Em Araguaína, no norte do Tocantins, 22 famílias camponesas que reivindicam ao Incra a criação de um assentamento tiveram moradias derrubadas e incendiadas. O fogo avançou sobre o cerrado e cercas foram arrancadas, em mais um episódio da violência estrutural no campo tocantinense
Foi mais um dia de destruição e medo na comunidade Recanto do Lontra. Ontem (28), na região Coco Salviano, na Gleba Boa Esperança/Itaparica, Lote 552, no município de Araguaína/TO, moradias foram derrubadas e queimadas, chamas se espalharam pelo cerrado e cercas foram arrancadas , em um ataque grave contra 22 famílias que vivem e produzem na região.
O trator derrubou e o fogo consumiu casas erguidas com trabalho e suor, ameaçando tudo o que havia no perímetro da comunidade: roçados, criações: o pouco que cada família construiu para viver. O incêndio atingiu o cerrado, fonte de água, de alimento e de vida, causando danos à flora e à fauna local. Famílias inteiras ficaram desoladas, desabrigadas e temerosas pelas próprias vidas.
A destruição de ontem não se trata de um fato isolado. É parte de uma escalada de violência que a comunidade vem denunciando: ameaça, intimidação, tentativas de expulsão, a instalação de um “ponto de vigilância” na principal estrada de acesso, disparos de arma de fogo, bloqueios que impedem a livre circulação de moradores, estradas destruídas e cercas derrubadas, envolvimento de pessoas influentes na autoria das violações: empresários, advogados, policiais aposentados, políticos.
A violência contra as pessoas e a violência contra o território caminham juntas. Atear fogo no cerrado é, além de um ataque à comunidade, um crime ambiental. As chamas destroem a vegetação nativa, poluem o ar, matam a fauna e comprometem as nascentes e o solo de que as famílias dependem para plantar. Os algozes agridem, ao mesmo tempo, quem vive na terra e a terra que dá vida.
O Recanto do Lontra, retrato da realidade de centenas de comunidades, é composto por famílias camponesas que sonham com um chão onde possam viver em paz. As 22 famílias lutam pela Reforma Agrária e reivindicam ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a criação de um assentamento na área. No início do mês de julho de 2026, as famílias foram cadastradas pelo INCRA, um passo aguardado com esperança. Foi também nesse período que os ataques se intensificaram.
Diante da gravidade do que ocorreu, as famílias exigem respostas. Que os órgãos de segurança e de justiça investiguem e responsabilizem os autores da destruição e do incêndio, e que garantam a proteção imediata das famílias. E que o Incra dê celeridade ao processo de criação do assentamento da Reforma Agrária, garantindo segurança e dignidade às famílias camponesas.
Mesmo diante dos escombros, da fumaça e do medo, as famílias afirmam que não vão embora. Resistir, para elas, é garantir o direito de viver, de plantar e de manter de pé a história construída coletivamente: a história que o fogo, a ganância e o ódio nunca conseguirá apagar.




