O contrário do orgulho é a vergonha. Por Ângelo Oliveira*

Existe uma pergunta que reaparece todos os anos, sempre na proximidade do Dia do Orgulho LGBT+: por que orgulho?

À primeira vista, trata-se de uma curiosidade legítima. Afinal, em muitas tradições morais, orgulho é sinônimo de soberba, vaidade ou excesso de amor-próprio. A própria cultura ocidental foi educada a desconfiar dele. Entre os antigos, a hybris[1] era condenada porque rompia os limites da condição humana; na tradição cristã, a soberba foi elevada à categoria de pecado capital por colocar o indivíduo acima dos demais.

Talvez seja justamente essa herança que torne difícil compreender o sentido político do orgulho LGBT+. O termo permaneceu o mesmo, mas seu significado mudou completamente. O orgulho de que falamos não é a exaltação de si. É a reconstrução de si. Ele não nasce do desejo de superioridade, mas da necessidade de reparar uma humanidade sistematicamente ferida.

Toda sociedade produz narrativas sobre quem pertence plenamente ao mundo e sobre quem deve ocupá-lo apenas sob determinadas condições. Essas narrativas parecem naturais porque são repetidas pela família, pela religião, pela escola, pela mídia, pela linguagem cotidiana e pelas instituições. Com o tempo, deixam de ser percebidas como interpretações da realidade e passam a funcionar como se fossem a própria realidade. É nesse ponto que a violência alcança sua forma mais sofisticada. A violência não consiste apenas em impedir corpos de circular. Ela consiste em organizar consciências.

Uma sociedade torna-se verdadeiramente eficiente na produção da desigualdade quando consegue convencer determinadas pessoas de que elas próprias representam um problema. A partir daí, já não é necessário vigiá-las continuamente. Elas passam a vigiar a si mesmas. Administram seus gestos, censuram seus afetos, moderam sua presença, silenciam sua própria história.

O poder encontra sua expressão máxima quando consegue transformar o olhar do outro em autocensura. Por isso, talvez a vergonha seja uma das tecnologias políticas mais eficazes já inventadas. Ela não aprisiona por meio de grades, mas por meio da imaginação. Ela limita aquilo que alguém acredita poder desejar, amar, construir ou sonhar. A vergonha produz uma espécie de empobrecimento existencial. Ela reduz o horizonte do possível.

Quem cresce ouvindo que seu amor é inadequado aprende, pouco a pouco, a negociar consigo mesmo. Primeiro esconde palavras. Depois esconde gestos. Em seguida esconde vínculos. Não demora para esconder projetos, talentos e até futuros inteiros. O resultado dessa longa pedagogia não é apenas sofrimento psicológico. É uma perda social imensurável.

Quantas obras deixaram de ser escritas? Quantas pesquisas nunca foram realizadas? Quantos professores abandonaram a sala de aula? Quantos artistas desistiram de criar? Quantos cientistas gastaram a energia que poderia transformar o mundo apenas tentando sobreviver ao peso da própria vergonha?

Toda forma de opressão representa também um desperdício de humanidade. Talvez por isso o orgulho não possa ser compreendido apenas como uma resposta emocional à discriminação. Ele é um acontecimento ético. Sua função não é inflar o ego, mas devolver ao sujeito a possibilidade de existir como autor da própria narrativa. Existe uma diferença profunda entre viver e habitar a própria existência.

Muitas pessoas LGBT aprenderam, desde muito cedo, a viver interpretando uma versão aceitável de si mesmas. A vida transformou-se em performance permanente, em cálculo constante sobre quais palavras poderiam ser ditas, quais afetos poderiam aparecer, quais espaços seriam seguros.

Mas ninguém floresce enquanto representa um personagem para garantir sua sobrevivência. O orgulho rompe exatamente esse mecanismo. Ele inaugura outra relação consigo mesmo. Não se trata de convencer o mundo de que somos extraordinários. Trata-se de deixar de acreditar que somos defeituosos. Essa mudança parece pequena, mas altera radicalmente a forma como alguém ocupa o mundo. A autoestima não é apenas um sentimento privado. Ela possui consequências públicas.

