Por que a CIA multiplicou os templos, sufocou a Teologia da Libertação e pariu o projeto de poder evangélico?

Relatórios desclassificados revelam como Washington instrumentalizou a liberdade religiosa na ditadura militar para criar um “anticorpo espiritual” contra o avanço da esquerda no Brasil

Por Wagner França, da Pátria Latina / Diálogos do Sul

Havia um método na multiplicação dos templos. Nas décadas de 1960 e 1970, enquanto a ditadura militar apertava os parafusos da repressão no Brasil, uma revolução silenciosa disputava corações e mentes nos grotões e nas periferias. Sob o véu da liberdade religiosa, cruzadas evangelísticas e o avanço do movimento evangélico brotavam por todo o país, mas os tijolos dessa expansão nem sempre vinham apenas de doações de fiéis. Documentos secretos, relatórios de inteligência e investigações independentes, reunidos aos poucos como peças de um quebra-cabeça que muitos queriam manter incompleto, apontam para um padrinho improvável por trás dos púlpitos: a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA).

Durante a Guerra Fria, Washington tinha pavor de que o vírus comunista infectasse o “quintal” latino-americano. A preocupação se intensificou quando setores progressistas da Igreja Católica abraçaram a Teologia da Libertação, uma leitura do Evangelho que colocava Cristo ao lado dos pobres. Para o establishment estadunidense, aquilo era marxismo travestido de batina. Foi nesse contexto que a CIA passou a enxergar as igrejas evangélicas como uma espécie de anticorpo espiritual — e a investir pesado em sua proliferação.

Bispos denunciam a infiltração

Um dos primeiros alertas veio de dentro da própria Igreja Católica. Em 1985, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) enviou um relatório bombástico ao Vaticano. O documento, citado pelo jornal The Washington Post naquele mesmo ano, afirmava que a CIA havia se infiltrado em grupos religiosos não católicos no Brasil e que “fortes grupos, especialmente dos Estados Unidos, enviam grandes somas de dinheiro para as atividades de grupos religiosos independentes”. Os bispos mencionavam nominalmente “seitas evangélicas protestantes” que chegavam ao país com auxílio americano, obtendo vistos com facilidade — privilégio negado aos missionários católicos comprometidos com a causa dos pobres. O relatório também alertava que o esquema parecia fazer parte de uma “estratégia global americana”, que incluía a infiltração direta em determinados grupos.

O recrutamento de missionários

Os dados não param nas denúncias eclesiásticas. Em 1975, pressionada por organizações religiosas, a própria CIA admitiu que usava missionários e clérigos como informantes e para atividades encobertas na América Latina. Uma investigação do jornalista John Marks, coautor do livro The CIA and the Cult of Intelligence, revelou que entre 30% e 40% dos missionários que ele entrevistou tinham alguma história de conexão entre igreja e inteligência para contar. Um veterano de 20 anos na agência foi direto: “Usaria qualquer um para alcançar meus objetivos. Já usei monges budistas, padres católicos e até um bispo”.

Da Casa Branca aos templos

Como esse dinheiro chegava ao chão brasileiro? Documentos recentemente desclassificados e analisados pelo historiador Rodrigo de Sá Netto, da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostram um sofisticado esquema de triangulação. O governo dos EUA, por meio de agências como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e a Agência de Informação dos Estados Unidos (USIA), canalizava recursos para organizações missionárias que atuavam como verdadeiras multinacionais da fé.

O Conselho de Segurança Nacional estadunidense registrava, já nos anos 1960, a presença disseminada de missões evangélicas estrangeiras na Amazônia. Pesquisadores e organizações indigenistas passaram posteriormente a associar parte dessas missões à política de integração forçada de povos indígenas, à expansão de interesses econômicos sobre a região e às estratégias anticomunistas de Washington durante a Guerra Fria.

A estratégia desenhada

A peça central desse debate é o Relatório Rockefeller. Em 1969, a pedido do presidente Richard Nixon, Nelson Rockefeller percorreu a América Latina em uma missão para avaliar a região em meio ao avanço de forças nacionalistas, populares e de esquerda.

O relatório identificou setores da Igreja Católica como uma força de mudança social, em alguns casos “revolucionária se necessário”, e apontou a influência da conferência episcopal de Medellín, de 1968. Anos depois, essa leitura seria associada por pesquisadores e críticos da política estadunidense ao estímulo de Washington a correntes religiosas conservadoras, sobretudo evangélicas, como forma de conter a Teologia da Libertação e o avanço da esquerda no continente.

