No desaguar das águas sagradas, Cerrado e Pantanal confluem caminhos de resistência

Em sete intercâmbios por nove comunidades e territórios originários, tradicionais e camponeses do Pantanal, povos fortalecem a rede tecida em defesa da natureza e modos de (re)existir; programação da Romaria reuniu povos dos nove estados que integram os biomas

Por Júlia Barbosa, João Palhares, Ludimila Carvalho, Maria Ronilda, Ronilson Monteiro, Alciléia Torres e Fátima Tertuliano*, em CPT 

Nós somos quilombolas, povos tradicionais
posseiros, camponeses, dos campos e gerais
viemos das aldeias, das várias etnias
aqui nos reunimos nesta Romaria…

Hino da Romaria do Cerrado e Pantanal – Antônio Baiano


Inspirada pelo lema “No Cerrado e Pantanal, correm os segredos sagrados das águas”, a II Romaria Nacional do Cerrado e I Romaria do Pantanal aconteceu entre os dias 03 e 06 de junho. Caravanas de romeiras e romeiros do Maranhão, Tocantins, Piauí, Rondônia, Mato Grosso, Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás cruzaram as estradas do Brasil para um encontro histórico entre os povos do Cerrado e do Pantanal, sendo acolhidas no solo pantaneiro de Corumbá, no Mato Grosso do Sul.

Após a chegada das caravanas à capital Campo Grande, as romeiras e os romeiros se dividiram para ida aos territórios tradicionais, originários e camponeses acompanhados pela CPT no estado, para um dia de intercâmbio e vivência. As comunidades visitadas compartilharam experiências de luta e resistência na terra, bem como práticas de cuidado com as águas e a biodiversidade. 

Os intercâmbios possibilitaram aos participantes diálogos e trocas de experiências em diversas lutas coletivas tecidas do Cerrado ao Pantanal, como o direito originário dos povos indígenas ao seu território e ao Bem Viver; o impacto dos incêndios criminosos e o monitoramento integrado do fogo; a defesa dos territórios quilombolas; reforma agrária, agrofloresta e cuidado com as águas; educação e juventude do campo; lutas e modos de vida dos povos das águas; e a energia das mulheres da terra.

Eno Poké’E, a Aldeia Mãe Terra

No solo sagrado da Aldeia Mãe Terra, situada no Território Indígena Cachoeirinha, em Miranda/MS, desembarcaram histórias de luta e resistência, carregadas na mala por camponeses e povos da terra, das águas e das florestas do Cerrado e do Pantanal. Com o cair da luz do dia, cerca de quarenta pessoas foram recebidas na Escola Indígena Eno Poké’E, resultado da luta do povo para educação das crianças e jovens dentro do próprio território.

Maria Belizario, liderança e professora de Mãe Terra, expressou com orgulho e satisfação as boas conquistas com a escola na aldeia. “Tem jovens que foram da minha primeira turma aqui na escola, ainda crianças, e hoje já estão formados em pedagogia, em direito… e todos voltando para a aldeia para fortalecer ainda mais o nosso território”, declarou a anciã. A juventude indígena, principalmente representada pelo povo Akroá Gamella no intercâmbio, trouxe a importância do trabalho e a luta que vem fazendo sobre o resgate e fortalecimento da juventude para que os povos tenham a representação e continuidade das lutas e ancestralidades.

O nome da aldeia foi construído pelas mulheres do território, que inspiram a força para a resistência na retomada, contou Maria. “As mulheres nunca vão pelo medo. Foi a força das guerreiras do nosso povo que nos manteve firmes na retomada na luta pelo nosso território”, destacou.

Com o amanhecer do dia, uma apresentação cultural das crianças terena abriu a roda de apresentações e partilhas. O Cacique Zacarias Terena iniciou fazendo memória à retomada do território, que se deu em 2005, com a força coletiva dos povos Terena e Kinikinau. “Quem demarca o seu território é o povo. E para demarcar nossa terra, a gente precisa se unir, ocupar e retomar”, expressou o ancião. 

