Feira da Agroecologia e Troca de Sementes reúne famílias do Assentamento Divino Pai Eterno, no Alto Xingu/PA

por CPT Alto Xingu (PA)

Um dia para compartilhar sementes, mudas, frutos e conhecimento. Um domingo para aprender com suas vizinhas, com seus vizinhos. Um momento para conversar sobre os desafios da vida no campo. A comunidade Divino Pai Eterno recebeu a 5ª edição da Feira da Agroecologia e Troca de Sementes do Alto Xingu (PA), no dia 26 de abril. 

A motivação para a escolha da comunidade como sede do evento anual tem uma força simbólica para a Comissão Pastoral da Terra (CPT) do Alto Xingu: as famílias locais resistiram por 15 anos, numa luta marcada por violência, e conquistaram o sonhado chão com a criação do assentamento em abril de 2024. Nesta nova fase da história da comunidade, o foco é permanência na terra através do fortalecimento da agricultura familiar e da busca do bem viver.

A Feira da Agroecologia foi realizada na casa de apoio da Associação Terra Nossa, na vila da comunidade, chamada Novoeste, localizada a 315 quilômetros da zona urbana de São Félix do Xingu. Mais de 80 pessoas estiveram presentes, incluindo agricultoras e agricultores, estudantes, professores e lideranças locais. A CPT e o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) atuaram na organização da feira, em parceria com as lideranças da Divino Pai Eterno.

O presidente da associação de trabalhadores e trabalhadoras, Sebastião Pereira da Silva, destaca que é muito importante para a comunidade realizar um evento que valoriza a terra, o trabalho das famílias agricultoras e o sentimento de cooperação. “Para nós aqui, para a nossa comunidade, foi um aprendizado de muita influência. A gente aprendeu muito com isso. E também foi uma satisfação em tê-lo, porque às vezes a gente não tinha essa força e a gente nem chegava a pensar que poderia acontecer um dia uma festa como essa. Então, isso para nós constituiu uma esperança de um futuro amplo, bem melhor, entende?”, explica Sebastião.

Além da troca de frutos e sementes, o encontro teve dinâmica, palestra, música e almoço coletivo. Por isso, no local foram criados três ambientes diversos. No primeiro, uma estande com exposição de materiais sobre a “Campanha Nacional de Combate ao Trabalho Escravo – de Olho Aberto para não Virar Escravo!”, realizada pela CPT em toda a região do Alto Xingu, em parceria com outras entidades. A temática atraiu bastante interesse, principalmente de crianças e adolescentes, que adquiriram material da campanha, buscando saber mais sobre esse assunto tão grave, que afeta a vida de todas e todos.

O espaço seguinte serviu como zona de convivência geral, ali foram recebidas as sementes e os demais produtos da terra, como frutas e legumes, trazidos por cada participante. Um total de 118 espécies foi reunido, de forma que todos puderam conhecer diferentes variedades e trocar com suas vizinhas e seus vizinhos.

Além disso, foram identificados 21 sementeiros, pessoas que atuam como guardiãs e guardiões de sementes. Dois participantes foram premiados como destaques: um deles por ter levado 41 espécies diferentes e o outro, um estudante, por apresentar uma variedade conhecida como mandioca cenoura, considerada a planta mais exótica do encontro.

A participação de estudantes da Escola Novoeste se destacou na feira. As crianças contribuíram levando frutas e outros produtos da produção familiar e participaram ativamente nos espaços. Aproveitaram também a ocasião para arrecadar contribuições para atividades pedagógicas e recreativas das crianças nas aulas escolares.

Também foi nesse ambiente que ocorreram as rodas de conversas, onde se falou sobre o conceito de agroecologia como uma união de ecologia, conhecimento popular e justiça social, respeitando os ciclos da natureza e biodiversidade. Os participantes tiveram a oportunidade de discutir sobre o contraste entre esse conhecimento ancestral e a agricultura regada a produtos químicos, que já prejudicou as lavouras de muitas famílias locais. Também debateram o impacto que o êxodo rural tem nas suas vidas, sendo uma realidade para muitos deles.

O terceiro espaço focou-se na alimentação. Além dos lanches que foram disponibilizados pela organização do evento, também houve um almoço coletivo, preparado com os alimentos produzidos e ofertados pela própria comunidade. Fortalecendo assim, o sentimento de união e fraternidade das famílias agricultoras, que trabalham juntas e também comem juntas. Para finalizar o evento, a comunidade ofereceu um bolo personalizado para a feira como gesto de celebração do momento.

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