigualdades regionais e limitações específicas de municípios pequenos na oferta à sua população. Um esforço que requer contribuição ativa de estados e municípios que, em alguns casos, não possuem secretaria de saúde e condições materiais de armazenamento e aplicação.
Se no ano passado algumas vacinas tiveram falhas de abastecimento, Gatti garante que todos os estoques estão garantidos e não há falta de acesso. “Nós estamos abastecidos para as vacinas de rotina, inclusive trabalhamos com estoques que projetam mais de seis meses de abastecimento”, afirmou.
Leia entrevista completa com o diretor Eder Gatti.
Como o senhor avalia o panorama atual da cobertura vacinal no Brasil, especialmente para as vacinas do calendário infantil e de reforços (como a da covid-19 e influenza)?
O Brasil tem um programa de imunização muito robusto, consolidado ao longo das décadas. Conseguimos atingir altas coberturas vacinais, principalmente ao longo das décadas de 1990, 2000 e 2010. Foi o período em que conseguimos eliminar algumas doenças por conta da vacinação, como, por exemplo, a rubéola e a paralisia infantil, e controlar diversas outras doenças.
A partir de 2016, começamos a registrar queda progressiva das coberturas vacinais, ano após ano. E os motivos estão muito relacionados com financiamento e estrutura do Sistema Único de Saúde. Houve problemas relacionados a abastecimento e depois da pandemia ganhou força a desinformação, as pessoas começaram a desconfiar da vacinação graças à disseminação de informações falsas. Desde 2023, trabalhamos para mudar o cenário e começamos a ter um registro de melhora da cobertura vacinal. Por exemplo, se nós pegarmos as principais vacinas, a maioria estava na casa dos 70% de cobertura.
Nós, nesses três anos, conseguimos recuperar entre 10 e 15 pontos percentuais da cobertura vacinal da maioria delas. Hoje, nós temos algumas vacinas registrando a meta ótima, algumas passando de 80%, outras chegando próximo de 90%.
O desafio agora é enfrentar problemas específicos do território, como, por exemplo, municípios que têm baixa capilaridade da atenção primária, municípios que não conseguem fazer o registro da vacinação, dentre outros problemas muito específicos.
Quais os planos para 2026 do PNI? Existe alguma dificuldade de entregar vacinas, em especial em municípios mais remotos?
A abordagem do ministério para 2026 é trabalhar lado a lado com os municípios que estão com maior dificuldade para recuperar os poucos pontos percentuais que faltam para algumas vacinas, atingir a cobertura ótima e manter a nossa população protegida.
A condução do Programa Nacional de Imunização é tripartite, ou seja, é um trabalho conjunto entre o governo federal, os estados e os municípios. E o papel do governo federal, além de dar diretrizes técnicas para vacinação, é fazer a aquisição das vacinas e distribuir para o país.
Hoje, o Ministério da Saúde não tem qualquer tipo de desabastecimento. Nós estamos abastecidos para as vacinas de rotina, inclusive trabalhamos com estoques que projetam mais de seis meses de abastecimento.
O Ministério está cumprindo com o seu papel e conta com a parceria dos estados e municípios, porque nós fazemos a distribuição das vacinas para os estados, que são responsáveis por fazê-las chegar aos municípios e suas respectivas unidades para aplicação.
É com este trabalho conjunto que o programa acontece. E o governo federal cumpre com o seu papel hoje sem qualquer tipo de desabastecimento.
O Ministério da Saúde tem um painel de cobertura vacinal atualizado ano a ano, em especial de 2023, 2024 e 2025. Qual o comparativo com o governo anterior, que se destacou pelo discurso flagrantemente antivacinas?
O que nós temos hoje é uma melhora progressiva da vacinação. Assim, trabalhamos para chegar na cobertura ótima. Algumas vacinas já atingiram a cobertura, outras tem alguns pontos para chegar até lá. Estamos trabalhando para conseguir completar o objetivo e seguir com a tendência de aumento dos últimos três anos.
É importante trabalhar com faixa de tempo; do período de 2016 até 2022, o Brasil teve um comprometimento em seu programa de imunização em razão de conjuntos de problemas muito sérios: disseminação de desinformação, problemas de comunicação, de abastecimento, de financiamento. Tudo isso junto levou ao cenário que nos obrigou a recuperar o programa.
As barreiras de comunicação e desinformação continuam interferindo de forma relevante na realidade ou podemos dizer que o Estado, e a própria sociedade também, estão conseguindo contornar o fenômeno?
Hoje, o Ministério da Saúde tem toda a sua comunicação voltada a promover a vacinação, com mensagens de que vacinas são seguras, protegem, salvam vidas. Também usamos algumas ferramentas para monitorar desinformação em rede social, há agora o aplicativo Meu SUS Digital, o GovBR e até as redes sociais para disseminar a informação.
Há outro fator importante: hoje nós temos autoridades que dão exemplo. Por exemplo, nós temos tanto um presidente da República quanto um ministro da Saúde que vai a público, se vacina e fala bem da vacinação, diferente, por exemplo, do que aconteceu no passado recente.
Hoje, o Ministério tem feito a sua parte. A comunicação é desafiadora, porque ao longo dos últimos anos vimos uma mudança muito rápida do perfil da forma como as pessoas se informam, com uma forte popularização das redes sociais e a formação de bolhas.
O grande desafio do Ministério da Saúde é justamente furar as bolhas e fazer a informação correta chegar. Hoje, usamos a nossa estrutura para isso.
Existem desigualdades regionais ou entre grupos populacionais que sejam uma preocupação central no momento, e quais estratégias estão sendo adotadas para enfrentá-las?