Essa compreensão também é compartilhada pela juventude e repassada às crianças da comunidade. Nilson Flores, da etnia Kinikinau, é jovem do território Mãe Terra, o primeiro de seu povo a se formar em Direito, e reforça a importância dos povos marginalizados compreenderem e lutarem por seus direitos, bem como garantirem que sejam representados por seus pares nos espaços de poder e decisão, reconhecendo o voto como fundamental estratégia de luta:

“Precisamos entender sobre as leis, sobre esses projetos que a gente sabe que não são benéficos para nenhum povo indígena, mas que eles estão no congresso aprovando medidas contra o povo. Se não for a gente, se não tem um representante indígena, um representante negro, um representante LGBT+, ninguém lá vai falar por nós”, manifestou.

O jovem Kinikinau ainda reforçou a resistência ancestral dos povos, que lutam não apenas pelos territórios, mas por seus modos de vida e culturas, que garantem a continuidade do povo. “A gente ainda não tem o nosso território demarcado, mas mantemos nossa cultura, mesmo assim a gente luta, a gente resiste através da nossa cerâmica, das nossas danças e cantos”.

O Vice-Cacique Kambú Terena reforçou a urgência da demarcação dos territórios para garantia dos direitos indígenas em plenitude: “Sem o território, não haverá educação e nem saúde para nós. Quando falam que querem indenizar os grileiros pelas terras, a gente fala que quem deve ser indenizado somos nós indígenas e a natureza, pelo estrago que fizeram com o meio ambiente, com as nossas águas que estão contaminadas e com nosso território”, alertou.

“Nosso rio Paraguai nunca ficou tão baixo. Desde 1976 para cá diminuiu muito. Todo mês de maio era muita água e agora está seco, por causa de muito desmatamento, não chove mais como antes”, denunciou o Cacique Zacarias.

A professora Maria também chamou atenção para a destruição dos territórios e o grito uníssono dos povos e da natureza: “Nosso rio está pedindo socorro, tenho certeza de que nós, unindo nossas forças, não vamos deixar acabar nossa água, porque a gente está gritando pela natureza e pelos nossos rios, estamos pedindo socorro para somarem nessa luta”, clamou a anciã.

O intercâmbio na Mãe Terra contou com a representação dos povos Terena, Kinikinaua, Guarani e Kaiowá, Akroá Gamella, Krenjê, Xavante e Xatagaka, além de representantes quilombolas, ribeirinhos, sem terra e camponeses. Durante as trocas de experiências, Cacoti Akroá Gamella compartilhou sobre as resistências de seu povo e as violências que os acomete nos conflitos no campo, que é uma realidade cruel entre os povos indígenas: “Tentaram nos matar, mas temos força e estratégia para lutar, que não é diferente dos outros parentes como os Terena. Precisamos de estratégia, porque se não vamos morrer bem rápido. Já tentaram nos matar, mandaram pistoleiros, mas fizemos uma estratégia para enfrentamento. Se não tivermos estratégias de luta, nós vamos todos morrer, porque a estratégia deles é nos matar”, testemunhou.

Com a força das águas que são vida e resistem no Cerrado e no Pantanal, os povos, acolhidos por Mãe Terra, reafirmaram: “Sempre estivemos aqui! Resistir para existir!”. Com a resiliência das árvores e da vegetação que renasce do fogo e das águas, os povos declararam: “Conseguem arrancar os pés, mas a raiz brota de novo!”.

Água virando terra – Assentamento São Gabriel

No vão da capelinha de Nossa Senhora Aparecida do Assentamento São Gabriel, a cerca de 50km de Corumbá, povos e comunidades do Cerrado e Pantanal ecoaram as resistências e estratégias diante das violências do fogo criminoso. De acordo com dados do Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno, da CPT, em 2025, mais de 2 mil famílias foram atingidas por esse modo de ofensiva nos dois biomas. 

Os registros de incêndios criminosos nessas terras-territórios representam mais 61% dos casos publicados pelo Cedoc/CPT no último relatório de Conflitos no Campo, que são interseccionados por outras violações de direitos. No São Gabriel, onde mais de 200 famílias são assentadas, a luta contra a fome e a escassez severa de água doce, com a dependência frequente de caminhões-pipa, se soma às demais lutas do território. “Quem vive sem água, ou bebendo água salobra? Essa água faz mal!”, é uma das condições denunciadas pelo território, a partir da fala do brigadista voluntário Antônio Neto.

