Trabalho precarizado e religião de ultradireita

Por que, diante de um cenário de precarização, insegurança e bloqueio de futuro – cujas causas estão estruturalmente associadas ao neoliberalismo – a juventude tem encontrado respostas mais convincentes justamente em plataformas políticas que tendem a aprofundar essas mesmas condições?

Rafael Rodrigues da Costa, Le Monde Diplomatique Brasil

A juventude brasileira vive hoje um dos momentos mais precários de sua relação com o mundo do trabalho em décadas. A geração mais escolarizada da história se depara com um mercado de trabalho instável, fragmentado e crescentemente mediado por plataformas. Resultado de décadas de neoliberalismo e agudizada pelas reformas liberais recentes, seria razoável esperar que o mal-estar da juventude se convertesse em revolta contra as estruturas que o produzem. Os dados, porém, apontam outra direção.

A pesquisa Juventudes: Tarefa Pendente (2025), da Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung, mostra que o Brasil apresenta um dos mais altos níveis de identificação da juventude com a direita: 38% dos jovens se posicionam nesse campo, sendo 17% na extrema-direita – o maior percentual em toda a América Latina. Em comparação, apenas 18% se identificam com a esquerda.

Quando observados em perspectiva histórica, esses números revelam uma transformação profunda. No início dos anos 2000, levantamentos como o Perfil da Juventude Brasileira (Fundação Perseu Abramo) indicavam maior presença da esquerda e uma extrema-direita ainda marginal. Duas décadas mais tarde, o quadro se inverte: a extrema-direita praticamente triplicou sua presença entre os jovens (de 6% para 17%), enquanto a esquerda perdeu cerca de um terço (de 27% para 18%).

A recente pesquisa Quem são e o que pensam os jovens brasileiros, publicada em janeiro de 2026 pelo Centro de Estudos SoU_Ciência (Unifesp) em parceria com o coletivo Juventude Fogo no Pavio, oferece elementos para complexificar o diagnóstico. Realizado com 1.034 jovens de 18 a 27 anos, o levantamento mostra que 23% dos jovens se declaram bolsonaristas ou próximos ao bolsonarismo, contra 28% que se dizem petistas ou próximos ao petismo.

A questão que se impõe, então, é incômoda: por que, diante de um cenário de precarização, insegurança e bloqueio de futuro – cujas causas estão estruturalmente associadas ao neoliberalismo – a juventude tem encontrado respostas mais convincentes justamente em plataformas políticas que tendem a aprofundar essas mesmas condições?

Da sociabilidade do trabalho à sociabilidade da religião

Para responder a essa pergunta, é preciso olhar para os mecanismos concretos de socialização que organizam a vida da juventude hoje. As mudanças no mundo do trabalho tornaram as relações laborais radicalmente mais precárias para a juventude. Somam-se a isso o encarecimento do custo de vida e outros fatores que ajudam a compreender, ao mesmo tempo, a falta de perspectiva do trabalho como dimensão emancipatória e o papel cada vez mais central da família – não apenas como categoria valorativa abstrata, mas como esteio material concreto: abrigo, alimentação e apoio financeiro.

Os dados da pesquisa da Unifesp ajudam a dimensionar esse quadro. Mais de 60% dos jovens vivem em famílias com renda mensal de cerca de dois salários-mínimos (R$ 2.824). A origem da renda individual revela um mercado de trabalho fragmentado: 40,9% têm contrato CLT, 13,3% atuam como autônomos PJ/MEI, 11,8% como autônomos informais ocasionais, 10,1% estão desempregados e 8,4% vivem sem renda própria por estarem estudando. Em outras palavras: cerca de 4 em cada 10 jovens vivem hoje fora de qualquer relação de trabalho estruturada.

