Racismo ambiental e gênero: um colapso anunciado

Não há “saída verde” sem reorganização radical do cuidado. Exaustão, “pobreza de tempo” e crise climática impactam em especial as mulheres periféricas. E o pesadelo agrava-se na relação entre superexploração, crise ambiental e travas fiscais

Por Iago Chaves*, em Outras Palavras

A ideia de que o dia possui vinte e quatro horas iguais para todos é uma das ficções liberais mais bem-sucedidas do nosso tempo. Ela ignora a geografia, a raça e a classe social para sustentar o mito de que o sucesso ou o fracasso dependem exclusivamente da gestão individual do esforço. Como apontam Pierre Dardot e Christian Laval em A Nova Razão do Mundo, o neoliberalismo venceu ao converter o modelo econômico em uma subjetividade: fomos empurrados a nos enxergar como “empresários de nós mesmos”.

Nessa lógica, o cansaço é visto como falta de método e a pobreza como falta de iniciativa. É a cultura do “acorde enquanto eles dormem”, vendida em telas de luxo para quem mal consegue fechar os olhos. Mas a realidade nas grandes metrópoles brasileiras desmente o Instagram. Quando um trabalhador periférico gasta entre duas a três horas diárias em transportes públicos lotados e sistemas de integração falhos, ele não está “gerindo sua carreira”; ele está doando ao asfalto quase um dia inteiro de vida por semana. É nesse tempo morto, entre o balanço do ônibus e o sinal de Wi-Fi oscilante, que se vê a materialização da desesperança: no celular o alento efêmero dos jogos de aposta. Não há julgamento aqui, mas uma constatação política. O “Tigrinho” e as bets ocupam o vácuo deixado por um futuro concreto que o salário já não consegue comprar. É a aposta no milagre como única saída para um orçamento familiar que nunca fecha.

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Essa engrenagem de moer tempo opera por meio de categorias políticas e econômicas moldadas para a manutenção do lucro. O gênero é uma delas. Ao contrário do que sugere o senso comum, as atribuições dadas às mulheres não são fruto da natureza, mas da conveniência do sistema. A sociedade espera que a mulher zele pelo lar de forma inquestionável, naturalizando o que chamamos de trabalho reprodutivo.

É preciso ser didático aqui: trabalho reprodutivo não é apenas o ato biológico de gerar filhos. É o conjunto de atividades diárias que garantem a reprodução da vida, comida feita, roupa lavada, idosos medicados, crianças cuidadas e o suporte emocional que permite que o trabalhador remunerado retorne ao posto no dia seguinte. Se esse cuidado não fosse exercido gratuitamente, majoritariamente por mulheres, o capitalismo entraria em colapso. Afinal, como as empresas funcionariam se tivessem que arcar com os custos de reprodução da força de trabalho que hoje são jogados para dentro das casas das periferias?

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Ruy Mauro Marini e a Teoria Marxista da Dependência demonstram que, em países como o Brasil, vigora a superexploração do trabalho. Isso ocorre quando a remuneração do trabalhador é reduzida sistematicamente abaixo do seu valor real. Para entender: o “valor real” de um salário deveria cobrir tudo o que é necessário para o trabalhador se manter vivo e plenamente capaz: alimentação de qualidade, aluguel, saúde, descanso e a manutenção da sua família.

Na prática brasileira, o salário mal cobre a cesta básica. Quando o sistema paga menos do que a vida custa, ele está ‘consumindo’ o corpo do trabalhador além do limite físico. E quem cobre esse déficit? No Brasil, a resposta tem cor e gênero. Com quase metade dos lares (49,1%) chefiados por mulheres negras, são elas que esticam o orçamento inexistente e multiplicam as horas do dia.

A disparidade salarial é o indicador mais cruel dessa estrutura: dados oficiais do IBGE revelam que mulheres negras recebem, em média, menos de 46% do rendimento de um homem branco, ocupando o degrau mais baixo da hierarquia de renda no país. Enquanto o rendimento médio mensal do homem branco gira em torno de R$4.500, o da mulher negra mal ultrapassa os R$2.000, uma diferença que não se explica apenas por escolaridade, mas por uma barreira racial e de gênero que limita o acesso a cargos de decisão. Elas são a base da pirâmide: enquanto a Divisão Internacional do Trabalho reserva ao Brasil o papel de exportador de commodities e mão de obra barata, a divisão sexual e racial garante que o custo desse ‘barateamento’ seja absorvido pelo trabalho invisível dessas mulheres, que precisam realizar verdadeiros milagres contábeis para sustentar a vida com menos da metade do que o topo da pirâmide usufrui.