O voo das multinacionais da fé

Sob esse guarda-chuva, desembarcaram no Brasil organizações como o Summer Institute of Linguistics (SIL), braço da missão Wycliffe Bible Translators. Oficialmente dedicado a traduzir a Bíblia para línguas indígenas, o SIL construiu uma rede de bases na Amazônia com infraestrutura que incluía sistema próprio de rádio e aviação — o Jungle Aviation and Radio Service (JAARS) — e recebia financiamento de petrolíferas como a Shell e de agências governamentais estadunidenses.

Sua atuação, segundo os repórteres Gerard Colby e Charlotte Dennett, ia muito além da tradução bíblica: funcionava como “vanguarda da destruição das florestas tropicais”, preparando terreno para a exploração de recursos naturais. Outro veículo crucial foi a Campus Crusade for Christ — atualmente CRU —, que liderou a campanha “Here’s Life” em 1974 com apoio direto de oficiais consulares estadunidenses no Brasil, promovendo um cristianismo despolitizado e anticomunista.

Emissoras como a Trans World Radio e a HCJB, sediada no Equador, transmitiam sermões de coloração anticomunista para vastas áreas onde a Teologia da Libertação vinha ganhando terreno.

Igrejas que nasceram nesse caldo

Muitas das denominações que hoje contam com milhões de fiéis foram fundadas ou impulsionadas nesse ambiente. A Igreja do Evangelho Quadrangular chegou ao Brasil em 1951, enviada diretamente dos Estados Unidos, abrindo caminho para que pastores brasileiros fundassem a Igreja Deus é Amor e a Igreja Brasil para Cristo — denominações que serviram de base para que Edir Macedo erguesse, em 1977, a poderosa Igreja Universal do Reino de Deus.

Há também a controversa Igreja da Unificação, do reverendo Moon. Documentos do serviço secreto brasileiro mostram que a ditadura militar a protegeu abertamente porque a igreja “fazia atividades de conscientização política anticomunista” e “denunciava sistematicamente as mazelas do comunismo”.

O monitoramento do voto evangélico

O interesse da inteligência estadunidense não era apenas doutrinário: era eleitoral. Em 1989, quando Luiz Inácio Lula da Silva despontava como candidato viável à Presidência, a CIA passou a dedicar espaço inédito em seus relatórios sobre o Brasil ao voto evangélico. A agência examinava “sua estrutura de poder, formada por milhões de votos, igrejas e redes de comunicação” e destacava o papel da Igreja Universal do Reino de Deus e de Edir Macedo, que, na avaliação dos analistas, comungava do mesmo objetivo das Organizações Globo: “evitar o milagre de um operário, sem curso superior, virar presidente no Brasil”.

Cannabraa / Evangélicos e poder: a disputa pela alma política do Brasil

O legado que permanece

Essa arquitetura, construída tijolo por tijolo durante três décadas, transformou o mapa religioso brasileiro. O censo de 2010 já mostrava que os católicos haviam caído de 93,5% da população, em 1950, para menos de 65%, enquanto os evangélicos disparavam para mais de 22% — percentual que, segundo projeções, pode ultrapassar 30% no próximo censo.

Os filhos daquela estratégia continuam ativos. Em 2019, o grupo ultraconservador Capitol Ministries, com raízes profundas no Partido Republicano estadunidense, instalou-se em Brasília e obteve acesso a integrantes do governo Bolsonaro. E, em 2023, a Polícia Federal (PF) constatou que igrejas batistas, presbiterianas e Assembleias de Deus teriam financiado ônibus e recrutado participantes para os atos golpistas de 8 de janeiro, que culminaram na invasão das sedes dos Três Poderes.

A fé como instrumento de poder

A história aqui contada não é sobre fé genuína. É sobre como a fé pode ser instrumentalizada para fins geopolíticos. Os documentos que revelam essa trama — alguns disponíveis apenas de forma fragmentada, outros ainda classificados — mostram que, por trás de muitas igrejas que hoje moldam a política nacional, há um projeto de poder meticulosamente arquitetado durante a Guerra Fria.

Como escreveu o analista político Germán Gorraiz López, as igrejas evangélicas latino-americanizadas “conseguiram traçar uma nova arquitetura espiritual no chamado quintal dos Estados Unidos, enquanto teciam uma densa rede de contatos como agentes encobertos da CIA para apoiar candidatos leais aos interesses americanos”.

Não se trata de demonizar a crença de milhões de brasileiros. Trata-se de compreender que, em certos momentos da história, a mão invisível do mercado pode ser, na verdade, a mão bastante visível de uma agência de inteligência. E que, entre o púlpito e o altar, às vezes há um microfone ligado diretamente a Langley.

Enviada para Combate Racismo Ambiental por Sonia Maria Rummert.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

três × dois =