Este ano com o tema “Testemunhas da Esperança”, a Romaria relembra os 50 anos do martírio do padre João Bosco Burnier, assassinado em um crime político ao defender a vida de duas mulheres
Por Heloisa Sousa | Comunicação CPT Nacional
Sob o luar de Ribeirão Cascalheira, no Mato Grosso, milhares de romeiros e romeiras caminharam da Praça São João até o Santuário dos Mártires da Caminhada, no dia 18 de julho. A Romaria dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, esse ano em sua oitava edição, contou com cinco paradas ao longo do trajeto onde foram lembradas as vidas ceifadas pelos latifúndios, pelas desigualdades, pelas guerras e pelo Estado.
A Celebração de Abertura e a Vigília, que deu início à Caminhada Martirial, foram realizadas na Praça São José, após um dia de feira, muita cantoria no Barracão das Comunidades e rodas de conversa na Praça. As rodas de conversa foram espaço de ouvir as vozes das comunidades que estiveram presentes na Romaria, que trouxeram temas como a luta pela permanência na terra e proteção dos territórios; as experiências e necessidades dos povos originários; a defesa dos direitos da mulheres e da comunidade LGBT e a presença das mulheres na Igreja.
Ao longo da caminhada, rumo ao Santuário dos Mártires, em meio aos cantos, romeiros e romeiras fizeram falas trazendo reflexões sobre as diversas violências geradas pelo capital e a coragem necessária para esperançar e seguir na luta.
Petronila Neto, da coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), clamou pela defesa da Mãe Terra, afirmando que a humanidade e a natureza são um só, correlacionados pela fé. “Muitos desses rostos estampados aqui foram tombados por causa da defesa dos pobres da terra, foram covardemente assassinados por causa da religião libertadora. Assim como os nossos ancestrais deram suas vidas na defesa dessa terra, na defesa dos filhos e filhas da terra, que possamos nós sermos defensores e defensoras dessa causa”, exclamou.
A vida das mulheres também foi destaque em uma das paradas. “A Igreja sinodal não pode se curvar ao capital que violenta nossos corpos. Nós somos parte dessa Igreja em saída. As mulheres traçam o caminho dessa Igreja em saída e nós não podemos ficar esquecidas nessa caminhada. Caminhar com os Mártires é lembrar do martírio cotidiano das mulheres e repudiar as ofensivas misóginas, repudiar as ofensivas que o capital impera para dentro da nossa Igreja”, expressou Dê Silva, militante do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Via Campesina.
“Que a formação dos nossos sacerdotes religiosos seja pautada no respeito para a vida das mulheres. A vida de todas as mulheres são importantes; as mulheres são importantes para a vida na Igreja e por isso marchamos em defesa dos martirizados. A construção do bem-viver não pode ser pautada em violência, não pode ser pautada por misoginia e não pode ser pautada por transfobia.” – Dê Silva
Em outra parada, irmã Jéssica falou sobre a vida das e dos jovens que lutam por justiça e sonham com a construção de um mundo mais justo. “Os mártires da juventude de hoje têm nome, têm rosto e têm a história de todos aqueles e aquelas que seguem acreditando no Reino de Deus. Enquanto houver uma juventude que sonha, luta e resiste, nenhum império terá a última palavra. O Reino de Deus continua florescendo nas periferias, nas juventudes, com coragem e com fé”.
Ainda pensando na presença das juventudes na Igreja e na luta por uma religiosidade libertadora, Matheus Daltoé Assis, agente da Pastoral Carcerária, destacou o sofrimento das juventudes no mundo do trabalho, em uma realidade cada vez mais precarizada, e a falta de acolhimento aos jovens LGBTs.
“Falar em juventude, falar em acolhimento, passa por entender um dos elementos que o Papa Francisco sempre citou, que é: terra, teto e trabalho. Se a juventude não tiver acesso a esses direitos, não adianta a gente fazer uma tentativa espiritualista, abstrata, de uma fé devocional e individual para salvar a alma, enquanto o corpo padece. O corpo também precisa de alimento para dar dignidade à alma. Eu volto aqui hoje para continuar lutando por uma Igreja mais aberta à juventude, uma juventude que é plural em sua existência”.
“Precisamos de uma Igreja em saída que de fato nos acolha em todas as nossas determinações da nossa existência, não só no aspecto devocional, não só no aspecto privado, mas em todos os aspectos de uma dignidade íntegra.” – Matheus Daltoé Assis
Mais adiante, Padre Celso Leonel Carpenedo usou sua voz para falar pela vida daquelas e daqueles vítimas das guerras que assolam o mundo hoje – muitas delas sem repercussão na grande mídia. “Há dezenas de guerras na África que produzem milhares de refugiados. Há, em todo mundo, uma quantidade enorme de jovens que morrem nas guerras. É importante a gente pensar, principalmente, na situação do Oriente Médio, com 80 a 100 mil palestinos mortos; 20 mil crianças mortas pelo exército sionista de Israel, que massacra também o sul do Líbano”, destacou.