Essa desigualdade no uso do tempo é estrutural e sequestra o direito ao presente e ao futuro. A pesquisadora Karina Batthyány evidencia que mesmo quando estão no mercado formal de trabalho, as mulheres absorvem a carga doméstica que permite aos homens um “superávit” de tempo. No Brasil, são dez horas semanais a mais de trabalho não remunerado para elas.

Essa “pobreza de tempo” é um mecanismo de controle. Uma mulher exausta perde a autonomia sobre sua própria vida. Ter tempo não deveria ser um luxo para fazer política ou estudar, mas um direito básico para, simplesmente, ser seja para o lazer, para o sono ou para o exercício da liberdade. Ocorre que essa liberdade é hoje sitiada por uma arquitetura de exploração que vai muito além do local de trabalho. Para a mulher periférica, a exaustão é um projeto que começa no portão de casa e se estende por serviços que deveriam ser direitos, mas operam como armadilhas de lucro.

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Essa exaustão é alimentada por uma estrutura urbana desenhada para extrair valor até do cansaço. No Brasil, o deslocamento da força de trabalho para a informalidade e para a “pejotização” (o MEI como estratégia de sobrevivência) raramente é uma escolha por autonomia. É uma reação a um mercado formal que exclui corpos negros ou oferece salários de fome.

Aqui, a conta se torna perversa: enquanto no regime CLT o transporte é um direito garantido, ainda que custoso, no universo do trabalho informal e do “empreendedorismo por necessidade”, a trabalhadora assume todos os custos. Ela paga do próprio bolso para se deslocar, financiando o sistema de transporte com uma fatia desproporcional do que ganha. Se o ônibus quebra, se a linha é cortada ou se uma tempestade interrompe o trajeto, o prejuízo é exclusivamente dela. O sistema a empurra para uma “liberdade” que, na prática, significa a ausência total de rede de proteção social.

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Essa precariedade é aprofundada por uma escolha política deliberada. O processo de privatização no Brasil segue um roteiro conhecido: o Estado degrada o serviço público, retira investimentos e sucateia a infraestrutura até que a população, exausta, aceite a venda como única solução. O que vem depois, porém, não é a eficiência, mas a conversão do direito em mercadoria.

Dados de consultorias econômicas e órgãos de defesa do consumidor revelam que, após a privatização de serviços básicos como energia e saneamento, as tarifas tendem a subir acima da inflação oficial. No setor elétrico, por exemplo, o Brasil possui hoje uma das energias mais caras do mundo em relação ao poder de compra, onde o custo do serviço atinge de forma desproporcional os 20% mais pobres da população, que comprometem até 10% da renda apenas com a conta de luz. Além disso, o mito da eficiência privada é contestado por um movimento global de ‘remunicipalização’: entre 2000 e 2023, mais de 1.600 serviços foram reestatizados em cidades como Paris e Berlim, após as empresas falharem em garantir investimentos e modicidade tarifária. No Brasil, o sucateamento pós-venda manifesta-se na redução de equipes de manutenção e no aumento do tempo de resposta a crises, deixando as periferias, onde o lucro é menor, em um estado de abandono técnico permanente

Nas mãos de concessionárias cujo único compromisso é o dividendo do acionista, o transporte, o saneamento e a energia tornam-se instrumentos de exclusão. Nas margens da cidade, onde a “taxa de retorno” é considerada baixa, o serviço é mantido no limite da sobrevivência. A gestão privada busca a maximização da lotação com o mínimo de veículos. Esse “transporte-mercadoria” rouba o tempo da mulher trabalhadora, forçando-a a esperas intermináveis em pontos inseguros.

Se o serviço fosse público, gratuito e, fundamentalmente, gerido sob o controle popular e a lógica da reprodução da vida, o foco seria o encurtamento das distâncias. Sob a lógica do capital, o foco é o giro do rolete. O lucro das empresas de ônibus e saneamento é, literalmente, extraído da exaustão física e da pobreza de tempo dessas mulheres.