O orgulho não modifica apenas a imagem que alguém faz de si. Ele transforma as mediações por meio das quais o sujeito se relaciona consigo mesmo e com o mundo. Quem deixa de olhar para si através da lente da vergonha reorganiza também sua relação com o desejo, com o tempo, com o trabalho, com o amor e com a política. Não muda apenas a narrativa interior; amplia-se também o horizonte do possível. E é sempre no horizonte do possível que a liberdade começa a existir.

Quem acredita possuir dignidade reivindica direitos com maior firmeza, participa mais intensamente da vida democrática, estabelece vínculos menos atravessados pelo medo, produz conhecimento com maior liberdade, educa filhos sem reproduzir violências e amplia o repertório de possibilidades oferecidas às novas gerações.

A dignidade possui efeitos sociais. É por isso que a luta pelo reconhecimento nunca foi uma pauta exclusivamente identitária. Ela diz respeito ao próprio conceito de democracia. Uma democracia não se mede apenas pela existência de eleições livres ou pela igualdade formal prevista na Constituição. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de reconhecer igualmente a humanidade daqueles que a compõem.

O filósofo Paul Ricoeur observava que a identidade humana nunca se constrói no isolamento. Tornamo-nos quem somos também pelo reconhecimento que recebemos dos outros. Não existimos apenas biologicamente; existimos simbolicamente. Quando esse reconhecimento é negado, não se produz apenas exclusão social. Produz-se uma espécie de mutilação da experiência humana.

É precisamente contra essa mutilação que o orgulho se ergue. Ele afirma que nenhuma pessoa deve precisar pedir desculpas para existir. Isso explica por que o orgulho possui também uma dimensão coletiva. Ninguém recupera sozinho uma dignidade que foi socialmente atacada.

As paradas, os movimentos sociais, a arte, a literatura, a produção acadêmica, as redes de apoio e os espaços de convivência cumprem uma função que vai muito além da celebração. Eles reorganizam simbolicamente aquilo que a violência tentou fragmentar. Ali onde antes havia isolamento, constroem pertencimento. Ali onde havia silêncio, produzem linguagem. Ali onde havia culpa, produzem memória. Ali onde havia medo, devolvem futuro.

Talvez essa seja a maior potência política do orgulho: ele transforma indivíduos dispersos em uma comunidade capaz de produzir novos significados sobre si mesma. Não elimina a violência. Mas impede que ela seja a última palavra. Há quem imagine que o Dia do Orgulho deixará de ser necessário quando desaparecerem as paradas, as bandeiras ou as celebrações públicas.

Penso diferente. Ele deixará de ser necessário quando nenhuma criança aprender que existe algo de vergonhoso em sua maneira de amar; quando nenhuma família transformar afeto em condição; quando nenhuma escola ensinar, ainda que pelo silêncio, que algumas existências são menos legítimas do que outras; quando ninguém precisar medir palavras, esconder fotografias, alterar gestos ou inventar personagens para preservar a própria segurança.

Nesse dia, talvez nem falemos mais em orgulho. Porque a dignidade terá deixado de ser uma conquista para tornar-se uma evidência. E quando a dignidade deixa de precisar ser reivindicada, ela finalmente passa a ser compartilhada. Nesse sentido, o contrário do orgulho nunca foi a humildade. Sempre foi a vergonha. E nenhuma sociedade que ensine seus filhos a terem vergonha de existir poderá dizer que aprendeu, de fato, o significado da dignidade humana.

*Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará-IFCE – Campus Quixadá


[1] Hybris é um conceito da filosofia grega que designa a desmedida, a arrogância ou o excesso que leva o indivíduo a ultrapassar os limites da condição humana, sendo tradicionalmente associado à soberba.

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