“Bem-aventurados os construtores da paz porque serão chamados filhos de Deus. São crianças, são mulheres, são jovens que padecem, que são martirizados pelo interesse do capital.” – padre Celso Leonel Carpenedo
Na chegada ao Santuário dos Mártires, os peregrinos foram recebidos com mensagens de esperança, partilha de alimento e muita música, renovando as energias.
Compromisso no esperançar
Na manhã seguinte, no dia 19, a comunidade romeira retornou ao Santuário dos Mártires para a Celebração Eucarística, presidida por Dom Lúcio Nicoletto. O momento encerrou a Romaria dos Mártires da Caminhada e teve presença marcante das mulheres, além das vozes representando os povos indígenas e também povos de outras regiões do mundo e que foram testemunhas da esperança nessa Romaria.
Em sua homilia, Dom Lúcio, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, falou do papel da esperança na caminhada: “Um povo que nunca perde a esperança, não pode ser derrotado”. Ele trouxe também a importância da Igreja no acolhimento das vozes dos empobrecidos e em caminhar junto daquelas e daqueles que semeiam a esperança.
“Isso significa que nós aqui, hoje, queremos oferecer à Igreja e ao mundo um novo modelo de ser discípulo e discípula de Jesus. Um modelo que mesmo Jesus Cristo nos oferece com seu testemunho de amor, com sua palavra que nos recria e nos refaz à sua imagem e semelhança. Esse modelo novo, nos convida a não suportar mais uma fé encolhida, burguesa, reduzida a bons sentimentos, a uma mentalidade de cristandade, à pura herança familiar, à propriedade social que reduz o evangelho a um livro de máximas moralistas, de senso comum”, expressou.
Dom Lúcio fez, ainda, memória ao Papa Francisco ao recordar de suas palavras: “o Espírito Santo com sua presença perene no caminho da Igreja, irradia nos discípulos e discípulas de Jesus Cristo a luz da esperança e a mantém acesa como uma lâmpada que nunca se apaga, para dar apoio e vigor à nossa vida”.
Ao final, romeiros e romeiras ficaram com as palavras de Dom Pedro Casaldáliga, transmitidas por gravação em vídeo, em que ele pede para que o sangue dos mártires não seja esquecido e que a Romaria siga sendo realizada como sinal de compromisso com a causa dos martirizados.
“Nós somos o povo da esperança, o povo da Páscoa. O outro mundo possível somos nós! A outra Igreja possível somos nós! Devemos fazer questão de vivermos todos cutucando, agitando, comprometendo, como se cada um de nós fosse uma célula-mãe espalhando a vida.” – Dom Pedro Casaldáliga
Mártires da Caminhada
Com o tema “Testemunhas da Esperança”, esse ano a Romaria buscou também homenagear e fazer presente o Papa Francisco, explica João Marcos Picarti, coordenador da Romaria e da CPT Goiás. “A palavra testemunho tem o mesmo princípio da palavra martírio, porque o mártir é aquele que testemunha com a própria vida a defesa da vida de outros e de outras da natureza e a vida na sua plenitude. Então o tema é esse por causa dessa questão do testemunho, mas também por causa do Papa Francisco, que pra gente é uma grande testemunha da esperança”.
Nesta edição, a Romaria relembrou os 50 anos do martírio do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier, assassinado em 11 de outubro de 1976, em Ribeirão Cascalheira, após, junto a Dom Pedro Casaldáliga, interceder por duas mulheres – Margarida e Santana – que estavam sendo torturadas em uma delegacia. Mas foi apenas em abril de 2010 que o assassinato de pe. João Bosco foi reconhecido pelo Estado como crime político. No Mato Grosso, ele atuou como coordenador regional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em ações junto aos povos indígenas, além de trabalhadores rurais.
A Romaria faz memória ainda ao martírio do padre Rodolfo Lunkenbein e do indígena Simão Bororo. Também em 1976, na data de 15 de julho, padre Rodolfo e Simão perderam a vida na Missão Salesiana de Meruri, no Mato Grosso, assassinados por fazendeiros contrários à demarcação do território.
Para a CPT, Ribeirão Cascalheira é território símbolo de luta e resistência. Cecília Gomes, da coordenação nacional da Pastoral, reafirma a importância do chão onde é realizada a Romaria. “Aqui tem o que fez nascer a Comissão Pastoral da Terra, que é a mística, que é a espiritualidade, que é a vivência, que é a celebração do martírio e da memória. Isso é a resistência de quem veio antes e que fica para quem virá depois”.




