Por Carlos Henrique Silva (Comunicação CPT Nacional), com edição e colaboração da CPT Rondônia
“Não vou sair do campo pra poder ir pra a escola
Educação do Campo é direito e não esmola”
O segundo dia do 6º Encontro da Rede dos Povos e Comunidades Tradicionais de Rondônia (05 de junho), na Comunidade Quilombola de Santo Antônio do Guaporé, começou ainda com as energias do dia anterior, um dia que respirou ancestralidade e terminou com uma noite de celebração mística em memória e reverência pelo encantamento do jovem e liderança indígena Gelimar Puruborá, de 29 anos.
A partida de Gelimar para junto de seus ancestrais, ocorrida no dia 28 de maio, ainda trazia comoção pelo seu ativismo intenso na defesa dos direitos indígenas, incluindo as pautas da juventude e da educação popular.
A Educação do Campo e no Campo foi uma pauta bastante levantada pelas comunidades, como fundamental para o resgate da cultura e a permanência da juventude junto às lutas das famílias.
“As mães e os pais têm que ir com as crianças para a rua, e o território acaba esvaziando. Vão embora para a cidade os extrativistas, os indígenas, os pequenos agricultores. E a Reserva, vai ficar vazia? É da terra onde tiramos o nosso alimento e o nosso sustento. Com a luta no Ministério Público, eu vi a importância dessa rede, e a escola Irmã Maria Celeste não vai fechar. Como seria bom a gente viver em união, porque assim o latifúndio jamais vai nos humilhar”, afirmou Dona Vera, da Resex Rio Ouro Preto, destacando que a educação tem sido negligenciada no território, principalmente após o 5º ano (antiga 4ª série).
Maria Eva Canoé, liderança e conselheira indígena do povo Oro Wari, em Guajará-Mirim, é um exemplo de resistência enquanto professora, na luta pela educação indígena presente nas aldeias: “Nossas escolas ainda não estão do jeito que nós queremos e do jeito que nós lutamos. Precisamos de professoras e professores indígenas, para resgatar nossa cultura e fortalecer uma luta consciente. Educação é tudo, e deve ser trabalhada junto com a cultura e o território, que é nosso, mas ainda não está na posse e na liberdade dos nossos parentes quilombolas”, destacou Eva, que também é membro da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB).
Plantando conhecimento e cultivando justiça: o curso superior em Educação do Campo
O momento também contou com a presença do professor Dr. Fernando Bilhalva e da professora Dra. Tatiane Souza, que coordenam o curso de Licenciatura em Educação do Campo, ofertado pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) no campus de Rolim de Moura. O curso forma professores e professoras para atuarem nas escolas do campo e valoriza os conhecimentos, as culturas e os modos de vida das comunidades rurais. Plantando conhecimento e cultivando justiça, o curso chama a atenção de que a Educação do Campo é resistência e transformação.
A seleção é feita com base nas notas obtidas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e no Histórico Escolar do Ensino Médio. No segundo semestre letivo de 2026, são ofertadas 60 vagas. As inscrições com base nas notas do Enem já aconteceram entre os dias 12 e 15 de junho, e as demais, com as notas do Ensino Médio, acontecem de 17 a 30 de junho.
O curso dá preferência a pessoas jovens e adultas de comunidades rurais, professoras e professores que atuam em escolas do campo, de comunidades assentadas e acampadas da reforma agrária, ribeirinhas, agricultoras familiares, quilombolas, indígenas, seringueiras, pescadoras e demais trabalhadoras e trabalhadores do campo. O diploma garante a Licenciatura em Educação do Campo, com habilitação em Ciências da Natureza ou em Ciências Humanas.
Clique aqui para acessar a página do edital na íntegra e seus anexos.
