Privilégios, desigualdade e pobreza na cidade de São Paulo. Por Antonio Prado*

Exame do Mapa da Desigualdade revela: território não é apenas cenário da desigualdade, mas uma de suas engrenagens centrais. Financeirização do solo e acesso desigual às infraestruturas são motores da segregação. Mas Estado tem instrumentos para capturar a mais-valia urbana

Em Outras Palavras

São Paulo costuma ser descrita como a capital econômica do país, centro financeiro continental, metrópole de oportunidades. A formulação é correta, mas insuficiente. Ela não explica como essa riqueza se organiza no território, nem como a cidade converte crescimento em proteção para alguns e risco para outros. A desigualdade paulistana não é apenas diferença de renda. Ela assume forma espacial. Está inscrita na geografia dos distritos, na distribuição dos equipamentos públicos, na valorização imobiliária, na mobilidade cotidiana e, de maneira mais profunda, na diferença de tempo de vida.

O território não é cenário da desigualdade. Ele é uma de suas engrenagens centrais

O Mapa da Desigualdade 2025 torna essa estrutura visível de maneira quase desconcertante. A idade média ao morrer pode variar cerca de vinte anos entre distritos da mesma cidade: 82 anos em Alto de Pinheiros, 62 anos em Cidade Tiradentes. Não se trata de variação demográfica neutra. A diferença condensa padrões distintos de moradia, qualidade ambiental, acesso à saúde, exposição à violência e intensidade de deslocamento cotidiano. Quando uma cidade produz vinte anos de diferença dentro de seus próprios limites administrativos, ela distribui o futuro de maneira assimétrica.

Essa desigualdade não surge apenas na maturidade. Em distritos periféricos, a proporção de nascimentos por mães com até 19 anos ultrapassa dois dígitos percentuais; em áreas centrais, o indicador é residual. O território molda trajetórias antes mesmo que o indivíduo ingresse plenamente na vida produtiva. A desigualdade é formativa, acumulativa e territorialmente enraizada.

O mercado de trabalho reproduz essa cartografia. Distritos do eixo sudoeste registram remuneração média do emprego formal superior a R$ 8 mil, enquanto distritos periféricos aproximam-se de R$ 1,2 mil. A oferta de empregos formais concentra-se espacialmente. Vastíssimas áreas residenciais permanecem afastadas dos polos de trabalho. A cidade organiza, assim, uma separação persistente entre local de moradia e local de produção de renda. Essa separação tem custo. Horas gastas em deslocamento substituem horas de descanso, formação ou convivência.

A mobilidade urbana, nesse sentido, torna-se dimensão estrutural da desigualdade. A Pesquisa Nacional de Mobilidade Urbana (Pemob 2024) indica que, nas grandes metrópoles brasileiras, o tempo médio diário de deslocamento para atividade principal aproxima-se de duas horas. A leve redução observada recentemente beneficiou sobretudo usuários de transporte individual, enquanto o tempo médio de quem depende do transporte coletivo variou pouco. O tempo social — recurso invisível nas estatísticas tradicionais — é apropriado de forma desigual. Ele se converte em desgaste físico, restrição de oportunidades e limitação de horizontes.

No plano nacional, a PNAD Contínua 2024 registrou melhora na renda média domiciliar per capita e redução da pobreza. O dado é relevante e deve ser reconhecido. Entretanto, médias agregadas não dissolvem estruturas territoriais consolidadas. A metrópole pode melhorar estatisticamente e continuar organizada por distâncias profundas entre seus distritos.

O Censo 2022 revelou que mais de 16 milhões de brasileiros vivem em favelas e comunidades urbanas. São Paulo abriga algumas das maiores concentrações do país. Esses territórios não são exceções; foram parte do modo pelo qual a cidade acomodou crescimento econômico sem oferta equivalente de solo urbano bem localizado. A informalidade habitacional não foi acidente, mas componente estrutural da expansão metropolitana. A cidade valorizada expulsa; a periferia absorve; a precariedade se estabiliza.

Nas últimas décadas, a financeirização do solo intensificou essa dinâmica. Investimentos públicos em infraestrutura e mobilidade frequentemente se traduzem em valorização imobiliária privada. A renda fundiária concentra-se, enquanto os custos coletivos permanecem socializados. O solo urbano deixa de ser apenas suporte físico da vida social e passa a ser instrumento de acumulação patrimonial. A boa localização converte-se em privilégio.

É nesse ponto que a categoria de privilégio ganha densidade analítica. O privilégio urbano não é apenas renda elevada. Ele é acesso diferenciado ao valor coletivo produzido pela cidade. A aglomeração, a infraestrutura pública acumulada, a densidade de redes sociais e profissionais produzem externalidades positivas que não são criadas individualmente por proprietários isolados. No entanto, sua apropriação é assimétrica.

