Intensificação do El Niño, redução das chuvas e aumento das temperaturas acendem alerta sobre novos impactos para as comunidades da região
por Dalila Santos / MAB
A Amazônia enfrenta novos alertas de seca extrema e estiagem prolongada, impulsionadas pelo avanço de um forte fenômeno El Niño. Além das previsões climáticas que apontam para redução das chuvas e aumento das temperaturas na região, estudos indicam que a estiagem já avança em importantes bacias hidrográficas amazônicas, enquanto cresce o risco de queimadas em grande parte da Amazônia Legal.
Os dados são do Painel El Niño 2026, boletim divulgado na última sexta-feira (31/07) pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) em conjunto com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM).
O alerta ocorre em meio à elevada probabilidade de intensificação do fenômeno El Niño ao longo do segundo semestre de 2026. Segundo o boletim, o fenômeno pode atingir intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão, aumentando a probabilidade de impactos hidrometeorológicos – como chuvas fortes, secas, enchentes e tempestades – em diferentes regiões do país.
Os dados do painel mostram que os efeitos da estiagem já podem ser observados em importantes bacias da região amazônica. Na bacia do Rio Negro, um dos principais sistemas fluviais da Amazônia, a classificação da seca passou de fraca para moderada entre junho e julho. Já na bacia Tocantins-Araguaia permanece o quadro de seca severa, uma das classificações mais preocupantes do monitoramento.
Para as populações ribeirinhas, a seca representa muito mais do que a redução do volume de água nos rios. Segundo Ocelio Muniz, integrante da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Porto Velho (RO), a queda do nível dos rios compromete diretamente a mobilidade e o acesso a serviços essenciais. Em muitas comunidades amazônicas, o rio é o único meio de transporte disponível, e a diminuição do leito impede a circulação de embarcações, dificultando o deslocamento de moradores para escolas, unidades de saúde e centros urbanos. Além do escoamento da produção agrícola e do abastecimento de alimentos e água potável.
“A seca na região amazônica eleva a dificuldade para os ribeirinhos. As comunidades ribeirinhas da Amazônia têm o rio como seu principal meio de transporte. A nossa estrada é o rio. E com a seca, um dos grandes impactos é o acesso das comunidades para ir para as escolas, para ir para o posto de saúde, para escoar sua produção. Outra grande dificuldade é o acesso à água potável. Quando os rios baixam, fica difícil o acesso à água para o consumo humano”, afirma Ocelio.
As secas extremas registradas na Amazônia em 2023 e 2024 já demonstraram os impactos desse tipo de evento, com isolamento de comunidades, interrupção do transporte fluvial, prejuízos à pesca e aumento da vulnerabilidade social em diversos territórios.
Outro fator de preocupação é o avanço do risco de fogo. O Painel El Niño aponta expansão significativa das áreas suscetíveis a queimadas entre agosto e outubro, especialmente na Região Norte. A previsão é de queimadas intensas principalmente nos estados do Pará, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso, além da região Amacro, que engloba áreas do Amazonas, Acre e Rondônia.
Embora a intensidade dos impactos dependa da evolução das condições atmosféricas e oceânicas nos próximos meses, os dados reunidos pelos órgãos de monitoramento indicam um cenário de atenção para a Amazônia. A combinação entre intensificação do El Niño, redução das vazões dos rios, seca severa em importantes bacias hidrográficas e aumento do risco de queimadas reforça a necessidade de medidas de prevenção e adaptação para proteger as populações mais vulneráveis da região.
Diante desse cenário, o Movimento dos Atingidos por Barragens tem articulado ações junto aos governos municipais, estaduais e federal para ampliar a infraestrutura de enfrentamento à crise climática na Amazônia. Entre as principais reivindicações está a implantação de cisternas amazônicas para garantir o acesso à água nas comunidades mais atingidas pela seca. Atualmente, cerca de 800 famílias em Rondônia estão sendo atendidas por iniciativas desse tipo, mas o Movimento defende a ampliação do programa para mais de 4 mil famílias em toda a região amazônica. Segundo Ocelio Muniz, a medida é fundamental para fortalecer a adaptação das comunidades aos efeitos cada vez mais frequentes dos eventos climáticos extremos.
“Nossa atuação do MAB tem sido para garantir que essas comunidades tenham acesso a insumos emergenciais num acontecimento de uma seca grave, como aconteceu em 2023 e 2024. Que essas comunidades possam ter o acesso à água potável de imediato, à cesta de alimento e à saúde pública perto de onde estão. Essas são ações emergenciais. Sobre as ações mais de longo prazo, temos discutido com o Poder Público Municipal, com o Poder Público Estadual e Governo Federal, a infraestrutura necessária para o enfrentamento da crise climática na região amazônica”.