Como proteção à devastação ambiental, a comunidade tem se mobilizado por meio da Brigada São Gabriel do Pantanal. Criada há quatro anos, a iniciativa garantiu a profissionalização na prevenção e combate aos incêndios no território: os 13 brigadistas voluntários, que antes combatiam o fogo apenas por instinto, sem uma formação técnica que os respaldasse, hoje atuam de forma estruturada e resguardada. Chegaram os treinamentos do PrevFogo, os esquadrões foram divididos e os equipamentos de proteção individual (EPIs) foram conquistados “novinhos”. Ali, a comunidade assumia a linha de frente em resposta ao fogo criminoso.

“Agora, nós prevenimos o fogo, conseguimos fazer os aceiros da comunidade e combater o incêndio. Antes, nós tínhamos que correr atrás do fogo em desespero e sem orientação, tendo até pessoas que chegaram a falecer no combate. Hoje, somos brigadistas voluntários”, compartilhou uma das seis mulheres brigadistas do Assentamento São Gabriel, Sarah Oliveira. 

O Pantanal ainda é marcado pelas cicatrizes dos incêndios que consumiram, conforme a organização SOS Pantanal, mais de 26% de todo o bioma em 2020. Diante desse contexto, a Articulação Agro é Fogo – parceira na condução da programação – trouxe a urgência de diferenciar os incêndios criminosos, provocados pelo avanço do agro-hidro-minero-negócio e da grilagem, do uso tradicional e ancestral do fogo feito pelas comunidades.

A Agro é Fogo ainda alertou sobre a influência dos incêndios no ciclo hidrológico e, por consequência, na desertificação do bioma, que vem sendo percebida há alguns anos pelas comunidades da região. “Agora que o Pantanal voltou a chover, mas eu já cheguei a ver água virar terra, foi quando pensei ‘será que o mundo vai acabar?’”, contou a líder da brigada São Gabriel, Vera Lúcia. 

Relatos impactantes rememoraram a violência do incêndio criminoso provocado por grileiros na Chapada da Fortaleza (PI) no ano passado. Os depoimentos dos camponeses da região para a ofensiva tomou proporções imensas, encurralando animais e ameaçando as casas dos moradores. Somado ao fogo, representantes do Tocantins denunciaram o uso de drones para a pulverização irregular de agrotóxicos, uma prática que tem contaminado as famílias camponesas, as águas e as lavouras de alimentos, gerando graves impactos à saúde e à segurança alimentar das comunidades.

Como estratégia de enfrentamento e de possibilidade de futuro, as comunidades participaram da apresentação da Plataforma Alarmes, do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA/UFRJ), focada em monitoramento para previsão e combate a incêndios. A proposta buscou garantir que a comunidade consiga monitorar focos de calor em tempo real, medir a intensidade dos incêndios e produzir mapas para formalizar denúncias. 

Os grupos de trabalho do intercâmbio em Incêndios e Monitoramento Integrado do Fogo encerraram a atividade com uma agenda política definida, exigindo do Estado políticas públicas efetivas para a garantia do acesso à água e a responsabilização contra crimes ambientais. Ainda, reafirmaram o voto e a mobilização comunitária enquanto instrumentos fundamentais na defesa da terra, da água e da vida nos territórios.


Quilombo Família Ozório – E a demarcação do meu ancestral?

Às margens das águas sagradas do rio Paraguai: reencontros com a memória ancestral, a resistência coletiva e a esperança cultivada pelos povos do Cerrado, do Pantanal, da terra, das florestas e das águas. Romeiras e romeiros de 20 territórios quilombolas, camponeses e de fundo e fecho de pasto traçaram caminhos de resistência e vida, da Comunidade Quilombola Ribeirinha Família Ozório aos seus territórios.  

Embora de locais diferentes, os povos e comunidades compartilham vivências entrelaçadas pela negação histórica de suas vidas, por meio da concentração fundiária, do racismo estrutural, dos impactos dos grandes empreendimentos e, sobretudo, da ausência de políticas públicas capazes de garantir seus direitos essenciais. A história do Quilombo Família Ozório expressa, de forma profunda, muitas das dores e desafios vividos pelos territórios presentes no intercâmbio.

Esse território ancestral, assim como tantos outros, aguarda a tão sonhada publicação do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) – etapa fundamental do processo de titulação. Enquanto não chega, a comunidade Família Ozório segue resistindo em uma área periurbana com cerca de seis hectares,  embora reivindique, aproximadamente, 140 hectares de seus ancestrais. 