Quem ocupa áreas bem servidas por infraestrutura apropria-se de um conjunto de vantagens que se expressa na valorização patrimonial. O imóvel não é apenas moradia, é ativo cuja valorização decorre, em grande medida, de decisões coletivas e investimentos públicos. Esse capital territorial transmite-se entre gerações. A herança não é apenas monetária, é espacial. Filhos de famílias instaladas em áreas centrais crescem em ambientes com melhor oferta escolar, menor exposição à violência, maior acesso a redes de sociabilidade e oportunidades culturais. A reprodução intergeracional da desigualdade passa pelo território.

A periferia também transmite condições estruturais. Longos deslocamentos, escolas com menor infraestrutura, oferta reduzida de equipamentos culturais e esportivos compõem um ambiente que limita o acúmulo de capital social e cultural. A desigualdade patrimonial articula-se com desigualdade territorial e desigualdade de tempo.

Esse mecanismo é menos visível que a desigualdade de renda, mas talvez mais persistente. Ele opera silenciosamente, consolidando diferenças ao longo das gerações. A cidade cria valor coletivo e a apropriação é seletiva.

Experiências internacionais mostram que parte da valorização fundiária gerada por investimento público pode ser capturada e reinvestida em infraestrutura coletiva e habitação social. Instrumentos de captura de mais-valia urbana foram aplicados com graus variados de sucesso em cidades como Bogotá, Hong Kong ou Sydney. Esses mecanismos procuram socializar ganhos que, de outro modo, seriam apropriados privadamente. Sua implementação, contudo, exige arcabouço institucional robusto e enfrentamento de resistências políticas significativas.

Em São Paulo, obstáculos persistentes dificultam essa conversão. A financeirização do solo subordina decisões públicas à lógica da rentabilidade imobiliária. A governança metropolitana permanece fragmentada diante de uma dinâmica que ultrapassa fronteiras administrativas. Grupos com maior poder econômico exercem capacidade de veto territorial. E, talvez de forma mais sutil, a desigualdade extrema tende a ser naturalizada como traço inevitável da metrópole.

Quando diferenças de vinte anos na expectativa de vida deixam de provocar inquietação proporcional, o horizonte político se retrai. A cidade deixa de ser projeto coletivo e passa a ser administrada como soma de interesses privados. A desigualdade deixa de ser problema a enfrentar e passa a ser cenário a administrar.

Talvez a questão não seja apenas como redistribuir renda ou ampliar infraestrutura, mas como interromper a reprodução automática dessas distâncias. Em que momento a desigualdade deixa de ser descrita como dado estrutural e passa a ser percebida como escolha histórica acumulada? Em que ponto a metrópole deixa de aceitar como inevitável aquilo que resulta de decisões institucionais e disputas sociais?

São Paulo permanece como síntese concentrada das tensões do desenvolvimento brasileiro. O desafio talvez não seja apenas reformá-la, mas reaprender a imaginá-la como espaço comum. Enquanto isso não ocorre, a distância social continua inscrita nas ruas, nos trajetos diários, na paisagem e, de maneira mais silenciosa, na duração da vida.

Referências


CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira de et al. São Paulo 1975: crescimento e pobreza. São Paulo: Loyola, 1976.

FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

ROLNIK, Raquel. Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Boitempo, 2015.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2022: resultados consolidados. Rio de Janeiro: IBGE, 2023–2024.

IBGE. PNAD Contínua 2024: rendimento domiciliar per capita e indicadores de pobreza. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

IBGE. Pesquisa Nacional de Mobilidade Urbana (Pemob) 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

REDE NOSSA SÃO PAULO; INSTITUTO CIDADES SUSTENTÁVEIS. Mapa da Desigualdade de São Paulo 2025. São Paulo, 2025.

Notas


Nota metodológica – Este capítulo utiliza como base empírica o Mapa da Desigualdade de São Paulo 2025, elaborado pela Rede Nossa São Paulo e pelo Instituto Cidades Sustentáveis, bem como dados do Censo Demográfico 2022, da PNAD Contínua 2024 e da Pesquisa Nacional de Mobilidade Urbana (Pemob) 2024, do IBGE. Os indicadores mobilizados não constituem levantamento exaustivo, mas evidências selecionadas de tendências estruturais da metrópole.

*Economista, doutor pelo Instituto de Economia da Unicamp. É membro do Conselho Superior da FESESP e do seu NBEE- Núcleo Brasileiro de Estudos Estratégicos. É Membro do Conselho do Corecon-SP.

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