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Esse ciclo de exploração se fecha na macroeconomia do cotidiano. Por que, mesmo trabalhando exaustivamente, a renda dessas famílias está permanentemente comprometida? A resposta passa por uma política de taxas de juros estratosféricas que alimenta o sistema financeiro enquanto sufoca o consumo popular. Grande parte da renda das mulheres chefes de família já entra no mês ‘carimbada’ para o pagamento de dívidas e juros de cartões e carnês. É um mecanismo de transferência de renda direto da base da pirâmide para o topo rentista, que opera de forma ainda mais cruel quando observamos o recorte racial do crédito. Dados de 2026 revelam que mulheres negras de baixa renda, inscritas no Cadastro Único, pagam as maiores taxas de juros do mercado, atingindo uma média de 140% ao ano, um valor significativamente superior aos 128% cobrados de mulheres brancas e aos 97% aplicados a homens brancos. Esse abismo financeiro empurra 23% dessas dívidas para modalidades explosivas como o crédito rotativo. Essa extorsão institucional atinge o coração da estrutura social brasileira: 62% das famílias monoparentais são chefiadas por mulheres negras que, além de enfrentarem taxas de desemprego de 13%, sobrevivem em um cenário de extrema precariedade, onde quase 70% relatam renda per capita de no máximo um salário mínimo. Portanto, o endividamento não é apenas um problema contábil, mas uma barreira biopolítica que confisca o poder de compra e a própria vida de quem sustenta a base do país.

Com o orçamento sequestrado pela dívida e pelo custo do transporte, a alimentação torna-se um campo de sobrevivência. As periferias urbanas tornaram-se desertos alimentares, onde o acesso a frutas, legumes e verduras é escasso e caro. Segundo o estudo ‘Acesso a Alimentos e Consumo de Ultraprocessados em Áreas Periféricas’, realizado em metrópoles brasileiras, o consumo desses produtos, como macarrão instantâneo, embutidos e biscoitos recheados, é significativamente maior nas bordas da cidade. A pesquisa revela que a presença de pontos de venda de ultraprocessados supera em larga escala a oferta de alimentos in natura, criando um ambiente onde o produto industrializado é a opção mais barata e geograficamente acessível. A indústria alimentícia, ciente dessa vulnerabilidade, ocupa o vácuo deixado pela ausência de políticas de abastecimento público, oferecendo calorias vazias que se encaixam na ‘pobreza de tempo’ e no bolso esgotado dessas mulheres.

A consequência é um ciclo de adoecimento: diabetes e hipertensão tornam-se epidemias periféricas. E quando a saúde da família colapsa devido a essa dieta compulsória de ultraprocessados e à precariedade sanitária, quem é que assume o papel de cuidadora, enfermeira e gestora do caos? Novamente, a mulher negra. O capital lucra na venda do ultraprocessado que adoece, lucra nos juros da dívida que impede a compra da comida fresca e lucra na precarização do serviço público, contando sempre com o trabalho de cuidado gratuito para remendar as fendas que o próprio mercado abre na vida das pessoas.

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A poluição do ar, intensificada pelas ilhas de calor e pela escassez de áreas verdes nas bordas da cidade, agrava quadros respiratórios e cardiovasculares de quem já vive no limite da exaustão física. Essa vulnerabilidade não é um acidente geográfico, mas uma sentença política: estudos recentes demonstram que moradores de áreas favelizadas e periféricas têm até 15 vezes mais chances de morrer devido a eventos climáticos extremos do que habitantes de bairros nobres. Isso ocorre porque as periferias, desprovidas de arborização, tornam-se ilhas de calor onde a temperatura é significativamente superior à dos bairros ricos, reduzindo drasticamente a capacidade local de regulação térmica e resiliência biológica.

A seletividade do risco é brutalmente visível no território. Em metrópoles como São Paulo, nove dos dez bairros mais afetados por enchentes e desastres climáticos estão localizados nas periferias. Nessas áreas, a falta de planejamento urbano e o confinamento de populações de baixa renda em ocupações informais ou áreas marginais criam o cenário perfeito para a tragédia. Soma-se a isso a grave crise de saneamento e a insegurança hídrica; em 2025, quase metade da população brasileira (44,8%) ainda vivia sem coleta de esgoto. Quando a chuva intensa chega, essa infraestrutura ausente não apenas falha em drenar a água, mas potencializa o risco de contaminações e inundações. O racismo ambiental, portanto, manifesta-se no fato de que o Estado e o mercado projetam a segurança para uns, enquanto reservam o abismo e a exposição direta ao desastre para a maioria negra e trabalhadora.