Exposta aos alagamentos, às incertezas climáticas e aos impactos do descarte inadequado de resíduos urbanos, a comunidade convive com vulnerabilidades que comprometem o modo de vida quilombola diariamente. “Muitas vezes temos a sensação de que fomos esquecidos. As políticas públicas existem, mas quase sempre são desviadas do caminho que deveria chegar até nós”, destacou o morador do território, Jorge Ozório.

Sua reflexão ecoou entre as romeiras e romeiros. A fala carrega experiências comuns à muitas comunidades presentes: lutar continuamente pelo acesso a direitos assegurados constitucionalmente. Seja nos quilombos, nos assentamentos, nos territórios de fundo e fecho de pasto ou nas comunidades camponesas, as falas das comunidades, enfatizadas no intercâmbio, tratam da realidade por meio da invisibilização institucional, da morosidade dos processos de regularização territorial e da exclusão das políticas públicas para a justiça social no campo.

Ainda assim, é justamente nesse cenário, de limites impostos e direitos negados, que floresce a força do povo: produção de alimentos, hortas, pesca, feiras locais e comercialização. A grandeza da agricultura familiar no território, associada ao protagonismo das mulheres e da juventude, revela que a luta, plantada, se faz necessária na dissipação de raízes profundas, com bons frutos de vida e esperança.

A resistência dos povos tradicionais e camponeses nunca foi construída de forma isolada, esse é o horizonte fortalecido pelas Romarias do Cerrado e Pantanal. As partilhas evidenciaram a importância do trabalho em rede, da solidariedade entre comunidades e da construção de estratégias coletivas de proteção à governança territorial. A teia constituída, seus laços, por meio do Quilombo Família Ozório aparece, assim, como um caminho importante para as comunidades no enfrentamento às violações e incidência política em defesa dos territórios. 

“Ainda enfrentamos muitas barreiras, mas hoje já percebemos um pouco mais de sensibilidade por parte da sociedade. Mesmo assim, tudo o que conquistamos até aqui, tudo o que mantém esta comunidade viva e de pé, é fruto da luta diária e incessante do povo quilombola. Se existimos hoje, é porque nunca deixamos de resistir”, explicou a moradora do quilombo, Angélica Ozório.

Assentamento Nazaré – Narrativas agroecológicas e agroflorestais

Distribuição de sementes, manutenção de viveiro, produção ecológica. Esses foram os temas centrais da vivência no Assentamento Nazaré, território sob Sistema Agroecológico Florestal (SAF). A comunidade, que é composta por cerca de 170 famílias com lotes entre sete e dez hectares, foi construída a partir da articulação entre os movimentos Movimento dos Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Central Única dos Trabalhadores (CUT) e FETAGRI. 

Até a conquista da terra, nos seis anos de acampamento às margens da rodovia, as famílias de Nazaré passaram por resistência e persistência, que foram relembradas como momentos importantes da trajetória do território. Um dos momentos, de acordo com uma liderança da comunidade, se passa pela ofensiva contínua do latifúndio. Essa que, exerce força mesmo após o processo de assentamento: comunidades denunciaram a qualidade das áreas destinadas à reforma agrária, onde há “valores elevados com baixa capacidade produtiva”.

Durante as falas, lideranças comunitárias de outros estados abordaram sobre os impactos provocados pela expansão do agro-hidro-mineronegócio, especialmente sobre as áreas de preservação ambiental e os territórios das comunidades rurais. Complementando essa discussão, Abner destacou a insuficiência de políticas públicas voltadas aos assentamentos, situação que leva muitas famílias a recorrerem ao arrendamento de suas terras para grandes produtores de soja como forma de garantir renda.

Comunidades do Maranhão também apresentaram denúncias, principalmente, sobre alterações – sobretudo em relação ao nome – de territórios sem a consulta prévia dos moradores. A ação desencadeou conflitos fundiários e ameaças por parte de fazendeiros da região, ocorrendo tentativas de intimidação, perseguição e destruição de estruturas comunitárias. O coordenador regional da CPT Goiás, Gerailton Ferreira, alertou também as comunidades camponesas sobre a perseguição sofrida por lideranças populares e movimentos sociais, destacando a atuação da comissão na conscientização das famílias sobre os riscos do arrendamento dos lotes. 

