Não à utopia. Por Lúcio Flávio Pinto

Lúcio Flávio Pinto resgata história de quando foi consultado por técnicos do BNDES para falar sobre o Fundo Amazônia, há quase 20 anos, e como sua ideia foi ignorada. ‘Sugeri que, ao invés de distribuir o dinheiro do programa, pulverizando os recursos disponíveis, podiam definir um único alvo: a formação de cientistas para encarar os desafios amazônicos.’

Por Lúcio Flávio Pinto, da Amazônia Real

Não tenho certeza, mas acho que foi em 2008. Um grupo de técnicos do BNDES com atuação no meio ambiente veio me visitar em casa. Queria sugestões e opiniões sobre o Fundo Amazônia, que completa agora 18 anos de vida. Sugeri que, ao invés de distribuir o dinheiro do programa, pulverizando os recursos disponíveis, podiam definir um único alvo: a formação de cientistas para encarar os desafios amazônicos. Não como retaguarda a recolher a massa de pães, como na história de João e Maria, mas como personagens de vanguarda nas frentes de ocupação ainda em sua dinâmica irracional.

Dei a essas unidades o título de kibutz. Nada a ver com agricultura ou qualquer outra atividade produtiva de Israel. Os candidatos empenhados nessa filosofia poderiam ser recrutados no país e no exterior. Uma vez aprovados, ficariam em um campus para cursos de cinco ou seis a sete anos, contínuos, orientados pelos maiores e melhores nomes de cientistas das diversas áreas de ensino e pesquisa.

Só poderiam se retirar com o título de doutor, sem poder usar os créditos conseguidos. E só seriam aprovados do centro se alcançassem o título de doutor. Doutores formados nos kibutzim, espalhados pelos mais importantes centros e ecossistemas sociais da Amazônia. Junto com o diploma, receberiam um título de propriedade, com cláusula resolutiva no contrato, se cada projeto apresentado chegasse à sua aplicação correta, de uso coletivo (os campi seriam vizinhos dos núcleos humanos bem delimitados.

Essa correção derivaria do desempenho de cada um dos alunos que cumprissem o programa, fossem assíduos e exercessem um papel de renovação e disseminação do conhecimento. Os centros seriam implantados em locais que necessitassem do convívio com esses alunos e tirassem conhecimento prático dessa relação. Além de todo material didático, os alunos receberiam uma bolsa (imagino que em valor acima de R$ 15 mil), sem qualquer despesa.

Percebi o desencanto dos técnicos do BNDES. No livro publicado sobre o Fundo Amazônia, nem minha foto nem minhas observações foram incluídas. Talvez se eu apelasse para um modelo inteiramente estabelecido pela Folha de S. Paulo, na sua insólita apresentação desse método, eu teria mais sorte?

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