Cem anos da Questão Meridional, de Gramsci

por Theófilo Rodrigues e Rita Matos Coitinho, no blog da Boitempo

O ano de 2026 marca o centenário de um clássico da literatura marxista. Trata-se de “Alguns temas da questão meridional”, artigo redigido por Antonio Gramsci entre setembro e outubro de 1926, pouco antes de sua prisão pelo regime fascista de Mussolini em 8 de novembro daquele ano. O texto foi escrito em um contexto de ascensão do fascismo e refluxo das lutas operárias italianas, quando o dirigente comunista buscava compreender os limites históricos da unificação nacional e as dificuldades para a construção de uma hegemonia revolucionária na Itália.

Na reflexão de Gramsci, a questão meridional diz respeito ao problema histórico da desigualdade entre o norte industrializado e o sul agrário da Itália, marcado pela concentração fundiária, pela pobreza camponesa e pela dominação política das elites locais. Para Gramsci, essa divisão não era apenas econômica, mas também política e cultural, pois o Estado italiano havia unificado o país sem integrar democraticamente as massas camponesas do Mezzogiorno. Por isso, a superação dessa fratura exigiria uma aliança entre operários do norte e camponeses do sul capaz de construir uma nova hegemonia nacional-popular, rompendo tanto com o poder dos grandes proprietários rurais quanto com a subordinação passiva das massas ao bloco dominante1.

O artigo de Gramsci é de grande fineza sociológica. Inserido nos debates de seu tempo, em busca de uma solução socialista para a Itália, ele procurava compreender as particularidades da formação social que distinguiam seu país de outras nações. Com efeito, tratava-se de algo que seu antecessor, Lênin, já havia feito com o mesmo rigor ao estudar a Rússia. As obras Quem são os “amigos do Povo”?O desenvolvimento do capitalismo na Rússia e O programa agrário da Social-Democracia na Primeira Revolução Russa de 1905-1907 são exemplos desse tipo de leitura sociológica que parte das categorias gerais do modo de produção para alcançar a concretude histórica das formações sociais. De certo modo, muitos dos temas desenvolvidos posteriormente nos Cadernos do cárcere – como hegemonia, bloco histórico e nacional-popular – encontram na Questão Meridional formulações concretas que resultam de um exercício de tradução (traducibilitá) dos conceitos e experiências da Revolução Russa e do movimento comunista internacional para a realidade italiana. Como apontou Gianni Fresu2, na obra de Gramsci a “concretude da formação social sarda”, cuja consciência remonta às “experiências de vida e observação cuidadosa do seu mundo”, a Sardenha, foi posteriormente reencontrada e reformulada sob a lente do dirigente político marxista que veio a se constituir a partir das experiências com o movimento socialista no Norte, em Turim. Nos textos escritos para o jornal L’Ordine Nuovo e, depois, nos estudos carcerários, os temas da vida na Sardenha ganharam novos contornos, inseridos em uma concepção histórico-social mais abrangente, e passaram a integrar a estratégia de luta pelo socialismo na Itália.

A Questão Meridional já revela a dimensão espacial do pensamento gramsciano. Como notou Edward Said, Gramsci deu um enfoque prioritário aos fundamentos territoriais, espaciais e geográficos da vida social. Conforme o pensador palestino, em “Gramsci, como imediatamente revela um exame mesmo que superficial de seu vocabulário conceitual, a história social e a realidade são captadas em termos geográficos – predominam palavras como ‘terreno’, ‘território’, ‘bloqueios’, ‘região’”3. Esses temas, que perpassam um grande número de artigos escritos para o jornal L’Ordine Nuovo, e que ganham consistência nos escritos carcerários, já aparecem de forma madura no texto de 1926.

Alguns temas da Questão Meridional tiveram boa recepção no Brasil, pois aqui manifestava-se uma questão social semelhante, porém com a localização invertida. Assim como o Mezzogiorno (Sul) italiano, o Nordeste brasileiro foi frequentemente incorporado ao desenvolvimento nacional de forma dependente e desigual. Ou seja, a chave de nosso enigma não seria a questão meridional, mas sim a questão setentrional. Já em 1966, na revista Civilização Brasileira, Otto Maria Carpeaux percebeu que “aquilo que na Itália é o Sul, isto é, exatamente, no Brasil o Nordeste”4.

