Nas últimas duas décadas, país realizou uma das maiores expansões de sua rede pública de educação profissional, científica e tecnológica. Há condições de romper desigualdades territoriais históricas. Mas, sem um projeto nacional, também o risco de novas formas de dependência
Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras
O Brasil vive uma transição histórica comparável à iniciada na década de 1930. Naquela oportunidade, o país começou a superar a antiga e longeva condição agrária e exportadora para construir uma nova sociedade urbana e industrial.
Neste início do século XXI, a economia industrial perdeu centralidade diante da ascensão dos serviços, da inteligência artificial, das plataformas digitais e da economia baseada em dados. Um novo contexto que coloca em dúvida a possibilidade da construção de um inédito padrão de desenvolvimento que seja capaz de superar as novas e velhas desigualdades regionais brasileiras.
A experiência do século XX oferece um importante alerta. Entre as décadas de 1930 e 1980, cerca de três quartos dos investimentos industriais concentraram-se no Centro-Sul, especialmente no Sudeste. Enquanto essa região absorveu aproximadamente 70% da capacidade industrial nacional, o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste permaneceram relativamente periféricos devido ao avanço da sociedade urbana e industrial.
A industrialização modernizou o país, mas não democratizou o conjunto do seu território. A concentração da localização das fábricas significou também concentração da renda, infraestrutura, ciência, universidades e oportunidades econômicas. Formou-se um país nacionalmente integrado, porém regionalmente desigual, conforme herdado do antigo agrarismo.
A passagem para a economia digital não eliminou ainda essa herança. Entre os anos de 2000 e 2020, mais da metade dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação continuou concentrada no Sudeste. Mudou o objeto da concentração, pois menos fábricas, mais laboratórios; menos chaminés, mais centros de pesquisa; menos máquinas industriais, mais dados, algoritmos e inteligência artificial.
Contudo, diferentemente do passado, surgem sinais concretos de avanços na desconcentração territorial. Nas últimas duas décadas, por exemplo, o Brasil realizou uma das maiores expansões de sua rede pública de educação profissional, científica e tecnológica. A criação e interiorização dos Institutos Federais, a ampliação das universidades federais, a expansão dos campi universitários e o fortalecimento das fundações estaduais de ensino superior espalharam infraestrutura de conhecimento para centenas de municípios antes excluídos das redes nacionais de ciência e tecnologia.
Pela primeira vez na história brasileira, cidades médias do interior passaram a abrigar universidades, centros de pesquisa, parques tecnológicos e programas de pós-graduação. Essa transformação pode representar para a economia digital o que, talvez, a construção das ferrovias e das hidrelétricas representou para a industrialização do século XX.
Ao mesmo tempo, uma nova geografia econômica parece emergir. O dinamismo do agronegócio, mineração, bioeconomia, energias renováveis e corredores de integração sul-americana desloca investimentos para o interior do país. O Centro-Oeste tornou-se um dos principais polos globais de produção de alimentos. O Norte ganha relevância estratégica. O Nordeste consolida-se como importante produtor de energia renovável.
Isso parece apontar para uma possível marcha para o oeste, impulsionada não apenas pela ocupação territorial, mas pela integração física e econômica da América do Sul. Mais recentemente, um novo elemento passou a compor esse cenário com os investimentos em data centers.
A combinação entre disponibilidade de energia renovável, abundância hídrica, custos operacionais competitivos e expansão da conectividade digital transformou algumas regiões brasileiras em potenciais destinos para grandes infraestruturas de processamento de dados. Estados do Nordeste, do Centro-Oeste e do Sul passaram a disputar investimentos associados à computação em nuvem, inteligência artificial e armazenamento de informações.
Os data centers, por exemplo, podem desempenhar na economia digital um papel semelhante ao das siderúrgicas, refinarias e montadoras durante o passado da industrialização. São infraestruturas estratégicas da nova economia.
Mas a simples localização física dessas estruturas não garante desenvolvimento regional. Se os territórios apenas hospedarem servidores e consumirem tecnologias produzidas externamente, o país poderá estar reproduzindo nova forma de dependência. O desafio seria transformar a expansão da infraestrutura digital em capacidade local de inovação, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e geração de empregos qualificados.
Na passagem para o segundo quarto do século XXI, a questão central não se reduz a quem produz alimentos, minérios ou energia. Mas à quem controla dados, algoritmos, plataformas de aplicativos, inteligência artificial, entre outras dimensões de uma sociedade de serviços hiperconectada, própria da era digital.
Por isso, o deslocamento geoeconômico em curso precisaria ser acompanhada pelo maior aprofundamento da interiorização da ciência, tecnologia e capacidade de processamento de informações. Como se sabe, o Brasil dispõe hoje de ativos que não possuía durante a industrialização clássica, com uma extensa rede de universidades públicas, institutos federais, centros de pesquisa, sistemas estatísticos, infraestrutura digital em expansão e crescente integração continental.
Essas condições criam a possibilidade histórica de romper com o padrão secular de concentração territorial. O desafio nacional já não consiste apenas em integrar fisicamente o território, mas o de integrar o território do conhecimento.
Se no século XX, a grande questão era onde estavam as fábricas, no século XXI a pergunta estratégica passou a ser outra, onde estarão os centros de inteligência, os laboratórios de inovação, os data centers e os sistemas de processamento de dados. A resposta a essa pergunta definirá se o Brasil continuará reproduzindo desigualdades regionais históricas ou se inaugurará um novo ciclo de desenvolvimento territorialmente menos desigual.
Se o século XX foi marcado pela disputa em torno da localização das fábricas, o século XXI poderá ser definido pela localização das universidades, dos centros de pesquisa, dos data centers e dos sistemas de inteligência capazes de transformar informação em desenvolvimento. A questão regional brasileira permanece aberta, mas poderá se expressar cada vez mais como uma disputa pelo controle do conhecimento e dos dados.
Isso porque as universidades, institutos federais, data centers e corredores de integração sul-americana podem favorecer tanto a nova geografia do desenvolvimento quanto a reprodução, em versão digital, a concentração herdada historicamente desde o agrarismo, aprofundada pela industrialização.




