Seria a onda de direita consequência do lulismo?

Experiência brasileira mostra a força das elites. Mesmo ações moderadas contra o rentismo – como a “Nova Matriz” de Dilma – despertam reações violentas. Exame da intricada conjuntura nacional requer respostas mais complexas

Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

Há um ponto em que a leitura da moderação como matriz da extrema direita perde contato com a história concreta. Esse ponto aparece quando se sai do plano abstrato das categorias e se entra, enfim, no terreno das experiências efetivas de governo. Se essa tese estivesse correta em seu núcleo mais forte, os momentos de tensão entre governo e frações dominantes tenderiam a aparecer como periféricos, episódicos ou residuais, e o lulismo atravessaria sua trajetória sobretudo como forma dócil de administração do capitalismo brasileiro. A história recente não confirma essa imagem. E o caso mais eloquente talvez seja justamente o do governo Dilma.

A experiência inaugurada a partir de 2011, com o que se convencionou chamar de Nova Matriz Econômica, não cabe seriamente na ideia de simples continuidade passiva da ordem. Houve ali, com todas as limitações e contradições do processo, uma tentativa concreta de deslocar o eixo macroeconômico brasileiro em direção a um horizonte de reindustrialização, ampliação do investimento e reposicionamento do desenvolvimento nacional. Redução da taxa de juros, desvalorização cambial programada, desonerações voltadas para a indústria, expansão do crédito público, redução do custo da energia: tudo isso compôs um movimento real de inflexão. Pode-se discutir a consistência interna do programa, sua execução, seus limites, suas fragilidades e até sua ingenuidade estratégica. O que a história não autoriza é tratar esse movimento como repetição indiferente de uma governabilidade acomodada.

Esse ponto reorganiza a própria narrativa sobre o que veio depois. Durante muito tempo, consolidou-se a leitura segundo a qual a crise de 2015 e o colapso político subsequente comprovariam a falência de um reformismo incapaz de enfrentar a ordem. Só que essa interpretação embaralha a sequência efetiva dos acontecimentos. O processo revela a reação ativa de frações empresariais, midiáticas, parlamentares e judiciais contra um governo que, ainda que de modo hesitante e contraditório, tentou deslocar a arquitetura econômica para além do conforto habitual do rentismo e da financeirização. Em vez de uma simples decomposição de moderação excessiva, o período expõe o custo político cobrado de uma experiência que ensaiou uma inflexão e encontrou, diante de si, uma contraofensiva organizada.

Esse ponto foi percebido com mais clareza por leituras heterodoxas que se recusaram a tratar o período como mera administração inercial da ordem. Em chave nacional, Elias Jabbour ajudou a formular o sentido de uma disputa que envolvia reindustrialização, soberania produtiva e reposicionamento do desenvolvimento brasileiro. Em outra escala, Fernando Haddad, em Capitalismo Superindustrial, reinscreve esse problema numa transformação mais ampla do capitalismo contemporâneo, marcada pela reorganização tecnológica, produtiva e geopolítica do sistema. Essa articulação importa politicamente porque desmonta uma caricatura recorrente: a de que toda tentativa de pensar desenvolvimento, indústria, tecnologia e Estado fora do receituário rentista já seria, por definição, simples gestão moderada da ordem. Quando até Haddad pode ser tratado como “direitista” por setores da extrema esquerda, o problema já não está apenas no conteúdo do debate, mas no empobrecimento do próprio critério pelo qual ele vem sendo travado.

Lidos nesse registro, os impasses da Nova Matriz deixam de aparecer como prova de inexistência de inflexão e passam a ser vistos como expressão de uma experiência que não encontrou base material, política e empresarial capaz de sustentá-la. As frações do capital que, em tese, se beneficiariam do reposicionamento produtivo não responderam com o grau de investimento, compromisso e horizonte estratégico que a experiência exigia. Receberam incentivos, pressionaram por vantagens, demandaram proteção e, logo depois, aderiram ao movimento de desestabilização do próprio governo que lhes havia aberto essa janela. Aí está uma chave importante do período: uma experiência que tentou infletir parcialmente a ordem acabou abandonada, sabotada ou instrumentalizada justamente pelos setores que, em tese, deveriam sustentá-la.

Essa reconstituição impede que a crise brasileira seja lida em termos morais ou doutrinários. A pergunta decisiva não diz respeito ao grau de pureza do governo, nem à sua maior ou menor proximidade com um horizonte socialista que ele nunca reivindicou integralmente para si. O que importa é entender o que ocorreu quando uma experiência de centro-esquerda tentou deslocar, ainda que parcialmente, o eixo do desenvolvimento e da política econômica em direção a um projeto menos subordinado ao rentismo. O que se abriu ali foi uma situação de conflito. E é isso que a categoria de contraofensiva ajuda a iluminar.

Quando esse ponto entra em cena, o debate muda de patamar. A derrota de Dilma e a reorganização do período posterior mostram que a direita brasileira trabalhou ativamente a construção de sua própria saída. Houve ação, articulação, cálculo, reorganização de linguagem e de campo ideológico. Insatisfação econômica foi convertida em guerra moral; disputa distributiva, em cruzada anticorrupção; ressentimento de classe média, em energia política organizada. A extrema direita não apareceu como simples desdobramento das insuficiências do reformismo. Ela foi construída por agentes concretos, com interesses concretos, em disputa concreta de poder.