O racismo ambiental manifesta-se, assim, na seletividade do lucro e na distribuição desigual do risco. Para uma concessionária de energia ou água, investir em resiliência climática em áreas de encosta não gera o dividendo esperado. O resultado é o que assistimos repetidamente: na primeira tempestade, as periferias são as primeiras a apagar e as últimas a ter o serviço restabelecido. Para a mulher negra, chefe de família e principal habitante dessas áreas de risco, a falta de energia é a perda da comida comprada com esforço, a impossibilidade de higienizar a casa após a lama e o aumento da insegurança nas ruas sem iluminação.

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Essa vulnerabilidade se infiltra até nos ciclos biológicos mais íntimos, transformando-os em fatores de exclusão. Quando o acesso à água tratada é interrompido por desastres ou pela negligência privatista, a saúde menstrual é a primeira a ser sacrificada. No Brasil, a pobreza menstrual já afasta uma em cada quatro estudantes das salas de aula; em contextos de crise climática, onde o saneamento básico colapsa, essa barreira torna-se intransponível.

O impacto é geracional. Conforme aponta a Unicef (2024), pelo menos 1,17 milhão de estudantes no Brasil tiveram suas atividades interrompidas por desastres ambientais apenas no primeiro semestre de 2024. Quando a escola fecha porque inundou ou porque não há água, o fardo do cuidado recua para dentro de casa. E como o Estado se omite, ele transfere a função de “gestora do caos” para a mulher, que precisa esticar ainda mais sua pobreza de tempo para cuidar de crianças e enfermos em territórios devastados.

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Essa lógica de exploração espreita até mesmo as soluções apresentadas como “verdes”. A transição energética, se guiada apenas pelo lucro, repete velhas opressões coloniais. No semiárido paraibano, em Borborema, agricultoras denunciam como os complexos eólicos adoecem corpos e modos de vida. Sob o lema “Energia renovável sim, mas não assim”, elas revelam que a instalação dessas turbinas ignora a consulta aos territórios e traz consigo o aumento do assédio e o fenômeno dos “filhos dos ventos”, crianças abandonadas por trabalhadores de grandes obras, cujo cuidado recai, solitariamente, sobre as mães locais. Uma energia que se diz limpa, mas que explora o território e desampara o corpo feminino, é apenas uma nova maquiagem para a velha superexploração.

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Por fim, a crise climática atua como um catalisador de agressões diretas. Estudos recentes, como o de Sanz-Barbero et al. (2018), indicam que ondas de calor podem aumentar em até 28% os casos de feminicídio. O estresse ambiental, o deslocamento forçado e o confinamento em abrigos temporários precários, como visto nas inundações do Rio Grande do Sul em 2024, expõem mulheres e meninas a assédios e abusos.

O racismo ambiental, portanto, escolhe quem vai perder a casa e quem terá sua integridade física violada pela desestruturação social que o clima provoca. Não há saída ecológica sem a reorganização radical do cuidado e o enfrentamento ao modo de produção que trata a vida das mulheres negras como um recurso inesgotável e sacrificial.

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Tudo o que discutimos até aqui, a superexploração, o sucateamento das cidades, o racismo ambiental e o adoecimento, converge para um gargalo político central: a forma como o Estado brasileiro escolhe gerir sua riqueza e suas prioridades fiscais. No centro dessa disputa está a escala 6×1, que nada mais é do que a institucionalização do sequestro do tempo. Dados do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, baseados na PNAD Contínua, revelam que essa escala tem cor e alvo: a população negra é a maioria absoluta dos trabalhadores nesse regime (60%), ocupando postos no comércio e serviços que pagam, em média, os menores salários do mercado. Falar sobre o fim dessa jornada exaustiva é, antes de tudo, falar sobre a dignidade da mulher negra. Se ela já é sobrecarregada pelas obrigações sociais do cuidado, a exigência de trabalhar seis dias para folgar apenas um é um decreto de exaustão absoluta. A luta pela redução da jornada não é um pedido para que ela tenha mais tempo para os afazeres domésticos, mas sim para que ela tenha o direito de existir para si mesma, resgatando o tempo como um espaço de lazer, sono e autonomia.

No entanto, essa redução da jornada é inviabilizada pelo atual jogo neoliberal que prioriza o rentismo em detrimento da vida. Para que o tempo livre não seja apenas uma extensão do trabalho reprodutivo invisibilizado, o Estado precisa assumir sua parcela de corresponsabilidade. Isso exige serviços públicos robustos: educação e creches em tempo integral onde a criança seja estimulada e não apenas “depositada”, uma saúde preventiva que fortaleça o SUS e desonere a mulher do papel de enfermeira compulsória, e redes de assistência social que retirem de suas costas o peso de ser a única rede de proteção para idosos e enfermos.