Durante as discussões, foi destacada a necessidade de ampliar a visibilidade da agroecologia junto à sociedade, demonstrando que a produção de alimentos saudáveis representa também um caminho de transformação social. Os participantes ressaltaram a importância da aproximação entre campo e cidade para fortalecer essa pauta e ampliar o apoio às iniciativas agroecológicas.

Também foi  falado da necessidade de fortalecimento das políticas públicas voltadas para os povos do campo, bem como a simplificação dos processos de acesso aos programas governamentais, considerando as dificuldades relacionadas à inclusão digital e à burocracia enfrentadas por muitas famílias agricultoras.

Outro ponto debatido foi a importância da consciência política e da participação cidadã na defesa dos direitos conquistados. Os participantes manifestaram preocupação com a redução da participação da juventude nos movimentos sociais e destacaram a necessidade de incentivar o protagonismo das novas gerações, fortalecer a identidade cultural e promover a continuidade das lutas populares.

O entendimento coletivo construído ao longo do intercâmbio reafirmou que a organização comunitária, a solidariedade entre os povos e a união entre campo e cidade são fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa, digna e sustentável para as presentes e futuras gerações.

Da escola e da vida em comunidade no Assentamento Taquaral

A atividade de intercâmbio no Assentamento Taquaral, em Corumbá (MS), teve início com um café da manhã na Comunidade Católica Santo Antônio. Na acolhida aos visitantes, Sérgio deu as boas-vindas aos participantes cantando duas músicas, uma acompanhada ao violão e outra com a viola, ambas de sua autoria.

Em seguida, Sérgio apresentou um pouco sobre o território, destacando as dificuldades enfrentadas e a alegria da comunidade pela conquista do título do Assentamento. Durante sua fala, também compartilhou as ideias sobre o projeto de criação da Escola Família Agrícola (EFA), uma iniciativa construída junto à comunidade com o objetivo de atender não apenas o município de Corumbá, mas também outras cidades da região. Segundo ele, a proposta da EFA surge da necessidade de ampliar as oportunidades para a juventude rural, incentivando os jovens a permanecerem e retornarem aos seus territórios, contribuindo para o fortalecimento das comunidades do campo.

Na sequência, foram apresentados os representantes da Embrapa, convidados pela comunidade para compartilhar experiências e tecnologias que vêm sendo desenvolvidas em Taquaral. Os participantes visitaram áreas de experimentação agrícola, onde conheceram o cultivo de diferentes variedades de feijão, em caráter experimental. Durante a visita, os técnicos explicaram as características de cada espécie e os objetivos dos testes realizados.

Também foi apresentada a construção de um tanque feito de ferro e cimento, que será utilizado para a criação de peixes. O projeto prevê um sistema de manejo e reaproveitamento da água, buscando maior eficiência produtiva e sustentabilidade ambiental. 

Ainda durante o período da manhã, o grupo visitou a área destinada à futura Escola Família Agrícola. O espaço apresentado pela comunidade representa um importante passo para a concretização do projeto, que busca fortalecer a educação do campo e contribuir para o desenvolvimento sustentável da região.

Após o almoço, foi realizada uma roda de conversa entre os visitantes, possibilitando a troca de experiências, a integração e o conhecimento das diferentes trajetórias presentes no intercâmbio. A EFA utiliza a pedagogia da alternância, com a vivência do tempo-escola e o tempo-comunidade, em que os estudantes colocam em prática os conhecimentos aprendidos na escola em suas comunidades e na convivência com as famílias, o que estava sendo vivenciado no momento do intercâmbio, o que gerou uma baixa presença de jovens da comunidade, lamentou um participante. Essa situação evidencia a importância de fortalecer estratégias que ampliem o envolvimento da comunidade nos processos de discussão, planejamento e construção coletiva das ações desenvolvidas no assentamento.

O encerramento da atividade foi marcado por um momento de partilha de saberes tradicionais. Sérgio ensinou os participantes a confeccionar a imagem de Cristo na cruz utilizando apenas palha, demonstrando uma técnica artesanal carregada de simbolismo e criatividade. A atividade proporcionou um momento de aprendizado coletivo e reforçou a importância da preservação das práticas culturais locais.