Mais recentemente, tanto Lincoln Secco quanto André Singer partiram do tema gramsciano para entender a prática política do PT e de Lula nas últimas décadas. Em sua História do PT, publicada em 2011, Secco intitula como “Questão meridional” um dos subcapítulos em que descreve como no Brasil a região mais rica do país impõe um obstáculo à plena hegemonia da esquerda5. Mas foi André Singer quem, em 2012, desenvolveu melhor o tema em Os sentidos do lulismo. Um indicativo dessa leitura gramsciana de Singer já aparece no subtítulo de sua Introdução: “Alguns temas da questão setentrional”. Singer argumenta que o lulismo consolidou uma nova base social de apoio entre o subproletariado, especialmente no Nordeste – região historicamente mais pobre do país –, que passou a apoiar eleitoralmente Lula em razão das políticas de inclusão social e de redução da pobreza implementadas a partir dos anos 20006.

Quanto à dimensão geográfica do texto de Gramsci, ela é enfatizada por Marcos Aurélio da Silva no artigo “Dialética e geografia em Antonio Gramsci”, de 2013, e no recém-publicado Formação social, território, espaço: uma leitura gramsciana7. Também Érika Amuskivar, em Gramsci e a geopolítica8, joga luz sobre as categorias eminentemente geográficas presentes nos Cadernos do cárcere, mas que já se encontravam no texto sobre a questão meridional de 1926. Na visão de Amuskivar, Gramsci estaria influenciado pelo texto de Trótski acerca do desenvolvimento desigual e combinado. Já para Marcos Aurélio da Silva, o tema do Mezzogiorno aparece na obra de Gramsci a partir daquilo que também apontou Fresu: como desenvolvimentos próprios de um pensador que se deparava com uma realidade que se desenvolvia em um contexto periférico, ainda que em solo europeu. Desse modo, os temas decorrentes dos próprios debates internos teriam levado à operação de “tradução” da realidade que procurava transformar. Desse modo, em Gramsci, “a dimensão internacional de sua noção de territorialidade não é outra coisa senão a da luta anticolonial e anti-imperialista, forma com que se apresenta o movimento da totalidade histórica século XX adentro”9.

O que se percebe é que, cem anos depois, a Questão Meridional permanece atual não apenas como interpretação da Itália, mas como chave analítica para compreender as desigualdades regionais, os dilemas da construção nacional e as formas contemporâneas de hegemonia política nas periferias do capitalismo.

Notas

  1. Ver mais na apresentação redigida por Marcos del Roio para GRAMSCI, Antonio. Vozes da terra. Tradução: Rita Coitinho e Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Boitempo, 2023. 
  2. FRESU, Gianni. Antonio Gramsci, o homem filósofo. Tradução: Rita Coitinho. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 216. 
  3. SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 99. 
  4. CARPEAUX, Otto Maria. A vida de Gramsci. Revista Civilização Brasileira, 7 maio 1966. Disponível aqui
  5. SECCO, Lincoln. História do PT. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2011. 
  6. SINGER, André. Os sentidos do lulismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 
  7. SILVA, Marcos Aurélio da. Dialética e geografia em Antonio Gramsci. Lutas Sociais, São Paulo, vol.17 n.31, p.21-32, jul./dez. 2013 e SILVA, Marcos Aurélio da. Formação social, território, espaço. Uma leitura gramsciana. Florianópolis: Insular, 2025. 
  8. AMUSKIVAR, Érika. Gramsci e a geopolítica: um debate sobre poder e território. Jundiaí-SP: Paco Editorial, 2021. 
  9. SILVA, Marcos Aurélio da. Dialética e geografia em Antonio Gramsci, cit., p. 30. 

***

Theófilo Rodrigues é professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política do Iuperj UCAM. 

Rita Matos Coitinho é socióloga, doutora em Geografia Humana pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia na Universidade Federal de Santa Catarina, escritora e tradutora. Para a Boitempo, traduziu Homens ou máquinas?Vozes da terra e Os líderes e as massas, de Antonio Gramsci; Antonio Gramsci, o homem filosófo, de Gianni Fresu; e O arcano da reprodução, de Leopoldina Fortunati.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 × um =