Pochmann: Além da regressão e ressentimento

Num país que se reprimarizou por décadas, até a ascensão social marcada por desigualdade refluiu. Sobrou a frustração dos empobrecidos e atomizados, ainda que em conexão. Reconstruir a coletividade crítica e transformadora: eis o desafio

Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras

Há um equivocado na afirmação de que o Brasil vive hoje uma crise de engajamento sociopolítico. O que caracteriza o presente não é a apatia, mas uma nova forma de mobilização que se apresenta contínua, intensa e, ao mesmo tempo, incapaz de produzir transformação estrutural. Trata-se de uma mobilização politicamente estéril, marcada pelo ressentimento como afeto dominante e como base do novo sujeito coletivo que emerge da sociedade de serviços hiperconectada da era digital.

A tese é desconfortável, mas necessária, pois o sujeito coletivo não desapareceu. Ele se degradou e se reconfigurou negativamente, tornando-se expressão convergente de frustrações estruturais. Entre os anos de 1930 e 1980, o capitalismo industrial no Brasil organizou não apenas a produção, mas também as expectativas sociais. Mesmo de forma desigual, a promessa de mobilidade ascendente funcionava como eixo de integração. O conflito existia, mas era mediado por sindicatos, partidos e movimentos sociais. Havia antagonismo, mas também horizonte de transformação superior.

Neste início do século XXI, porém, não se assiste ao desaparecimento da coletividade, mas ao surgimento de sua forma negativa. Em vez de se estruturar em torno de projeto, organização e solidariedade, ela passa a se agregar pela convergência de frustrações produzidas pela realidade brasileira contemporânea. A mobilidade social, antes elemento estruturante, tornou-se exceção. Ainda assim, o desejo de ascensão contínua universalizado. É dessa contradição que nasce o ressentimento enquanto promessa operando subjetivamente sem que encontre a base material que a sustente. O ressentimento, assim, não é apenas reação, mas uma produção histórica.

Para compreender essa mutação, é útil contrastá-la com formulações clássicas do sujeito coletivo proveniente de países do Norte Global. Em Antonio Gramsci, por exemplo, o sujeito coletivo é uma construção política. Ele não surge espontaneamente, mas resulta de organização, direção e disputa de hegemonia. A classe só se torna sujeito quando é capaz de articular interesses particulares em um projeto universal. Sem mediação institucional e sem intelectuais orgânicos, há apenas dispersão social. Em Alain Touraine, o sujeito também é compreendido como ator consciente, embora o foco se desloque da classe para os movimentos sociais. O sujeito coletivo é aquele que intervém na historicidade, disputa o controle dos processos sociais e atua com identidade, conflito e orientação transformadora.

No Brasil, Éder Sader destacou a emergência concreta do sujeito nas práticas sociais, enfatizando sua constituição por meio da experiência compartilhada de luta entre trabalhadores, movimentos urbanos e comunidades em pleno auge da sociedade urbana e industrial na virada dos anos de 1970. Apesar de suas diferenças, essas três tradições compartilham um ponto comum, pois o sujeito coletivo é estruturado, reconhecível e orientado por um horizonte de transformação.

Sob o neoliberalismo, contudo, essa base se altera profundamente. Como mostram Pierre Dardot e Christian Laval, a presença dominante do neoliberalismo não seria apenas um regime econômico, mas uma racionalidade que reorganiza a vida social pela concorrência generalizada e transforma cada indivíduo em empresa de si mesmo, responsável por administrar sozinho seus fracassos.

Por isso, o conceito de novo sujeito coletivo neste início do século XXI aponta para outra direção. Ele não nasce da organização, mas da desorganização social produzida pela regressão capitalista consolidada por décadas de neoliberalismo. Não se trata da expansão de uma classe social integrada pelo trabalho industrial, mas da difusão de uma condição heterogênea e precária, marcada pela instabilidade no trabalho e pela dificuldade de reconhecimento comum. É exatamente esse núcleo de integração que se rompe na ruína da sociedade industrial.

