CPT marca presença na luta pela vida das trabalhadoras e trabalhadores rurais do Amazonas

por Prof. Dr. Manuel do Carmo da Silva Campos, da CPT Regional Amazonas e Pastoral da Terra da Arquidiocese de Manaus

A CPT marcou presença solidária em Manaus (AM) durante manifestação do dia 1° de Maio, Dia das Trabalhadoras e Trabalhadores. Dentre as diversas questões abordadas, trouxemos as tragédias e barbaridades que vêm ocorrendo nas áreas rurais de todos os estados da Amazônia, provocadas pela mineração, madeireiras, latifúndios com a criação de gado, agronegócios da soja, barragens e outras violências que atingem seus direitos, qualidade de vida e sobrevivência no campo, nas águas e florestas.

As terras públicas em que habitam ribeirinhos, povos originários, extrativistas, pescadores, trabalhadores rurais e quilombolas continuam sendo saqueadas, a população local é ameaçada, expulsa, agredida, espancada, desaparecida e assassinada. A violência ocorre nessas “terras de ninguém”, também, na região da AMACRO (Amazonas, Rondônia e Acre), cortada pela BR 317, que chega até o Porto de Chancay no Peru. Essa nova “Rota da Seda” (Soja), trazendo os produtos da Ásia e levando, também, os do Brasil, faz com que os olhos dos saqueadores da Amazônia só enxerguem dólares, destruindo povos da floresta e pobres das cidades.

Na divisa do Amazonas com o Pará, mencionando apenas a derrubada de mais de 100 km nas barrancas do Rio Mamuru, que corta os municípios de Aveiro e Juruti,  limitando com Parintins/AM, os órgãos públicos paraenses – MPF, MPE, DPU, DPE, IBAMA e PF – são motivos de chacotas nos ramais, bocas de rios, bares e esquinas das cidades dessa região, pela omissão diante desses fatos, acusados de estarem mancomunados com o governo do Pará e empresários desses ramos. Os pedidos das entidades contra esse desmatamento foram todos arquivados, com justificativas de já estarem sendo investigados, e até agora as reivindicações não têm dado em nada.

No Sul do Amazonas – Humaitá, Apuí, Novo Aripuanã, Borba, Nova Olinda do Norte, Lábrea, Boca do Acre -, limitando com Acre e Rondônia, as terras públicas onde estão os Seringais Entre Rios, PA Monte, Ocupação Irmã Dorothy, Mariele Franco e outras, são terras que brotam sangue nos ramais, na BR 317.

O agronegócio da soja, madeireiras e criação de gado continuam invadindo essas terras, retirando as riquezas das comunidades como castanha (Mariele Franco), roubando as terras e bois dos moradores e pequenos criadores (Seringal Entre Rios). São constantes as ameaças e agressões violentas, e os assassinatos campeiam, por uma quadrilha formadas por maus políticos, fazendeiros, também, vindos de Minas Gerais e do Nordeste com seus jagunços/pistoleiros, conhecidos nos assuntos de conversas nas esquinas das cidades, ramais, estradas e até de pistoleiros presos que já confessaram os nomes dos mandantes, mas nada é feito. Os órgãos  públicos, integrando e puxando saco da Velha e Nova Burguesia, fingem que não sabem de nada.

Às vésperas do lançamento do Caderno de Conflitos no Campo Brasil 2025 da CPT, três pessoas foram vitimadas no Sul do Amazonas, entre Lábrea e Boca do Acre, em emboscada organizada por uma quadrilha composta por maus políticos, fazendeiros e seus executores pistoleiros e jagunços. As suspeitas de informações de bastidores, vindas das esquinas das ruas, bares e ramais de Boca do Acre, de um dos mandantes, pairam sobre um conhecido grileiro de terras da região de Boca do Acre.

Foram mortos: Jozias Albuquerque de Oliveira (45 anos), o trabalhador rural Antônio Renato (32 anos) e o menor de 14 anos, Arthur Ferreira Said. Os pistoleiros foram até presos, confessaram o crime e informaram o nome dos mandantes, mas estes continuam soltos. Confira o caso neste link.

As instituições da sociedade civil de trabalhadores rurais e solidárias, têm feito comunicações e denúncias de fatos ao MPF, MPE, DPU, DPE e PF, IBAMA, mas nada anda. Tem procurador Federal e Estadual que são campeões em pedir arquivamento desses pedidos, com as mesmas justificativas dos procuradores do Pará, alegando que já está tendo investigação. Acontece que essa situação do Sul do Amazonas já vem há mais de 20 anos.