Nas águas do Rio Paraguai, as Colônias de Pescadores e Pescadoras Artesanais

É em comunidade que se fortalece a luta – Colônia Z-14

Dando continuidade às vivências, as águas sagradas do Rio Paraguai acolheram romeiras e romeiros na Colônia dos Pescadores Profissionais Artesanais Z-14. O intercâmbio teve início com a partilha de uma mesa farta e tradicional, regada à sopa paraguaia. À sombra de uma árvore, a roda de conversa abriu caminhos para que histórias, desafios e formas de organização da comunidade corressem como o próprio rio: de maneira coletiva, atravessando memórias, denúncias e esperanças.

A trajetória da Associação da Colônia Z-14, fundada em 14 de março de 2012, foi relembrada pela presidente Elis como fruto da necessidade de organização popular diante da invisibilidade institucional vivida pelas pescadoras e pescadores artesanais. “Eu sempre fui assim da luta, e por ver que a gente aqui não tinha tanto suporte, nós fundamos a Associação”, partilhou.

Nas falas da comunidade, emergiram as muitas violações de direitos que marcam o cotidiano do território. A ausência de políticas públicas básicas atravessa a vida das famílias, que enfrentam dificuldades no acesso à saúde e chegam a pagar entre R$ 300 e R$ 600 em transporte para buscar atendimento médico e vacinação na cidade. A juventude também é empurrada para fora do território, diante da inexistência de oferta de Ensino Médio na comunidade, o que obriga os jovens a se deslocarem para dar continuidade aos estudos.

Além da negligência do Estado, o modo de vida tradicional das pescadoras e pescadores é constantemente ameaçado por legislações restritivas e pela burocratização da atividade. A exigência de exclusividade na pesca para acesso ao seguro-defeso, durante o período da piracema, desconsidera as múltiplas relações que os povos tradicionais estabelecem com a natureza. “Então aqui, quem tem uma roça não é pescador. Só é considerado pescador quem vive só da pesca”, criticou Isolete Wichinieski, da Articulação da CPT’s do Cerrado.

Essa lógica tenta fragmentar aquilo que, para as famílias, compõe um modo de vida inseparável: a pesca, a roça, o cuidado com os animais, a coleta de frutos e a convivência com as águas. Nesse sentido, Alberto, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), chamou atenção para o caráter político dessas restrições, incluindo medidas como a implantação da “Cota Zero” em Mato Grosso do Sul. “Na verdade, isso tudo é proposital, o pessoal que está lá no Congresso quer eliminar as comunidades tradicionais de qualquer jeito”, afirmou.

Somam-se a essas violências as ameaças impostas pelo agro-hidro-minero-negócio ligadas ao capital internacional, como a Rota Bioceânica e o projeto da Hidrovia do Rio Paraguai. A advogada Luana, que presta assessoria à Colônia, alertou que o avanço da hidrovia, pensada para facilitar o escoamento de mercadorias entre países da América do Sul, poderá provocar graves impactos sobre o rio e sobre a vida das comunidades ribeirinhas. O tráfego contínuo de embarcações tende a alterar os ciclos naturais das águas e reduzir drasticamente a quantidade de pescado disponível.

Para além dos períodos naturais da piracema e da dequada, fenômeno de alteração do oxigênio na água, os peixes passarão a enfrentar um ambiente cada vez mais hostil à reprodução e à continuidade de seus ciclos de vida. O que assusta os moradores é que projetos dessa dimensão avançam nos órgãos governamentais sem diálogo prévio com as comunidades diretamente afetadas. Como estratégia de defesa, lideranças como Odília orientaram o território sobre a importância da construção de um Protocolo de Consulta Próprio, amparado pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), como instrumento para assegurar o direito à consulta prévia, livre e informada.

Durante a tarde, após um passeio de canoa que revelou a força e a beleza do encontro das águas dos rios Miranda e Paraguai, o grupo construiu cartazes com mensagens direcionadas à sociedade e aos governantes. Em defesa dos rios e contra a Hidrovia, as palavras levantadas pelas comunidades reafirmaram que o território das águas não é apenas lugar de passagem, mas espaço de memória, trabalho, ancestralidade e sobrevivência.

“É o lugar onde se vive e se luta pela sobrevivência de nós e também de tudo, dos bichos, das nossas águas. É o lugar onde a gente vive vindo dos nossos antepassados”, como definiu o camponês ribeirinho piauiense Juarez. 

