Lançamento do relatório Conflitos no Campo 2025 repercute os clamores dos povos do campo contra a violência e pela justiça

“Lavradores, Raimundo, José, Margarida, Nativo
Assumir sua luta e seu sonho, por nós é preciso
Haveremos de honrar todo aquele que caiu lutando
Contra os muros e cercas da morte jamais recuando”

CPT

Entoando o “Canto dos Mártires da Terra”, agentes pastorais da CPT de todo o Brasil iniciaram o lançamento da 40ª edição do relatório Conflitos no Campo (o “caderno de conflitos”) na manhã desta segunda (27), na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília. Em um contexto de redução nos registros, o destaque em 2025 foi para a permanência de altos índices de violências contra a ocupação e a posse da terra, violências pela água, o trabalho escravo e as violências contra a pessoa.

Nesta última categoria, é marcante a duplicação na quantidade de assassinatos em 2025 (de 13 para 26), incluindo dois massacres, cada um com três vítimas, nos estados do Pará e Rondônia. As 26 vítimas fatais dos conflitos foram lembradas através de uma chamada nome a nome, com suas idades, identidades, atuação e localização. Mudas a serem plantadas demonstram que cada número contém vidas, histórias de lutas, famílias e sonhos, que foram interrompidos, mas que podem ser ressuscitados.

Um minuto de silêncio também foi realizado de pesar e protesto por mais um massacre, ocorrido na região de Boca do Acre e Lábrea (AM) às vésperas do lançamento, vitimando 3 pessoas, dentre elas um adolescente de 14 anos. O momento de mística encerrou com o “Pai Nosso dos Mártires”, em um momento de clamor por justiça e contra a violência no campo.

“Queremos dar as boas vindas e parabenizar a CPT por este momento, principalmente aos e às agentes de pastoral. Devemos potencializar estes momentos para que a igreja não perca a profecia. Vocês nos ajudam a viver a fidelidade do Evangelho, como Dom Hélder tanto pregava. A causa da vida é dos crucificados e das crucificadas na luta pela terra, nos diversos cantos do Brasil”, afirmou o Padre Edson Thomassim (padre Edinho), da Comissão para a Ação Sociotransformadora (Cepast-CNBB), representando a entidade que acolheu o lançamento.

Em um momento de vivência ecumênica, o Bispo Maurício Andrade, da Diocese Anglicana de Brasília, também participou da mesa de abertura do encontro. “Neste mês de abril, não devemos esquecer os 30 anos do 17 de abril de 1996, no Massacre de Eldorado dos Carajás. Graça das graças é nunca desistir, e aqui estamos para não desistir. Porque quando nos matam, a gente vira semente. E que a chama continue acesa pela democratização da terra e pela luta por justiça no campo”, afirmou.

Complementando as falas de boas vindas, Dom Ionilton Lisboa, presidente da CPT e bispo da Prelazia do Marajó, destacou a importância do caderno Conflitos no Campo como instrumento de luta e denúncia das violências que acontecem no campo brasileiro. “Queremos paz no campo, mas enquanto houver violência, a gente precisa desvelar essa realidade, até o dia em que não precisemos mais divulgar os dados, quando tivermos terra, pão e dignidade no campo”, destacou.

O presidente da CPT também chamou a atenção para a importância das eleições deste ano, para que se possa garantir um projeto que valorize a vida e a resistência dos povos e das comunidades do campo. “Mais importante do que governador/a e presidente/a, nós precisamos atentar para o Congresso Nacional, porque lá foi aprovada no ano passado a maldição da Lei de Licenciamento Ambiental, dentre outros projetos. Precisamos de um Congresso que cuide do povo, da terra, que cuide de todos e todas nós.”

