Uma análise de 60.000 registros de inundações, alagamentos, enchentes repentinas, deslizamentos de terra, tempestades e secas revela os impactos regionais no Brasil e pode orientar políticas públicas
Por Luciana Constantino | Agência FAPESP
Eventos climáticos extremos estão se tornando cada vez mais frequentes e severos. O El Niño previsto para 2026-2027 é um desses eventos. Esses fenômenos têm causado impactos ambientais, econômicos e sociais no Brasil, exigindo políticas públicas específicas. Para transformar dados científicos em base para o desenvolvimento de medidas de prevenção, adaptação e mitigação, um grupo de pesquisadores brasileiros analisou aproximadamente 60 mil registros de desastres hidrogeológicos no Brasil entre 1991 e 2024.
Eles descobriram que 91,5% dos 5.570 municípios relataram pelo menos um desastre relacionado a inundações, alagamentos, enchentes repentinas, deslizamentos de terra, tempestades ou secas durante esse período. Especificamente, 1.814 cidades sofreram pelo menos um incidente causado por três desses fatores, enquanto outras 270 cidades sofreram com todos eles. O Nordeste teve o maior número de cidades afetadas (1.765), seguido pelo Sudeste (1.405), Sul (1.152), Norte (433) e Centro-Oeste (342).
Os pesquisadores mapearam diversos impactos, incluindo mortes e perdas econômicas. O Sudeste registrou o maior número de mortes relacionadas a inundações, alagamentos, enchentes repentinas e deslizamentos de terra; o Sul, o maior número de mortes relacionadas a tempestades; e o Nordeste, o maior número de mortes relacionadas à seca. Inundações ocorrem quando um rio transborda. Alagamentos ocorrem quando o sistema de drenagem não consegue lidar com o volume de água. Enchentes repentinas são um tipo de inundação que ocorre quando uma grande quantidade de chuva cai em um curto período de tempo.
Ao analisar os danos por região, incluindo danos materiais diretos e consequências indiretas que afetam a economia e a resiliência local, inundações, alagamentos e enchentes repentinas tiveram o maior impacto no Sul. Deslizamentos de terra e secas afetaram mais o Nordeste, e tempestades afetaram mais o Sudeste.
Exemplos incluem São Sebastião, cidade no litoral norte do estado de São Paulo que ficou parcialmente isolada durante o Carnaval de 2023 devido a chuvas recordes, que causaram pelo menos 60 mortes e danos à infraestrutura, e a pior tragédia relacionada ao clima no Rio Grande do Sul. Em maio de 2024, tempestades afetaram 2,3 milhões de moradores em 471 municípios do estado, causando mais de 180 mortes.
O estudo, conduzido por cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta Precoce de Desastres Naturais (CEMADEN), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi publicado na edição de abril da Environmental Research Letters , uma revista que busca chamar a atenção de formuladores de políticas e da comunidade científica para questões socioambientais.
“Queríamos desmistificar a ideia de que um desastre é algo sobrenatural, que suas causas decorrem de forças desproporcionais. Existem exceções que os modelos climáticos não conseguem prever, mas, na maioria dos casos, agências nacionais como o CEMADEN emitem alertas e as autoridades públicas são informadas sobre o que pode acontecer. O problema reside na negligência, na falta de infraestrutura e até mesmo na inação. Decidimos denominá-los desastres socioambientais ou socioambientais porque existe um fator agravante antropogênico – não apenas relacionado às mudanças climáticas, mas também a falhas na gestão pública”, afirma Elton Vicente Escobar Silva , primeiro autor do estudo e pesquisador do CEMADEN que realizou esta pesquisa como parte de seu trabalho de pós-doutorado.
Silva destaca que o Brasil tem avançado nos últimos anos no desenvolvimento de bancos de dados e no fornecimento de informações que auxiliam na compreensão de desastres. No entanto, o país ainda enfrenta desafios na coleta de dados e nas estruturas institucionais para o monitoramento.
Desafios
Segundo os resultados, os 59.658 desastres naturais analisados resultaram em pelo menos 4.774 mortes e 3.031 desaparecidos, afetando mais de 129,79 milhões de pessoas. Estima-se que os prejuízos econômicos tenham ultrapassado US$ 123,89 bilhões.
No entanto, os pesquisadores alertam que esses números tendem a ser maiores do que os encontrados nos bancos de dados. Isso ocorre porque os resultados foram obtidos a partir de dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres ( S2iD ) e do Atlas Digital de Desastres no Brasil . Ambas as plataformas são de acesso público e gerenciadas pelo Departamento Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC).