O ciclo de mobilidade ascendente que marcou parte importante do século XX foi interrompido a partir dos anos 1990. A desindustrialização, a financeirização e a reprimarização corroeram os fundamentos da integração social em uma economia periférica como a brasileira. O trabalho assalariado com direitos deixou de ser eixo estruturador de identidades e expectativas. A promessa de ascensão, parcialmente sustentada por políticas públicas no ciclo da Nova República, pouco se realizou em uma economia de baixo dinamismo, marcada pela expansão de serviços hiperconectados na era digital.

Abriu-se, assim, um terreno fértil para a disseminação do ressentimento. A promessa continua viva no plano subjetivo, mas sem possibilidade concreta de realização. Em Byung-Chul Han, esse processo aparece na passagem para a sociedade do desempenho, em que o indivíduo se torna empreendedor de si e responsável exclusivo por seu sucesso ou fracasso. A exploração deixa de ser percebida como relação social e passa a ser vivida como insuficiência pessoal. O conflito não desaparece, uma vez que ele implode sob a forma do ressentimento.

Nesse contexto, o ressentimento assume a forma de uma consciência bloqueada. A injustiça é percebida, mas sua origem estrutural não é claramente identificada, nem convertida em ação coletiva organizada. A era digital não criou esse processo, mas o intensificou. As plataformas funcionam como infraestruturas de agregação afetiva, conectando indivíduos não por posição social ou projeto político, mas por emoções compartilhadas, sobretudo negativas.

A comparação permanente, a exposição contínua e a visibilidade ampliada das desigualdades geram um ambiente de frustração crônica. Forma-se, assim, um novo sujeito coletivo ressentido, marcado pela máxima visibilidade da hierarquia social e pelo bloqueio estrutural da mobilidade ascendente em uma sociedade que individualiza responsabilidades. Esse é o ponto central da inflexão teórica: o ressentimento deixa de ser apenas efeito da crise e passa a funcionar como princípio organizador de uma nova forma de coletividade.

Diferentemente das concepções de Gramsci, Touraine e Sader, o novo sujeito coletivo não se constitui pela organização, mas pela conexão. Não se reconhece por identidade estável, mas por afetos compartilhados. Não age por projeto, mas por reação. Não constrói hegemonia duradoura, mas se expressa em ondas efêmeras de mobilização. Trata-se de um fluxo instável, intermitente, altamente mobilizável e profundamente desestruturado. Ainda assim, é capaz de redefinir agendas públicas, desestabilizar instituições e amplificar conflitos simbólicos.

Sua força, contudo, é inseparável de sua limitação. Sem mediações organizativas e sem horizonte estratégico, esse novo sujeito coletivo permanece preso a um circuito fechado de afetos, mobilizando-se sem se instituir, reage sem transformar. Por isso, torna-se particularmente vulnerável à captura por projetos populistas e autoritários, que oferecem aquilo que o ressentimento não consegue produzir por si só, com a nomeação de inimigos, simplificação da realidade e promessas ilusórias de recomposição simbólica.

A perda de expectativas para a ascensão social acompanhada da frustração de promessas nunca efetivamente realizadas produzem ressentimento que intensifica a formação de um novo sujeito coletivo profundamente instável, oscilando entre esperança e descrença, mobilização e paralisia. No início do século XXI, o novo sujeito coletivo já não é, predominantemente, aquele que se organiza para transformar o mundo, mas aquele que expressa, de forma difusa e contínua, as contradições de uma realidade incapaz de integrar socialmente seus próprios indivíduos.

O problema teórico e político torna-se, então, decisivo: como transformar um sujeito coletivo constituído pelo ressentimento em um sujeito capaz de ação histórica? Sem a reconstrução de mediações, sem a rearticulação de interesses materiais e sem a reabertura de horizontes de futuro, essa transformação tende a permanecer bloqueada. É nesse cerco que o ressentimento se consolida como principal vínculo social do nosso tempo. Não se trata do fim da política, mas de sua forma mais empobrecida e, talvez por isso mesmo, mais instável e perigosa.

Referências


DARDOT, P. ; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

HAN, B. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

POCHMANN, M. O novo sujeito coletivo. Campinas. Ed. Unicamp, 2025.

SADER, E. Quando novos personagens entraram em cena. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

TOURAINE, A. Crítica da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994.

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