Para além dos números do relatório, lançamento teve as vozes dos povos e das comunidades do campo

Após a apresentação dos dados dos Conflitos no Campo 2025, feita por Cecília Gomes, da Coordenação Nacional da CPT, pessoas representantes das comunidades do campo também deram depoimentos profundos sobre a realidade enfrentada em seus territórios. Morador de uma comunidade tradicional de seringueiros na Reserva Extrativista Resex Jaci-Paraná (RO), Lincoln Fernandes de Lima destacou o impacto da grilagem e da destruição gerada com o avanço do agronegócio e da criação de gado contra as famílias extrativistas.

“No decorrer de dez anos pra cá, foram expulsas mais de 30 famílias da reserva. Houve assassinatos, mas não conseguimos provar, por causa da distância da região. O maior interesse ali é político, dos fazendeiros que se identificam como pequenos agricultores, mas com muitas mansões, cabeças de gado e grandes áreas de terra. Eles ainda estão querendo aprovar leis em Rondônia para retirarem os processos contra eles. Fui ameaçado de morte junto com outros moradores, vivendo oprimidos. Estão querendo acabar com a reserva, dizendo que não existem extrativistas lá dentro, mas as famílias estão lá ameaçadas, mas resistindo”, declarou o trabalhador.

“Tava dormindo, cangoma me chamou
Disse: levanta povo, o cativeiro já acabou”

Iniciando ao som do ancestral jongo, Rosilda de Jesus Pereira, jovem quilombola do Vale do Rio Peixe Bravo (MG), trouxe com sensibilidade o chamado do cangoma (“festa dos tambores”, na língua kimbundu), mostrando a luta das comunidades atingidas pela mineração.

“Neste exato momento, a mineração está fazendo perfurações perto das nascentes. O que seria de nós sem água? Não somos nada. Nós temos uma cultura linda, e da terra é quem vem nosso sustento. Essa luta pela titulação dos territórios é pelos animais, pelos rios que correm dia e noite, que regam a terra e que nos dão o pão”, afirmou Rosilda, encerrando sua fala com uma música de autoria dela: “Quilombo Peixe Bravo, vamos juntos preservar / As gerações futuras, desse lugar precisará”.

Análises sobre os conflitos e a impunidade no campo

Comentando sobre os assassinatos, massacres e a impunidade no campo, o advogado e agente da CPT em Marabá/PA, José Batista, destacou que no Pará, como reflexo da Amazônia, não há preocupação por parte do Estado com a impunidade existente, que faz cerca de 90% dos crimes continuarem sem julgamento.

“Falamos aqui dos 30 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. De 1996 a 2025, ocorreram 17 outros massacres, com 77 mortes de camponeses. Em relação a Carajás, dos 164 policiais que participaram da ação, 155 foram denunciados, e  apenas 2 deles foram condenados. Nem o governador, o secretário de Segurança Pública nem o comandante da Polícia Militar e da operação foram denunciados. A impunidade permanece da mesma forma que houve, antes e depois. Dos 17 massacres, houve julgamento de apenas 3 casos, com absolvição de 1 e condenação de 2 casos, mas somente de pistoleiros e intermediários, nunca dos mandantes”, afirmou Batista.

Para a professora Leonilde Servolo de Medeiros, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), não se deve falar da ineficiência do Estado, mas da omissão deliberada em manter a impunidade e beneficiar o capital no campo. “O projeto do latifúndio e da expansão do agronegócio foi desenvolvido na ditadura militar, mas não era invenção da cabeça dos governos. Era articulado pelas corporações patronais de fazendeiros”, destacou Leonilde, lembrando das mudanças no cenário, atualmente marcado pela articulação do Congresso com o grande capital e a financeirização da terra nos mercados de ações.

“O caderno de Conflitos no Campo é um instrumento de luta e denúncia das violências que acontecem no campo brasileiro. Transmitir esses dados, dialogar esses dados é também um meio de cobrar das autoridades políticas voltadas às populações que mais sofrem com estas violências”, destacou Maria Petronila, da Coordenação Nacional da CPT.

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