O encontro foi encerrado em um profundo momento de espiritualidade às margens do rio, reafirmando que a união das teias é uma das principais forças de resistência dos povos. “Tem uma fala antiga da comunidade que é ‘cateto fora do bando é presa fácil’. Eles querem acabar com as organizações populares para poder enfraquecer a nossa luta”, resumiu a liderança Elis.

Colônia Z-18, lamento das águas e dos povos em Romaria

A diversidade dos biomas se encontrou em uma grande roda de apresentação, marcando a II Romaria Nacional do Cerrado e a I Romaria do Pantanal como espaço de escuta, reconhecimento e construção coletiva. Na Colônia dos Pescadores Profissionais Artesanais Z-18, pescadoras, camponesas, quilombolas, indígenas e assentadas partilharam vivências atravessadas pelas águas, pela terra e pelas lutas que sustentam a vida nos territórios.

Apesar das especificidades de cada comunidade, um lamento comum ecoou entre os povos: os graves conflitos socioambientais, o impacto devastador dos incêndios criminosos, a ofensiva do agro-hidro-minero-negócio  e a contaminação das águas. “Lá nós tem um rio que era muito bom, hoje não pega mais nem piaba”, lamentou Raimunda, pescadora do Tocantins.

A poluição desenfreada também foi denunciada por Carlos, o Foca, presidente da Z-18, que chamou atenção para a falta de consciência no descarte de resíduos e para os impactos diretos sobre os rios e os seres que deles dependem. “O peixe, os animais não comem lixo, né? Tudo que a gente descarta vai ficar lá. Se ninguém pegar, vai acabar caindo no rio”, alertou.

Diante dessas ameaças, o encontro reafirmou que as águas não são apenas recursos naturais a serem explorados, mas elementos centrais da vida, da cultura, da sobrevivência e da espiritualidade dos povos. Nas falas, nos silêncios e nas memórias compartilhadas, a Romaria se afirmou como espaço de formação, denúncia e anúncio, fortalecendo redes de solidariedade, alianças entre comunidades e a defesa da soberania alimentar, da biodiversidade e dos modos de vida tradicionais.

Sementes que germinam libertação: mulheres do Monjolinho

A luta pela terra germina e ganha força pelas mãos das mulheres. Romeiras e romeiros também seguiram em caminhada para o Assentamento Monjolinho, em Anastácio, onde puderam vivenciar como a organização coletiva feminina transformou a realidade local e fortaleceu a permanência das famílias no campo.

A história da comunidade nasceu de uma necessidade urgente e concreta: garantir alimento para as crianças ainda nos tempos difíceis de lona e acampamento. Para acessar, por exemplo, a política pública de distribuição de leite do governo, foi preciso criar uma organização formal. Assim surgiu o antigo Clube de Mães, mobilizando cerca de 140 mulheres em torno do cuidado, da sobrevivência e da construção de caminhos coletivos.

De acordo com as comunidades camponesas da região, naquele período, como não havia geladeiras, as vasilhas eram armazenadas dentro d’água, e o leite, distribuído três vezes por semana, precisava ser fervido logo nas primeiras horas do dia para não azedar. As mulheres que possuíam vacas dividiam o próprio leite para alimentar as crianças de outras famílias do acampamento, o que demonstra o modo de vida profundamente coletivo, especialmente entre as mulheres.

O que nasceu como estratégia coletiva de sobrevivência logo abriu novos caminhos. O grupo se fortaleceu com cursos de pintura em tecido, reunindo dezenas de mulheres que passaram a produzir juntas. Com esforço, improviso e persistência, chegaram às primeiras feiras locais. A partir de 2013, a aprovação em um projeto garantiu recursos importantes para a construção de espaços adequados de produção e para a compra de equipamentos, como fornos.

A força desse trabalho compartilhado se revelou ainda mais durante a pandemia da Covid-19, quando a associação chegou a fornecer grandes quantidades de pães, tortas e chipas para instituições públicas. Hoje, essas camponesas valorizam e dominam o beneficiamento de frutos do Cerrado, como baru, pequi, jenipapo e barbatimão. Também constroem parcerias com universidades e pesquisadoras para desenvolver cosméticos, cremes, pomadas e sabonetes naturais, buscando envolver a juventude para que a produção, os saberes e a autonomia permaneçam no território.

O intercâmbio também abriu espaço para desmistificar o receio que algumas mulheres ainda sentem de perder benefícios sociais ao se associarem. A experiência do Monjolinho mostrou o contrário. A regularização documental e a emissão de notas fiscais pela associação fortalecem o reconhecimento do trabalho rural das associadas e facilitam o acesso a direitos, políticas públicas e editais.

