As linhas de sangue que cortam a Palestina

Livro mostra o terror das políticas expansionistas de Israel combinadas ao ódio étnico. Em arte e texto, desvela o “fascismo com fascismo se paga” do sionismo sob salvaguarda da Europa – e a dor, revolta e esperanças por trás da crueldade sistemática e espetacularizada

Por Yuri Martins-Fontes*, em Outras Palavras

O livro do artista, historiador da arte e militante brasileiro Marcelo Guimarães Lima – em português, Palestina: tragédia e esperança no século XXIi– é uma edição cuidadosa que conjuga reflexão crítica e expressão artística para enfrentar o maior drama humanitário do século: o genocídio continuado do povo palestino por Israel, massacre que tem apoio político e militar dos Estados Unidos e da União Europeia, além de contar com a aprovação massiva da população judaica-israelenseii.

Publicada primeiramente em inglês, a obra situa a brutalidade cometida contra Gaza como o evento emblemático de uma crise civilizacional mais ampla, herdada do século XX, cujos sintomas se observam na agressividade do neoliberalismo, na regressão cognitiva que permite a ascensão da extrema-direita, na falência dos valores humanistas que, em tese, deveriam reger a chamada comunidade internacional.

Por meio de sua arte contundente, vibrante, Marcelo vai direto ao cerne da incongruência histórica que atravessa o sionismo: o Estado de Israel, resguardado pela culpa histórica dos europeus – e pelas armas cedidas pelas grandes potências ocidentais para dirimir tal culpa –, reproduz na atualidade, contra um povo desarmado e sem Estado, os mesmos mecanismos de desumanização, cerceamento, fome e extermínio em massa que marcaram a tragédia de seus antepassados.

Os resultados desta inversão trágica – do sofrimento à opressão – são o fio ético e estético que percorre o livro. Entre os desenhos, nos quais o vermelho da revolta, do sangue, é bastante presente, vemos cadáveres caídos reduzidos à mera contabilidade; a face de dor de crianças feridas, seus gritos, lágrimas. Nos olhos fechados dos enfermos, ou mortos, na venda do torturado, na solidão da mulher entre escombros, sentimos um átimo quiçá do desespero deste povo esquecido pelos direitos humanos. Há também os retratos da paisagem, que no tom ocre ou cinzento da terra arrasada, com traços desalinhados, ligeiros, rudes, remetem à impressão caótica das ruínas em que foi convertida Gaza, sugerindo a desordem da destruição.

Combinando ensaio visual e textual, a obra apresenta uma série de criações artísticas que dialogam com a tradição da arte engajada – de Goya a Picasso, passando por Delacroix e Géricault – e com a série anterior do artista-autor, A imaginação do desastre, exposta em Dubai, nos Emirados Árabes, em 2012 (dedicada ao tsunami de Fukushima). Aqui, porém, o desastre é deliberadamente humano: uma “imaginação da barbárie” em que o terror de um genocídio paulatino, de um sofrimento divulgado ao mundo como espetáculo de violência midiática, é confrontado pela potência crítica da imagem, situada em algumas poucas palavras.

Neste quadro distópico, o termo esperança, do título, não cumpre somente um papel de alento, mas salienta a capacidade da arte e da memória histórica de transformar o martírio de um povo em uma bandeira contra a involução humana e a lógica depredadora que rege o capitalismo; de despertar, quem sabe, alguma resposta institucional que possa atenuar o atual contexto de opressão supremacista.

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Cenário emblemático do horror de que é capaz a sociedade do século XXI, a questão Palestina consiste em uma contradição ética e histórica extrema: um povo árabe, portanto semita, é maculado, expropriado e trucidado por seus – também semitas – primos judeus. E isto em nome de uma luta contra o antissemitismo forjado na própria Europa cristã, depois alimentado pela ambição imperialista em cujo caldo social ascendeu o fascismo. Sob o pretexto velado de que o sofrimento dos antepassados permite qualquer atrocidade presente – “fascismo com fascismo se paga” –, o regime israelense, há décadas pautado por um sionismo fanático mesclado ao supremacismo bíblico arcaico, mostra seu caráter supremacista, mal disfarçando suas políticas expansionistas e de ódio étnico que se articulam com interesses geopolíticos do imperialismo ocidental.

