Formação marca início da segunda fase da pesquisa-ação Agroecologia, Território e Justiça Climática

Por Angélica Almeida – Agenda de Saúde e Agroecologia, VPAAPS/Fiocruz

Como as mudanças climáticas estão sendo percebidas e enfrentadas nos diferentes territórios brasileiros? Esta é uma pergunta central da pesquisa-ação Agroecologia, Território e Justiça Climática, conduzida pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), em parceria com a Fiocruz e outras organizações.

A primeira fase da pesquisa identificou mais de 500 iniciativas de adaptação, mitigação e resiliência às mudanças climáticas, por meio de um mapeamento virtual realizado de abril a junho de 2025. A segunda fase do estudo consiste na análise da trajetória histórica de cinco comunidades, a fim de qualificar informações sobre experiências locais de enfrentamento à crise ecológica global.Para iniciar a segunda fase, a equipe do estudo realizou uma formação no Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM), em Viçosa (MG), entre os dias 10 e 12 de junho. Na ocasião, pesquisadoras e pesquisadores aplicaram com a comunidade do Córrego São Joaquim, em Araponga, e com a comunidade de Belisário, em Muriaé, parte do método de Análise Econômico-Ecológica de Agroecossistemas (LUME).

Uma das coordenadoras do estudo, a pesquisadora da Agenda de Saúde e Agroecologia da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz) Helena Lopes afirma que a vivência foi fundamental para o aprofundamento, aplicação e avaliação da metodologia.  

“Por princípio, a pesquisa-ação tem que acontecer no território, em conexão com as  pessoas que vivem ali e que estão constantemente produzindo conhecimento”, explica.  A reflexão coletiva é a base para construir uma metodologia única e, ao mesmo tempo, capaz de se adaptar às singularidades de cada lugar, “porque as experiências são muitas e diferentes nos territórios, mas elas também apontam para um caminho que é comum, de construção da agroecologia, de enfrentamento das desigualdades, de promoção da justiça climática”, afirma Helena.

Paulo Petersen, diretor executivo da AS-PTA e um dos formadores do método LUME, também afirmou a importância da construção coletiva de conhecimentos, compreendendo que a ciência é sempre incompleta e provisória. “O melhor olhar é a complementação dos olhares e dos saberes. Você vai ver melhor a realidade quando tem mais gente olhando, de diferentes lugares e de diferentes culturas”, disse.

Após a validação metodológica, a equipe de pesquisa das cinco regiões do Brasil fará a aplicação nas seguintes comunidades: Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, em Santarém (PA); Terra Indígena Cachoeirinha (MS); Kilombo Monjolo, em São Lourenço do Sul (RS); e em comunidades da Região Metropolitana do Recife (PE) e da Zona da Mata mineira.

Memória coletiva das comunidades como ponto de partida

Por meio de entrevistas semiestruturadas, a pesquisa busca construir memórias coletivas para perceber como as práticas de agroecologia criam condições para adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. A partir do relato das pessoas participantes, as informações são organizadas em três períodos temporais (até 1999, de 2000 a 2015 e de 2016 a 2026) e em sete categorias de análise (estrutura agrária, atividades econômicas agrícolas, condições ambientais, organização social e ação em rede, mercados e beneficiamento, políticas públicas e ameaças e conflitos).

Segundo Helena, ao reconstruir as memórias comunitárias, é possível localizar as mudanças climáticas não somente como um problema atmosférico, mas como parte da produção de desigualdades da sociedade. Essa perspectiva permite identificar os fatores humanos que intensificam as mudanças climáticas na escala das comunidades e, também, as iniciativas locais que mantêm vivos os territórios.

“Permite entender como as mudanças climáticas são produzidas num país que tem uma distribuição agrária tão desigual, com a dificuldade de acesso à terra e ao território, e o domínio dessa estrutura agrária pelo sistema alimentar corporativo que aprofunda a crise climática”, exemplifica a pesquisadora.

Na Zona da Mata mineira, uma das lutas coletivas destacadas foi o enfrentamento aos megaprojetos de mineração que tentam se implantar na região já marcada pela perda de matas nativas para o estabelecimento de pastos e monoculturas. A mudança no regime das chuvas é percebida pela comunidade de Belisário como um dos efeitos das mudanças climáticas, o que afeta, por exemplo, a diminuição do plantio de arroz.

A agricultora Lourdes Calais contou que, há mais de 20 anos, trabalha para o reflorestamento e recuperação de nascentes no sítio da família. “Se não tivesse feito o trabalho de reflorestamento, hoje não tinha água nem para beber”, afirmou. Olhando para a realidade da comunidade, ela diz que dá tristeza ver as paisagens na época da seca e que, antes, chovia o mês todo na época das águas. “Hoje, a gente não vê isso mais. Quando chove, em poucas horas a quantidade de água que desce está muito descontrolada”, disse.  

Os relatos das cinco comunidades estudadas serão analisados pela equipe de pesquisa que, na sequência, fará a devolutiva dos dados para as comunidades. A proposta é que o estudo contribua para a visibilidade ampliada e para o fortalecimento das ações locais de enfrentamento às mudanças climáticas, bem como para a incidência em políticas públicas. 

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