A vivência na Educação do Campo trouxe várias pessoas para o centro da roda, compartilhando suas experiências tanto no nível fundamental, médio e superior, como é o caso de dona Ivanilde, da Reserva extrativista Aquariquara. A história da luta pelo acesso à educação é ainda mais desigual nas comunidades do campo, tanto pelo trabalho infantil, quando crianças e adolescentes saíram da escola para contribuírem com a renda da família, quanto pelo machismo, que já impediu muitas mulheres de completar os estudos, por entender a limitação delas ao âmbito doméstico, sem uma perspectiva de libertação e autonomia.
“Quando se fala em Educação, eu fico sempre muito emocionado, porque eu não tive a oportunidade de estudar e seguir em frente nos estudos. Mas eu fico sempre animado pra aumentar meus conhecimentos, e vou pedindo ajuda às outras pessoas. Agora eu tô ‘quebrando a cabeça’ com o Direito, com as leis que envolvem a população do campo, a terra e todos esses assuntos”, afirmou José Amaral, indígena do Povo Kujubim.
Vestimenta de caboclo é samambaia
É samambaia, é samambaia…
Fazendo reverência aos orixás e caboclos das matas, com destaque para Oxóssi, representantes dos povos e comunidades de terreiro relembraram o seu próprio fortalecimento enquanto incluído entre as comunidades do campo e povos tradicionais. A relação com as forças da natureza se reflete na preservação das águas, do ar e da terra enquanto lugares sagrados, e da forte relação com as energias e elementos da floresta, em suas raízes, folhas, sementes e sabedorias.
Dentre as representações, estava presente Íris Fidélis, cambona do Centro Umbandista Raimundo Légua, da Associação Centro Social Assistencial e Cultural Afro Brasileiro (ACESACAB), em Porto Velho. É assim que a juventude, acompanhada pelas mais velhas e mais velhos, passa a assumir a responsabilidade com a cultura. E aí acontece o milagre da rede: compartilhando as dores, alegrias, a contribuição do conhecimento.
Elivar Karitiana compartilhou os desafios da convivência enquanto povo indígena inserido no contexto urbano de Porto Velho, e destacou a importância do conhecimento que passa de geração em geração: “A gente costuma dizer um ditado de que ‘antes de chegar na sua casa e aldeia, você pode se afogar’, ou seja, se nós não cuidarmos da nossa cultura, dos nossos, podemos morrer. Um exemplo é o que enfrentamos de ameaças nos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo. E por isso, a importância de dar ouvidos aos mais velhos, como meu tio e meu sogro, que são meus espelhos, me inserindo na luta, ensinando as músicas”, relembrou Elivar.
Falando da cura através da natureza, a agente Rosa, da Pastoral da Saúde em São Francisco do Guaporé, destacou a importância de votar contra o PL 2386/2023, que está tramitando na Câmara dos Deputados. Ele ameaça o tratamento natural e a atuação de terapeutas não médicos em cuidados com a saúde mental. “São as sabedorias e conhecimentos ancestrais da natureza, que não podem ser rejeitados como apoio a doenças como ansiedade, depressão, pânico e tantos outros males que assolam a sociedade atualmente”, destacou a agente pastoral.
Segue o link para a votação (é necessário fazer login na conta gov.br): https://www.camara.leg.br/enquetes/2360536.
“Pneu de bicicleta não é de requeijão
Não é carne de gado, pneu de caminhão
Não é chifre de vaca que se apaga letra, não!
São produtos da borracha, feitos pela nossa mão.
Vamos dar valor ao seringueiro
Vamos dar valor a esta nação
Pois é com o trabalho desse povo
Que se faz pneu de carro e pneu de avião.”
(Trecho do Hino do Seringueiro)
Os povos e as comunidades presentes também participaram de análises de conjuntura sobre os grandes projetos que já impactam no presente e impactarão os territórios no futuro. Esta análise contou com o apoio de Gerry Carpanini, do GT Infra (falando sobre os empreendimentos de ferrovias, hidrovias e rodovias na Amazônia); Verena Glass, da Fundação Rosa Luxemburgo (mostrando os projetos de créditos de carbono) e Amanda Michalski, da CPT Rondônia (mostrando os conflitos e violências trazidas pelo avanço do agronegócio na chamada AMACRO – fronteira agrícola entre os estados do Amazonas, Acre e Rondônia).