Se pergunta: quando a Justiça vai punir esses criminosos? Nessas regiões, as punições vêm logo, quando se trata de pequenos e pobres. As conversas das populações sem consciência nas esquinas são constantes endeusando esses agressores, com a velha afirmação “com quem tem dinheiro não se mexe, não dá em nada … A polícia, justiça são aliados deles …” É uma tristeza ouvirmos isso, e dá para acreditar, que a independência e imparcialidade que tanto se fala entre os três poderes públicos, só acontece quando se trata da população pobre.

É uma vergonha, o poder público com seus e nossos funcionários públicos, pagos com altos salários pelos nossos impostos são acusados, também, que querem cargos e empregos, mas suas ações deixam muito a desejar quando se trata de cidadania para quem mais precisa. Vejam as mortes ocorridas na região da AMACRO desde 2006: se não é omissão da Polícia, dos órgãos da Justiça e do Poder Público, seria de quem? “Pode ser culpa dos extraterrestres”, afirmava o parintinense Clarival (que já fez sua Páscoa há muito tempo).

Alguns casos emblemáticos de violência e injustiça contra trabalhadoras e trabalhadores do campo no Amazonas

  • Em Canutama/AM, em 2017, foram emboscados, desaparecidos, possivelmente mortos: Flávio Lima de Souza, Marinalva Lima de Souza e Jairo Feitosa Pereira;
  • Gedeão Rodrigues da Silva – morto em Lábrea (2006);
  • Adelino Ramos – morto em Vista Alegre do Abunã (2011);
  • Dinhara Ninka – morta em em Nova Califórnia (2012);
  • Nemes Machado de Oliveira – morto no Sul de Lábrea (2019);
  • José Jacó, de 55 anos, morto em janeiro de 2025 nos limites entre a Comunidade Mariele Franco e a Fazenda Palotina/Sul de Lábrea.

Em intensos conflitos de agressões, queimas de casas, envenenamentos jogados sobre a comunidade por aviões flagrados pousando dentro da Fazenda Palotina, derrubadas de grandes extensões de terras e aberturas de ramais dentro da Flona Iquiri e juntamente com o Ibama e Icmbio, as acusações desse estrago recaem de forma injusta sobre o  trabalhador rural e ecologista Paulo Sérgio Araújo, que por sinal sua casa foi queimada, segundo informações de bastidores, pela fazenda Palotina, ficava na comunidade Mariele Franco muito distantes da área derrubada e Flona mencionadas nas acusações dos órgãos ambientais.

Por todas essas armações, juntamente com a polícia e justiça do Acre e Amazonas, conseguiram até prendê-lo em março de 2024, quando denunciava, juntamente com os trabalhadores rurais de Mariele Franco na delegacia de Boca do Acre, as agressões sofridas por 4 trabalhadores rurais feitas por homens encapuzados, suspeitos pelos bastidores a mando da Fazenda Palotina.

Também, em 2025, foi morto o trabalhador rural Francisco do Nascimento de Melo, conhecido pelo agrado de Cafu na frente da esposa, pai e duas crianças seus filhos com um tiro pelo grileiro das terras onde ele tinha suas plantações no Ramal 37, em Boca do Acre/AM. O criminoso  chegou a ser preso, mas já está solto.

Massacre do Rio Abacaxis, ocorrido no município de Nova Olinda do Norte/AM, em agosto de 2020, que vitimou 8 pessoas. Entre os acusados por cúmplices e executores estão o governador do Amazonas da época, Wilson Lima, seu secretário  de segurança, comandante da Polícia Militar do Amazonas e mais 50 policiais militares, e até o momento ninguém foi preso. É aquela velha frase campeando: “do cemitério nunca vi algum morto sair voltando a viver, mas da cadeia sai todo mundo, especialmente, os ricos e poderosos”.

O indígena Reinaldo Santana Magalhães – Satere Mawe, desaparecido no dia 28.04.2024 numa exploração de madeira na região do Rio Urupadi/município de Maués/AM. Até o momento, as forças de segurança não deram respostas sobre esse caso.

Não podemos deixar de agradecer aos bons políticos e funcionários públicos desses órgãos citados, que, mesmo “aos trancos e barrancos”, vêm fazendo um trabalho comprometido e bonito pela cidadania com os povos da floresta na Amazônia. O momento também foi de conclamar o governo federal, através do presidente Lula e dos órgãos públicos, no lidar com os povos da floresta, a fim de punir e prender esses agressores dos Povos Originários e da Floresta. Entendemos que essa será uma medida para conter os ataques a essas populações e seus territórios.

Edição: Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional)

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