A despeito de numerosas resoluções da ONU contra o genocídio palestino, há meio século sistematicamente ignoradas, o holocausto palestino perpetuado em Gaza – esta imensa prisão a céu aberto – é uma irrefutável evidência da crueldade de que é capaz o capital. Contudo, o ápice da perversidade já não está apenas na quantidade recorde de homens, mulheres e crianças assassinadas, mas sobretudo na normalização desta crueldade sistemática e espetacularizada, sem vergonha sequer de se expor publicamente. É o que se vê nas cenas documentadas – difundidas inclusive na imprensa corporativa do “Ocidente aliado” – de jovens judeus-israelenses que, de colinas limítrofes ao território invadido, regozijam-se, de camarote, com o massacre dos irmãos vizinhos.

Afirmando a arte como território de resistência e humanidade, em Palestina, Marcelo Guimarães Lima resgata por meio da imagem a expressão de mártires e revolucionários, inscrevendo sua obra estética no esforço ético mais amplo de combater o apagamento da memória daqueles que lutam e resistem contra os tantos horrores que marcam a história humana contemporânea. Ante a brutalidade, afirma ele: “somos todos palestinos”. Um sensível reconhecimento de que o destino de Gaza é uma advertência acerca do futuro que pode nos esperar, se não rompermos com as estruturas que produzem e lucram com as guerras e genocídios.

Palestina: tragedy and hope in the 21st Century é uma obra em defesa da memória e da vida – um gesto de resistência estética e política. Um engajado testemunho de que a arte pode, e deve, ser um território de humanidade diante do horror produzido pelo ser humano contemporâneo.

Sobre o autor

Marcelo Guimarães Lima tem uma trajetória que atravessa a arte, a história e o engajamento político-militante. Nascido no Rio de Janeiro em 1952, Lima é artista plástico, historiador da arte, escritor e professor. Formou‑se em Filosofia pela Universidade de São Paulo e cursou Artes Plásticas e História da Arte na University of New Mexico (Estados Unidos). Lecionou em instituições como a University of Illinois (EUA), o Goddard College (EUA) e a American University in Dubai (Emirados Árabes), além de ter atuado como crítico de arte da revista New Art Examiner.

Sua produção artística integra coleções de museus e instituições como o Museu de Arte Contemporânea da USP, o Cabinet des Estampes (Paris), o Cabinet des Estampes (Genebra) e o Rutgers Center for Innovative Printmaking (EUA). É autor do livro Heterochronia and vanishing viewpoints: art chronicles and essays (Melbourne: Metasenta, 2012) e dirige o Núcleo de Artes do Centro de Estudos e Pesquisas Armando de Oliveira Souza.

Dentre seus trabalhos atuais, destaca-se seu protagonismo na concepção de arte e nas ilustrações do Dicionário marxismo na América, obra coletiva coordenada pelo Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da Universidade de São Paulo que resgata o legado histórico de cerca de uma centena de pensadores marxistas que militaram no continente americano desde o século XIX até os anos 1970. Seus retratos de personagens como José Carlos Mariátegui, Pagu, Aimé Césaire, Luiz Carlos Prestes, Caio Prado Júnior, Astrojildo Pereira e William Du Bois conferem ao verbete de cada pensador uma identidade visual que dialoga com a tradição do retrato político e com a memória visual do socialismo latino‑americano.

Marcelo é também editor de arte da Editorial Práxis Literária – pela qual ilustrou em cordéis a edição crítica do clássico folclórico de Graciliano Ramos, Histórias de Alexandre (Práxis Literária/Anita Garibaldi, 2024).

Sua atuação como desenhista e crítico político e de arte, com trabalhos de viés emancipatório, vinculados ao pensamento socialista, é uma característica que marca os caminhos de Marcelo Guimarães Lima, cuja concepção de arte como arma de testemunho e de intervenção histórica pode ser observada em sua nova obra Palestina.


Notas

i Informações sobre o livro podem ser encontradas na livraria virtual da editora Whimperbang Press, ou no portal da Editora Práxis Literária.

ii Conforme diversas pesquisas difundidas pela mídia internacional, entre elas uma realizada pela própria Universidade Hebraica, que mostra o crescimento da extrema-direita ultranacionalista na sociedade israelense, apontando que 64% dos cidadãos do país acreditam que “não existe nenhum inocente” em Gaza, apoiando o extermínio perpetrado pelo governo. A cifra já assombrosa, em se tratando de apoiadores do atual líder extremista, chega a quase 9 entre 10 israelenses!

*Filósofo, professor, escritor, editor; doutor em História Econômica (USP); coordenador do Núcleo Práxis-USP.

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