Mais do que um espaço coletivo de produção, a comunidade, por meio de sua associação, se tornou lugar de formação, acolhimento e enfrentamento à dupla jornada de trabalho doméstico e produtivo. Ali, a organização das mulheres revela que autonomia também é cuidado coletivo, fortalecimento político e permanência no campo. “Quando uma mulher sai de casa, ela não sai para tramar contra os homens. A nossa cura não é individual, ela está no coletivo”, resumiu de forma poética a camponesa Cecília.

Baru, o fruto da autonomia feminina no Assentamento São Manoel 

A mesma força pulsante e libertária seguiu com romeiras e romeiras na partilha do Assentamento São Manoel, também no município de Anastácio. No território, o aproveitamento dos frutos do Cerrado, especialmente o beneficiamento da castanha de baru, consolidou-se como um dos pilares da economia das famílias e da emancipação das assentadas.

Com sabedoria, organização e estratégia coletiva, as mulheres coletam e armazenam as sementes de forma comunitária, mas realizam a quebra do baru conforme a demanda dos pedidos. O cuidado garante que o produto chegue fresco aos consumidores, agregando valor à comercialização e fortalecendo a renda das famílias. Além das sementes, o grupo também participa de feiras regionais com a venda de pães e preparações artesanais derivadas do fruto.

O encontro no São Manoel foi tecido com um grande momento de confraternização, com a partilha dos alimentos preparados pela própria comunidade. Em cada prato, nas conversas e na acolhida, reafirmaram-se os laços que marcaram a vivência: a economia solidária e o manejo sustentável do Cerrado como caminhos de resistência política, autonomia produtiva e cuidado com a vida.

Ao final das partilhas, as comunidades garantiram um horizonte em que as experiências das mulheres do Monjolinho e do São Manoel não se limitam apenas à geração de renda. Elas expressam a força da organização popular, a defesa dos saberes tradicionais, o enfrentamento às desigualdades e a construção de futuros possíveis a partir do território.

Para muitas lideranças presentes, o intercâmbio representou um abraço para seguir na caminhada. “Eu volto com a certeza de que não estou só. Eu, uma mulher preta fundadora de um coletivo, vejo que é muito só esse trabalho, e ver outras mulheres na mesma luta nos fortalece”, celebrou Marlene Aparecida, fundadora do Instituto de Referência da Mulher Afrodescendente de Minaçu.

Entre as águas, e caminhos, do Pantanal e Cerrado, ecoaram infinitas histórias atravessadas por expulsões, ameaças, racismo, invisibilidade e violações de direitos. Junto às dores partilhadas, também se fizeram presentes as organizações populares, as espiritualidades, resistências e, sobretudo, o pertencimento. Em cada território visitado, romeiras e romeiros reconheceram que a luta pela terra, pelas águas e pelos modos de vida não é isolada: ela se entrelaça em uma grande teia de memória e esperança.

Os intercâmbios mostraram que defender o território é defender a vida em todas as suas dimensões. É proteger a memória dos ancestrais, garantir o futuro das novas gerações, fortalecer a produção de alimentos saudáveis, cuidar das águas, das sementes, dos rios, e das expressões de vida. Do fogo criminoso que ameaça os assentamentos à contaminação dos rios; da ausência de políticas públicas à demora na demarcação e titulação dos territórios; da força das mulheres camponesas ao protagonismo da juventude, a Romaria reafirmou que os povos do Cerrado e do Pantanal seguem organizando possibilidades de viver, produzir e se relacionar com a vida, para além da catástrofe anunciada pelo agro-hidro-minero-negócio. 

Em tempos de tantas ameaças, as comunidades reunidas em Corumbá demonstraram que a esperança, e a resistência, continuam sendo práticas coletivas. Enquanto houver povos organizados, haverá denúncia, cuidado, espiritualidade e enfrentamento. E, assim como as águas que correm entre o Cerrado e o Pantanal, a luta seguirá abrindo caminhos, brotando da terra, da memória e da união dos povos e comunidades. 

*Da equipe de comunicação da II Romaria Nacional do Cerrado e I Romaria do Pantanal 
Edição: Júlia Barbosa e João Palhares

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