É justamente aí que a narrativa segundo a qual a moderação petista teria sido um dos motores centrais do bolsonarismo começa a revelar sua insuficiência. Ela tem a elegância da simetria conceitual: um reformismo que não resolve as contradições abriria espaço para sua reaparição sob forma mais regressiva. O problema é que a história concreta é menos simétrica e mais dura. Houve tentativa de inflexão, reação coordenada, sabotagem, desestabilização, deposição e reorganização ativa da direita. A passagem do lulismo ao bolsonarismo não se deixa reduzir a uma linha reta. Ela se moveu como processo de conflito.

Essa observação recoloca também o problema da mediação em seus devidos termos. Parte importante da crítica contemporânea ao lulismo trata qualquer mediação institucional, econômica ou tática como prova suficiente de capitulação. A experiência brasileira sugere algo mais difícil de admitir: mesmo deslocamentos moderados, quando tocam interesses estruturais, podem desencadear respostas violentas do bloco dominante. Isso não converte toda mediação em virtude, nem toda conciliação em estratégia acertada. Apenas recoloca a política real no terreno em que ela efetivamente existe: um campo intermediário, conflituoso, instável, em que reformas parciais, inflexões limitadas e disputas incompletas produzem efeitos históricos reais, inclusive reações regressivas intensas.

O problema da crítica abstrata à moderação está em apagar justamente esse terreno intermediário. A história se converte, então, em tribunal de coerência. Em vez de investigar o que acontece quando determinadas frações do capital se veem diante de um reposicionamento econômico relativamente adverso, retorna-se sempre ao déficit originário do reformismo. Com isso, desaparece a própria dinâmica da luta de classes em sua espessura concreta.

O debate sobre a extrema direita exige mais do que esse enquadramento. Exige compreender que a crise brasileira se deu num momento de reorganização mais ampla do capitalismo mundial, de esgotamento de padrões clássicos de crescimento periférico e de aprofundamento da vulnerabilidade estrutural de economias dependentes. Nesse contexto, a margem para experiências distributivas, desenvolvimentistas ou reformistas tornou-se mais estreita, e a reação das classes dominantes, mais agressiva. A simultaneidade entre a dificuldade crescente da centro-esquerda em oferecer respostas estáveis e a expansão internacional de direitas radicais, discursos antipolíticos e formas violentas de reorganização autoritária do consentimento não é casual. O Brasil não inventou esse processo. Mas o viveu de maneira particularmente aguda.

É aí que o debate econômico precisa voltar a ser levado a sério. Juros altos, austeridade, autonomia do Banco Central e dependência financeira compõem, de fato, a arquitetura concreta da ordem brasileira. Justamente por isso, sua transformação exige algo mais do que palavra de ordem. Exige correlação de forças, tempo político, base social, capacidade estatal e sustentação para atravessar transições instáveis. A política não desaparece porque a estrutura é dura; ela se torna mais difícil. E é nessa dificuldade que parte da crítica contemporânea à esquerda perde densidade. Ao converter mediação em rendição, produz um diagnóstico mais excitante do que útil.

Talvez seja esse um dos pontos em que o debate brasileiro mais precise amadurecer. A crítica estrutural do capitalismo segue necessária. O problema começa quando a insuficiência de uma experiência passa a funcionar como prova de sua identidade com o adversário, ou quando o fracasso de uma inflexão parcial passa a valer como demonstração de sua irrelevância. Às vezes, a verdade histórica está em outro lugar: justamente porque determinada experiência tocou, ainda que de leve, em interesses importantes, desencadeou reações que ajudam a revelar onde estavam os conflitos reais.

Nesse sentido, a crise do período Dilma talvez ensine mais sobre a força da direita do que sobre a suposta natureza intrinsecamente conciliadora do lulismo. Mesmo sem ruptura sistêmica, mesmo sem radicalização aberta, mesmo dentro dos limites estreitos de uma experiência institucional, a disputa por desenvolvimento, indústria, emprego qualificado e soberania produtiva já bastava para acionar mecanismos de defesa poderosos do bloco dominante. Isso deveria introduzir mais cautela em explicações rápidas demais sobre a gênese da extrema direita.

Porque a pergunta central não diz respeito apenas aos limites do lulismo. Ela diz respeito, também, à violência da reação que se organizou quando uma experiência de centro-esquerda tentou ir além do tolerável para as frações dominantes. Sem enfrentar esse ponto, a crítica ao reformismo corre o risco de se tornar uma forma elegante de subestimar a direita e de absolver, involuntariamente, os sujeitos concretos da contraofensiva.

É por isso que insisto: a ascensão da extrema direita não se explica adequadamente quando reduzida aos limites do lulismo. Ela precisa ser lida como resultado de uma derrota histórica mais ampla, produzida pela convergência entre crise econômica, reorganização estrutural do capitalismo, ofensiva ativa das classes dominantes e incapacidade geral da esquerda em formular resposta à altura do período. O lulismo participa dessa história, claro. Mas participa como experiência contraditória de transformação parcial que, ao esbarrar em seus próprios limites e na violência das reações que provocou, acabou derrotada num terreno muito mais amplo do que aquele que seus críticos mais apressados costumam admitir.

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