O Brasil é muito grande e há nichos com particularidades. Isso acontece. Recentemente, por exemplo, houve um pequeno surto de sarampo relacionado à importação de casos, que aconteceu numa comunidade onde se praticava uma determinada religião e uma postura antivacina. A situação exigiu do Ministério da Saúde, do estado e do município um trabalho intenso para conter o surto.
É só um exemplo de como existem no nosso território, eventualmente, nichos de pessoas com postura negacionista. Acontece. Há diferenças regionais logísticas para enviar vacinas ao centro-sul do país, onde é mais fácil do que em comunidades ribeirinhas ou indígenas na região amazônica, por exemplo.
Tais diferenças regionais impõem muitos desafios e o SUS precisa focar muito no princípio da equidade, que significa fazer diferente para os diferentes.
Ou seja, se o lugar demanda maior esforço para fazer o direito à saúde acontecer, o Ministério da Saúde e o SUS têm de trabalhar de tal forma. Acabamos investindo mais e gastando mais energia para fazer a vacinação acontecer nos lugares onde são mais difíceis.
Ao falar em vacinas e do PNI, a associação inicial é em relação ao público infantil, faixa na qual há uma maior quantidade de imunizantes a ser aplicada. Mas o que você pode contar da vacina em adolescentes e adultos?
Os adolescentes têm vacinas específicas. Tem duas vacinas que são muito emblemáticas: a vacina para HPV que previne o câncer, e para meningite, a ACWY. A estratégia do Ministério foi trazer a vacinação para dentro das escolas. Desde 2024, o governo federal promove nacionalmente o programa Saúde na Escola para levar a vacinação, em geral a partir de abril. Foi a forma que encontramos para chegar aos adolescentes e tem dado resultado. Há melhoras progressivas na cobertura vacinal de HPV.
Para adultos, o que preocupa é que temos visto a vacinação entre os idosos cair cada vez mais. Temos trabalhado, por exemplo, a campanha contra a influenza e vamos focar muito na comunicação com os idosos, para que se vacinem porque, querendo ou não, este é um grupo muito vulnerável e que precisa se vacinar.
As vacinas estão disponíveis no SUS. Quando começar a campanha de gripe, provavelmente no final de março, esperamos promover a vacinação de forma muito intensa entre os idosos e reverter o cenário de queda progressiva da vacinação.
Como está o planejamento para a introdução da vacina da dengue no calendário público no próximo ano?
A vacina contra a dengue é um grande avanço para o SUS, inicialmente destinada a adolescentes de 10 a 14 anos, em 2024. Agora, temos a novidade da vacina do Instituto Butantan, uma vacina nacional, a primeira de dose única do mundo.
O Butantan entregou as primeiras 1,3 milhão de doses, o que permitiu estratégias iniciais. Ao longo do ano de 2026, principalmente no segundo semestre, devemos ampliar a vacinação, considerando que fizemos algumas parcerias de produção para ampliar sua capacidade produtiva e possibilitar acesso para um grupo muito maior de pessoas.
Esperamos avançar progressivamente para a população em geral e de todos os municípios. Estamos em evolução, trabalhando para ampliar a produção e, consequentemente, trazer a vacina contra a dengue para toda a população de 15 a 59 anos.
Podemos imaginar uma universalização da vacina de dengue para 2027?
Isso exige uma quantidade de doses que o Butantan ainda não produziu. O laboratório parceiro terá condições de produzir entre 40 e 60 milhões de doses por ano. Para este ano, esperamos ter acesso entre 20 e 40 milhões de doses.
Até aqui, o Butantan está entregando para o Ministério da Saúde quantidades que permitem algumas estratégias em locais específicos. Começamos a vacinação de profissionais da atenção primária à saúde de todos os municípios brasileiros e conforme o Butantan entregar as próximas doses, vamos avançar progressivamente.
O grande volume de doses chega ao longo do segundo semestre. Ainda sem data porque nós estamos passando por uma fase regulatória, de validação de fábricas. Já temos um parceiro chinês para acelerar a produção e conforme a parte regulatória avançar, poderemos receber mais vacinas, que seriam aplicadas a partir das faixas mais velhas e depois às mais jovens. Isso deve começar no segundo semestre ainda deste ano e progredir ao longo do ano de 2027.
Ainda sobre a produção de vacinas, há uma política econômica industrial cara ao atual governo. Você destacaria outros imunizantes em estudo ou desenvolvimento pela indústria nacional?
Tivemos um avanço gigantesco recentemente: a introdução de uma vacina muito boa contra o vírus sincicial respiratório, da bronquiolite. Começamos a aplicá-la nas gestantes em dezembro de 2025, com o objetivo de proteger a mulher e passar sua proteção pelo cordão umbilical para o bebê ainda no ventre, para que ele nasça protegido e fique assim nos primeiros seis meses de vida, período em que a doença é mais incidente e mais grave.
Para complementar, iniciamos em fevereiro o uso do nirsevimabe, um anticorpo monoclonal contra a mesma doença, direcionado para os bebês prematuros, que desenvolveram doenças específicas, como por exemplo síndrome de Down, fibrose cística, doenças pulmonares e cardiológicas graves e distúrbios neuromusculares.
Estamos projetando ainda para este semestre a vacina pneumocócica 20, a mais moderna do mundo contra meningites e pneumonias, uma atualização de uma vacina já existente no PNI. E, obviamente, a ampliação da dengue, um grande avanço. Portanto, o PNI trouxe grandes atualizações.
Por isso, mais uma vez, é importante destacar que o Brasil tem um programa nacional de imunização muito bom, que oferece vacinas seguras, disponíveis em todos os postos de saúde do país. A população deve se vacinar para proteger a si mesma, sua família, sua comunidade, para não deixar doenças evitáveis voltarem.
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Créditos: Paulo Pinto/Agência Brasil




