Por que não torço para a Argentina

Defender a integração latino-americana (ou mesmo admirar Messi) não obriga nenhum brasileiro a torcer pelo país vizinho. Afinal, futebol também é feito de rivalidades e tensões – e ignorá-las não faz ninguém mais democrático…

Por Ricardo Queiroz Pinheiro, em Outras Palavras

Estou em Buenos Aires em plena Copa. A cidade certa num momento estranho, uma dessas ironias que só os afetos do futebol produzem. Buenos Aires fervilhava e esperava, ansiosa, o jogo da noite de ontem: Argentina x Suíça.

Quando eu e minha companheira planejamos esta viagem, nem associei as datas ao torneio. A ideia era outra: aproveitar meu aniversário e uma viagem de trabalho dela para passarmos alguns dias juntos. Começamos pelo Uruguai e depois atravessamos para a Argentina. A Copa entrou no roteiro por acaso.

A ironia ficou pronta com o passar dos jogos. Primeiro, vi o Uruguai ser despachado pela Espanha num telão de um bar no simpático bairro de Cordón. Sofri com os hermanos que nos legaram o Maracanaço.

Dias depois, foi a vez de o Brasil ser eliminado. A Argentina seguiu viva e eu estava em Buenos Aires justamente quando a Copa entrava em sua reta final. No dia seguinte ao fracasso brasileiro, no hall do prédio em que estou hospedado, uma simpática senhorinha me zoou de um jeito carinhoso. Rimos.

Neste sábado, depois daquele estranho jogo contra o Egito, a Argentina entrou em campo contra a Suíça. Antes, Noruega e Inglaterra disputaram a outra vaga da chave. A combinação ainda poderia colocar argentinos e noruegueses frente a frente na semifinal. A cidade já começava a entrar no clima da partida, e acompanhei tudo aqui, no meio da torcida argentina, calado.

A frase parece exigir hoje uma justificativa muito mais complicada do que realmente tem. Não há ódio ao povo argentino, recusa em reconhecer a qualidade de seus jogadores ou dificuldade em admitir a grandeza de Messi. A explicação é bem mais simples: Brasil e Argentina são rivais no futebol. Rivalidade inclui querer vencer o outro e, quando seu próprio time já caiu, desejar que o principal rival também perca. A Argentina não pode ser tetra e encostar no penta do Brasil. Ponto.

Pelo que senti e vejo aqui em Buenos Aires, nenhum argentino considera necessário torcer pelo Brasil para provar que é democrático, latino-americano, civilizado ou comprometido com a paz mundial. Pode reconhecer que o Brasil jogou bem, elogiar um jogador brasileiro, lamentar a pobreza técnica da seleção atual ou conversar conosco de maneira cordial. Na hora do jogo, porém, torce contra. Isso é considerado absolutamente normal. Como deve ser.

Há os exageros. Alguns nos chamam de macacos. Isso é racismo e crime, não rivalidade. Há também, em parte do imaginário portenho, uma pretensão de superioridade europeia desmentida pela própria história argentina. Isso existe e precisa ser dito. Mas não define todos os argentinos, e não seria justo nem útil transformar o problema numa acusação indistinta contra um povo inteiro, ainda mais estando em seus pagos.

Minha relação com a Argentina, aliás, começa muito antes e vai muito além do futebol. Gosto de Silvina Ocampo e Julio Cortázar, acompanhei a intervenção intelectual de Beatriz Sarlo, admiro Ricardo Darín e escuto Luis Alberto Spinetta. A cultura argentina faz parte da minha formação e das coisas que me interessam. Nada disso me obriga a torcer por sua seleção, assim como torcer contra ela não diminui meu interesse pelo país, por sua história ou por sua produção cultural.

No Brasil, uma parte do público criou uma espécie de tribunal sentimental e moral em torno da Argentina. É o avesso dos haters, embora acabe dialogando com eles. Torcer por Messi passou a ser apresentado como sinal de grandeza. Torcer contra virou inveja, ressentimento, nacionalismo tosco ou incapacidade de admirar o talento alheio.

Algumas pessoas ainda acrescentam uma camada política: o bom latino-americano, o democrata consequente e o defensor da integração regional deveriam apoiar a seleção argentina. O argumento já seria frágil em qualquer circunstância e fica ainda mais vazio no futebol atual. Não há hoje, na seleção argentina, um Ardiles, alguém capaz de enfrentar publicamente as contradições entre o futebol, o título de 1978 e a ditadura. No Brasil, tampouco há um Sócrates, que fez do campo um espaço de intervenção política e democrática.

O futebol não corrige Milei nem desarma o bolsonarismo. Uma vitória argentina não fortalece a esquerda latino-americana, assim como uma derrota brasileira não enfraquece a extrema direita. A solidariedade entre os povos não exige uniformidade de torcida, e a defesa da democracia não depende do resultado de uma partida. A integração regional não será maior porque um brasileiro vestiu a camisa argentina, nem será menor porque comemorou sua eliminação. Transformar isso em obrigação política é retórica demagógica e piegas.

Posso admirar Messi, reconhecer a grandeza do futebol argentino, gostar de Buenos Aires e tratar os argentinos com respeito sem, por isso, torcer por sua seleção. Rivalidade não é xenofobia. Condenar o racismo não exige fraternidade esportiva. Defender a integração latino-americana não obriga ninguém a vestir, ainda que simbolicamente, a camisa do principal adversário do Brasil. O que empobrece a discussão é a exigência de converter admiração em torcida e uma preferência de futebol em prova de caráter.

Há pouco, Buenos Aires parou. Estava no meio dela, respeitando a festa, ouvindo os gritos que vinham das janelas e acompanhando o jogo em silêncio. Não torci pela Suíça. Torci contra a Argentina. torcerei contra de novo na semifinal e, se for o caso, na final. Sem ódio, sem culpa e sem pedido de desculpas. Rivalidade também é reconhecer o tamanho do outro e, ainda assim, querer que ele perca.

Dedico este texto a Sócrates Brasileiro e a Osvaldo Ardiles, dois futebolistas que honraram as camisas que vestiram e mostraram, cada um a seu modo, que futebol e política são indissociáveis.

Hago fuerza para que pierda la Argentina, sin odio.

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