“Atualmente, tem 700 mil hectares de soja em Rondônia, com a meta de chegar a 5 milhões de hectares de terra plantada. Sabemos que junto da soja, vem o gado abrindo pasto, os agrotóxicos, venenos etc”, lembrou Gerry.
“Eu pertenço ao território, o território me pertence, e essa ligação com o território é própria das comunidades tradicionais (indígenas, quilombolas, seringueiros etc.), e por isso vocês estão abrangidos pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que demanda o direito à consulta livre, prévia e informada por parte dos territórios, em qualquer empreendimento que possa afetar a vida das comunidades”, afirmou Verena Glass, comentando a ilusão dos projetos de crédito de carbono (REDD), que afirmam compensar os danos ao meio ambiente causados pelas grandes indústrias, queima de combustíveis fósseis e demais empreendimentos capitalistas.
Uma das principais estratégias de proteção das comunidades são os Protocolos de Consulta, um documento construído e aprovado coletivamente, e que determina de que forma as consultas devem ser realizadas, em qualquer empreendimento que possa trazer impacto ao território.
A opinião foi reforçada por Silvania Manu Cespedes, missionária e assessora do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em Rondônia: “Se a minha mãe é sagrada, por que eu vou vender a minha mãe? Quando os povos se apropriam do que é terra e território, não tem poder que consiga nos vencer.”
“Eu falei pra os representantes das empresas que foram lá na comunidade, prometendo ‘nos ajudar’ com projetos de crédito de carbono: ‘Se vocês puderem nos ajudar, tem uma solução: é só retirar os fazendeiros que estão ao redor de nós, devastando a natureza.’ E logo foram embora. O mais difícil é que eles cooptam até parentes nossos nos projetos”, afirmou a cacica Hosana Puruborá.
Já a representante da comunidade de Versalles (departamento de Beni, Bolívia), Lola Salvatierra destacou a resistência da comunidade ribeirinha: “Lá temos projetos de ecoturismo, recuperação de espécies, recursos naturais, artesanato, e principalmente a força das mulheres para superar a violência e o machismo, aumentando a presença na tomada de decisão. Nós é que estamos de frente na resistência no território”.
A notícia da perspectiva de exploração de petróleo na bacia do Rio Iténez (como é chamado o Guaporé, no lado da Bolívia), trouxe a preocupação da certeza do impacto de todas as comunidades da região. “Sem água, a gente não tem planta, não tem bicho, não tem nada”, destacou uma das lideranças presentes.
“Para o povo Oro Wari, o paraíso é o fundo do rio, e por isso o rio precisa ser cuidado, preservado. Por isso, conseguimos a aprovação de uma lei municipal, aprovada na Câmara, que reconhece o Rio Laje como sujeito de direitos”, afirmou a liderança Eva Canoé, ainda em luto da perda do filho, Orowao Canoé, de 35 anos, falecido em janeiro de 2021, vítima de complicações da Covid, devido às negligências do Estado brasileiro.
Terra, meu corpo
Água, meu sangue
Ar, meu sopro
Fogo, meu espírito
Diante das ameaças e dos sofrimentos vivenciados e compartilhados, um dos gritos também foi pela necessidade de as comunidades escolherem bem em quem votar, e da consciência de que o voto não está à venda. No estado de Rondônia, com 8 deputados federais e 24 estaduais, praticamente não há representante dos povos e das comunidades tradicionais que consiga representar suas lutas e tenha força para enfrentar os avanços do capital e do agronegócio.
“O mundo que Wabay criou para nós é muito lindo, pra os seus filhos, e isto não tem preço. Nós temos tudo que precisamos, o mercado e a farmácia dentro da floresta”, relembrou Mario Puruborá. Em meio a tantos projetos que podem atrair as comunidades pelo dinheiro, fica a lição de que o importante é a sobrevivência natural dos povos da floresta.