Ocorre que é impossível construir essa rede de cuidado sob o garrote do Teto de Gastos e do novo Arcabouço Fiscal. Esta trava econômica não é um “ajuste técnico” neutro, mas um impeditivo direto à liberdade feminina. Na prática, a regra impõe um teto de crescimento para os gastos públicos que ignora a explosão das demandas sociais. Quando o governo aceita uma meta de déficit zero que prioriza o pagamento de juros aos detentores da dívida pública, ele está, deliberadamente, retirando recursos que deveriam financiar a expansão de creches e postos de saúde. É uma escolha política que mantém a mulher negra como o “amortecedor humano” dos cortes: se o Estado não investe na creche porque o limite fiscal não permite, quem “paga” essa conta é o tempo de vida da mãe periférica.

É preciso dizer, com o rigor que a urgência exige, que essa lógica neoliberal de austeridade tem sido mantida e chancelada por governos progressistas. Ao abraçar o Novo Arcabouço Fiscal, o governo Lula optou por manter a espinha dorsal do projeto econômico anterior, trocando o investimento social pela busca da confiança de um mercado que nunca se sacia. Sem romper com esse compromisso fiscalista, o discurso de proteção às mulheres e de combate à desigualdade torna-se uma peça de retórica vazia, pois o orçamento, que é onde a política se materializa, continua sequestrado pelo rentismo.

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Essa armadilha se torna ainda mais letal diante da emergência climática. A relação entre a crise ambiental e as travas fiscais é de colapso anunciado. Como preparar as cidades para tempestades e ondas de calor se o Estado está proibido de investir em obras estruturantes? A tragédia no Rio Grande do Sul em 2024 é o exemplo pedagógico desse crime: dados revelam que, nos anos anteriores ao desastre, o investimento em prevenção de cheias foi drasticamente reduzido sob a justificativa de “cumprimento de metas fiscais”. Em Porto Alegre, o Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) teve seu orçamento para manutenção sucateado por anos, resultando em estações de bombeamento que não funcionaram no momento crítico.

A austeridade impede a drenagem, o saneamento e a transição para um transporte público de qualidade, empurrando as prefeituras para as privatizações por sucateamento que discutimos anteriormente. No fim, o lucro das concessionárias e o pagamento dos juros da dívida são garantidos pela degradação do território e pela exaustão do corpo da mulher trabalhadora. Não há como derrubar a estrutura patriarcal e racial sem derrubar, primeiro, as grades fiscais que impedem o Estado de investir em cultura, em educação emancipadora e na infraestrutura da vida.

Para romper esse ciclo, é necessário um projeto de soberania nacional que vincule o desenvolvimento à produtividade social e à indústria verde. A reconstrução de instrumentos estatais de planejamento, como a discussão em torno da reindustrialização e de empresas públicas de tecnologia e energia, é o que pode gerar empregos formais com melhor remuneração e reduzir a dependência da informalidade. No curto prazo, a reforma tributária que onere o topo rentista e a queda dos juros são urgências para aliviar o endividamento das chefes de família, liberando renda para o que a economia chama de Propensão Marginal a Consumir. Quando a mulher negra tem dinheiro no bolso, ela o injeta imediatamente na economia real, gerando um efeito virtuoso de emprego e renda no território que nenhum mercado financeiro é capaz de produzir.

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Portanto, a luta contra o teto de gastos, pela queda dos juros e pelo fim da escala 6×1 não são pautas isoladas; elas formam uma única luta pela vida, que é intrinsecamente climática, racial e de gênero. A justiça climática é inalcançável enquanto a reprodução da vida for tratada como um custo a ser reduzido e a exploração do trabalho da mulher negra for a base oculta que sustenta a acumulação de capital.

Não haverá futuro verde sem a reorganização radical do cuidado e sem a quebra das correntes fiscais que impedem o Estado de proteger seu povo. Alterar esse cenário exige enfrentar o “senso comum” do mercado e afirmar que a produtividade do trabalho deve servir ao bem-viver, não ao giro do rolete. Reconhecer que o provimento da vida e a defesa do clima repousam sobre os ombros das mulheres periféricas é o primeiro passo para uma mudança real: uma onde o direito ao tempo, à saúde e à dignidade deixe de ser um privilégio de poucos para se tornar a base de uma nova organização social soberana.

*Economista, pesquisador e mestrando em integração da América Latina (PROLAM-USP).

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