Mais reveladora ainda é a desidentificação com a condição de trabalhador formal. Embora 41% dos jovens estejam atualmente em regime CLT, apenas 11% indicam querer seguir essa carreira no futuro. Em contrapartida, 30% afirmam querer ter um negócio próprio e 18% – quase 1 em cada 6 – declaram preferir “viver de renda” ou de investimentos, ainda que hoje apenas 1% esteja efetivamente nessa condição. Esse “salto desejado” para a posição de rentista, como observam os pesquisadores, “aparece menos como plano econômico realista e mais como imaginação social de saída do trabalho subordinado”. E é justamente entre os jovens de direita/centro-direita (20,3%) e os mais próximos do bolsonarismo (24,6%) que esse desejo se intensifica.

É nesse vácuo entre expectativa e realidade que a religião ganha a cena. A pesquisa aponta que quase metade (48,3%) dos jovens de direita ou centro-direita são evangélicos. Os jovens evangélicos têm 2,5 vezes mais chance de se declarar de direita do que os demais e 1,8 vezes mais chance de se identificar com o bolsonarismo (33,8% contra 18,7%). São também os que avaliam o governo Lula como ruim ou péssimo em proporção significativamente maior (41,3% contra 30,8%).

A força política das igrejas evangélicas entre a juventude periférica não é casual. Trata-se de uma juventude majoritariamente periférica e negra – entre os jovens evangélicos, 69% se autodeclaram pretos ou pardos – que encontra nas igrejas três coisas simultaneamente: primeiro, um poderoso meio de socialização em rede que conecta território, família, amigos e vizinhos; segundo, uma comunidade de identidade, afetos e senso de pertencimento que, em boa medida, substituiu aquilo que o trabalho formal já não oferece mais; terceiro, um ecossistema próprio de informações, organizado por influenciadores digitais, veículos de comunicação e lideranças fundamentalistas com forte capilaridade política. Sem considerar essa realidade, corremos o risco de reduzir os evangélicos a um conjunto de crenças e costumes, perdendo de vista que o avanço das igrejas é fruto de uma combinação mais ou menos articulada entre sociabilidade periférica, senso de comunidade e consumo de informação em massa produzida pela extrema direita.

A contracultura hoje é de direita

Nesse processo, a juventude tem encontrado nas redes sociais uma contracultura organizada pela extrema direita, com alcance muito superior ao dos influenciadores progressistas. O resultado é uma reconfiguração profunda do próprio objeto da revolta da juventude. Nas gerações anteriores, ela se dirigia contra os pais, a família e o capitalismo/imperialismo – instituições percebidas como sufocantes, conservadoras e autoritárias. Hoje, com a família convertida em apoio material indispensável e a igreja em comunidade de pertencimento, a revolta se desloca e passa a se concentrar contra “o sistema” e suas adjetivações: “progressista”, “globalista”, “woke”.

Para um jovem brasileiro hoje, esse “sistema” tem nome: o PT e a esquerda. Um jovem de 23 anos assistiu o PT governar o Brasil por 16 anos – mais de 70% de toda a sua vida. Tudo o que conhece como ordem social estabelecida, no limite, foi gestado sob governos petistas. E, mesmo quando as consequências de uma ordem neoliberal agudizada pelas reformas dos governos Temer e Bolsonaro – em especial a Reforma do Ensino Médio e a Reforma Trabalhista, que impactam diretamente a vida dessa juventude – elas são traduzidas, em sua leitura cotidiana, como consequência do “sistema” do qual o PT seria o principal responsável.

É nesse terreno que se articula uma combinação estranha, mas politicamente eficaz, entre fundamentalismos religiosos, reacionarismos conservadores, extremismos antidemocráticos, influenciadores digitais e oportunistas financeiros. Apesar da heterogeneidade, todos compartilham de uma mesma gramática: a esquerda e a ordem neoliberal passam a ser percebidas como partes de um mesmo sistema – velho, disfuncional, demagógico e excludente. Incapaz, portanto, de oferecer futuro.

Mais do que diagnosticar, é preciso repensar urgentemente imaginários de futuro para a juventude como alternativa ao neoliberalismo e à extrema direita. Sem disputar o terreno onde a vida concreta dos jovens hoje se desenrola, qualquer projeto de transformação se tornará abstrato, obsoleto e com pouca adesão popular – e será, mais uma vez, atravessado pela direita. É o futuro que queremos?

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