Esses registros são autodeclarados pelos municípios e servem, entre outros propósitos, para buscar financiamento do governo federal quando as administrações locais e estaduais não têm capacidade para lidar e responder a eventos adversos que afetam o município. Em outras palavras, muitos casos podem ter resultado em perdas ou fatalidades não relatadas porque as administrações locais conseguiram gerenciar a situação por conta própria ou devido à falta de infraestrutura de registro.
Um levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima que aproximadamente 1.660 cidades no Brasil não possuem um departamento de defesa civil organizado. Além disso, um estudo publicado no ano passado mostrou que os departamentos de defesa civil precisam investir em profissionalização e em seus próprios recursos para lidar com os riscos climáticos ( saiba mais em agencia.fapesp.br/54705 ).
Em entrevista à Agência FAPESP , Silva aponta que a abordagem de coleta de dados utilizada por essas plataformas não considera os eventos simultaneamente, nem adota uma perspectiva de “multirrisco”. Por exemplo, se um deslizamento de terra foi causado por uma enchente, apenas a enchente seria registrada. Outro problema é a imprecisão no registro das causas de óbitos durante desastres.
A plataforma S2iD disponibiliza dados apenas a partir de 2013, com sua base de dados se expandindo ao longo dos anos. A porcentagem de cidades que relataram desastres aumentou de 29% em 2013 para 88% em 2024. Isso cria lacunas na relação entre o aumento nos registros de desastres naturais e os fatores climáticos.
Com relação às estimativas monetárias de perdas econômicas, os sistemas continham informações até 2024, ano em que o estudo foi concluído (com dados do ano anterior ajustados pela inflação).
Por meio de sua assessoria de imprensa, a SEDEC informou à Agência FAPESP que está desenvolvendo uma nova versão do S2iD, com lançamento previsto para este ano, bem como um novo Atlas Digital de Desastres. Esses sistemas permitirão o registro de eventos utilizando uma abordagem multirrisco e atualizações contínuas de informações após o reconhecimento federal.
“Para superar limitações históricas, como a falta de detalhes sobre vítimas humanas e a subnotificação em nível municipal, a nova plataforma permitirá a desagregação de dados por gênero e faixa etária. Ao mesmo tempo, o SEDEC fortalecerá o alcance do sistema por meio de treinamento técnico e ensino a distância para gestores locais. Essa reestruturação visa reduzir as disparidades entre as agências de defesa civil estaduais e municipais, consolidando o S2iD como ferramenta para o planejamento e a formulação de políticas públicas”, afirmou o departamento. Um de seus membros, Lucas Mikosz, foi listado como um dos autores do artigo.
Prevenção
Segundo Victor Marchezini , sociólogo, pesquisador do CEMADEN e autor do artigo, é necessário investir em mecanismos que visem reduzir as perdas, em vez de apenas se recuperar delas.
“Este estudo fornece uma análise longitudinal dos impactos de desastres no Brasil, o que é importante para demonstrar que eles decorrem de uma crise crônica, e não de um evento isolado. Precisamos parar de tratar as perdas econômicas como algo inevitável. Até quando continuaremos investindo apenas em resposta a desastres e reconstrução sem considerar mecanismos para reduzir as perdas?”, questiona Marchezini, coordenador do projeto Capacidades Organizacionais para Preparação para Eventos Extremos (COPE), financiado pela FAPESP .
A fundação apoiou a pesquisa por meio de bolsas concedidas a Silva ( 21/11435-4 e 24/02748-7 ), bem como o Centro de Pesquisa, Inovação e Divulgação em Neuromatemática ( NeuroMat ) e dois outros projetos ( 20/09215-3 e 23/13453-5 ).
“Nosso objetivo é garantir que a ciência contribua para o desenvolvimento de políticas públicas. É um esforço para assegurar que os resultados cheguem à sociedade”, conclui Silva. Para sua pesquisa de doutorado, Silva combinou modelos que preveem a expansão urbana, mudanças no uso do solo e hidrodinâmica. Essa combinação criou uma metodologia que pode fornecer informações geográficas identificando locais em cidades com maior risco de inundações, incluindo aquelas causadas por chuvas extremas ( saiba mais em agencia.fapesp.br/41618 ).
O artigo “Desastres relacionados à água no Brasil: uma avaliação de 1991 a 2024” pode ser lido em iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/ae5991 .




