Eu não sou cinéfilo. Digo isso logo de início. Sem a armadura da análise técnica, terminei o filme em silêncio. Esse é o sinal mais honesto de que algo aconteceu naquelas duas horas e dezessete minutos.
Frantz Omar Fanon nasceu em 1925 na Martinica, uma ilha caribenha que a França nunca tratou como país, apenas como território, e morreu de leucemia em 1961, num hospital militar nos Estados Unidos. Tinha apenas 36 anos, e partiu sem ver a independência que ajudou a construir. Psiquiatra, filósofo político, pan-africanista, marxista, ele deixou uma obra que influenciou movimentos de libertação na África do Sul, na Palestina, no Sri Lanka, nos Estados Unidos. Mas o que fez de Fanon uma figura singular não foi apenas o alcance geográfico das suas ideias, foi a precisão com que ele nomeou algo que outros descreviam apenas por fora: a colonização como violência psíquica, como deformação do sujeito, como projeto de fabricar seres humanos que aprendem a se enxergar pelos olhos de quem os oprime. Essa tese atravessa seus dois livros centrais, Pele negra, máscaras brancas, de 1952, e Os condenados da Terra, de 1961.
O filme de Jean-Claude Barny se passa no período em que essa tese estava sendo forjada na prática: os anos entre 1953 e 1957, quando Fanon chegou à Argélia para dirigir o serviço de psiquiatria do hospital de Blida e se viu no centro de uma contradição que mudaria tudo.
Frantz Fanon tinha então 28 anos. Era 1953, e a França ocupava o país havia mais de um século, desde 1830, numa das colonizações mais longas e violentas da história moderna. Um médico negro, recém-chegado ao país, que escolheu tratar seus pacientes como seres humanos num sistema construído exatamente para lhes negar a humanidade. Atendia nos corredores do mesmo hospital os torturadores franceses e os torturados argelinos, e foi essa contradição insuportável que o transformou. Um ano depois de Fanon chegar, a Frente de Libertação Nacional iniciaria a guerra de independência da Argélia.
O colonialismo não é apenas ocupação de terra e extração de recursos. É uma estrutura psíquica, um projeto de negação da humanidade do colonizado. E um psiquiatra que recusa essa negação, no interior de um hospital colonial, é um revolucionário. Cada gesto de reconhecimento da humanidade do outro é uma rachadura na estrutura. Fanon também entendeu que o colonialismo é uma epistemologia, uma maneira de dividir o mundo entre quem pensa e quem é pensado. A violência colonial não é um excesso do sistema, ela é o sistema.
Estudo lutas anticoloniais há anos, mas o cinema faz algo que às vezes os livros não conseguem: nos obriga a sentir o que já sabemos. O que Fanon nos ensina em seus textos ganha na tela uma dimensão visceral que nenhuma citação reproduz.
Há uma cena no filme que não sai da cabeça. Soldados coloniais chegam a um vilarejo argelino procurando um líder insurgente. Não o encontram. Então escolhem alguém da multidão, aleatoriamente, e atiram na cabeça dessa pessoa na frente de todos. Sem julgamento, sem justificativa, sem hesitação. A cena é curta e brutal, e é exatamente por isso que funciona. Não há trilha sonora dramática, não há câmera lenta. O filme não te dá tempo de se preparar porque a violência colonial também não avisa. Ela é assim: administrativa, rotineira, indiferente. Fanon passou anos tentando traduzir isso em teoria. Fanon, o filme, o coloca na tela em trinta segundos.
A fotografia do longa não estetiza a violência, não transforma o sofrimento em objeto de contemplação, que é um dos pecados mais frequentes do cinema que tematiza o colonialismo para audiências ocidentais. Há uma contenção deliberada nas cenas mais pesadas, um cuidado em mostrar o peso do medo sem fazer do medo um espetáculo. A trilha sonora sustenta esse mesmo equilíbrio: não conduz o espectador emocionalmente como se ele precisasse de instruções para sentir. A Argélia do filme é bela e sufocante ao mesmo tempo.
O psiquiatra, humanista e revolucionário não é retratado como um herói. Era um ser humano que acordava cedo, atendia pacientes, discutia com colegas, amava a esposa, escolhia em tempo real como se posicionar diante do horror. Não havia manual. A revolução argelina custou entre um e dois milhões de vidas argelinas. Fanon sabia que escolher o lado dos colonizados tinha um preço. Escolheu mesmo assim.
Saí pensando em Walter Lippold e Deivison Faustino, que publicaram pela Boitempo Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana. Eles demonstram que a arquitetura do que Fanon descreveu não desapareceu com as independências formais do século XX, ela migrou. Os grandes monopólios digitais americanos reproduzem hoje a mesma lógica de partilha do mundo que as potências coloniais europeias formalizaram na Conferência de Berlim, em 1884. Quem controla a infraestrutura controla o fluxo; quem controla o fluxo controla a narrativa. O racismo algorítmico não é bug, é herança. E Fanon, que nunca tocou num computador, continua sendo a ferramenta teórica mais precisa para entender por que isso funciona assim.
O filme termina. A Argélia conquistou sua independência em 1962. Fanon não chegou a ver. O que fazemos com essa herança é uma pergunta que o filme não responde. Porque não é o filme que precisa responder.




