Lula vencerá com as armas do passado? Por Antonio Martins

Em meio a novos ataques de Trump ao Brasil, presidente lança campanha com honra à história das lutas dos trabalhadores. Mas cala sobre batalhas atuais e busca acordos à sua direita. Uma postura moderada o ajudará, em ambiente de confronto?

Por Antonio Martins, em Outras Palavras

No início de julho, quando a coordenação da campanha de Lula começou a construir ato de lançamento de sua corrida à reeleição, as pesquisas de opinião colocavam-no seis pontos à frente de Flávio Bolsonaro, num eventual segundo turno. A distância parecia crescer. Talvez por isso, o cenário grandioso e o script do comício, realizado ontem em São Bernardo, tenham sido desenhados com olhos voltados para o bravo histórico do candidato.

O Estádio Primeiro de Maio, palco das assembleias operárias que mudaram a história do país e projetaram Lula, foi apresentado como o lugar “onde tudo começou”. Repetiu-se várias vezes, nos discursos e em vídeos projetados num imenso telão, uma frase do então metalúrgico (“Que ninguém nunca mais ouse duvidar da capacidade da classe trabalhadora”). Ele reencontrou seus companheiros de então, em cena emocionante. Relembrou dona Lindu. Ouviu Janja homenagear Marisa, sua companheira à época do sindicato. Contou histórias das greves, prisões e voltas por cima. Citou conquistas reais de seus governos. Quase nada disse, porém, sobre as disputas atuais. Entre as ausências, talvez a mais eloquente tenha sido a falta de qualquer menção à batalha pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho.

A proposta une 68% dos brasileiros. A adesão chega a 76% na faixa etária até 24 anos, onde Lula precisa frear o ascenso de Renan Santos e conquistar mais apoios. A tramitação está emperrada nos corredores do Congresso, por enfrentar a oposição das bancadas conservadoras e das federações empresariais. Apavora em particular bolsonaristas como Nikolas Ferreira, cuja popularidade é abalada sempre que o deputado se arrisca a debater o tema. Trazê-lo ao centro do debate eleitoral politizaria a disputa, eletrizaria parte importante dos eleitores, obrigaria Flávio e os demais candidatos de direita a se expor. Além disso, abriria as portas para uma campanha ativa, em que os apoiadores de Lula (hoje em grande medida semiparalisados) poderiam recorrer a um repertório que dominam. Mobilização nos locais de trabalho. Abaixo assinados. Formação de comitês. Em momentos-chave, manifestações de rua.

Lula, porém, parece ter outros planos, que talvez expressem os limites do tipo de governança por que optou. Na última quarta-feira, manteve, no Palácio do Planalto, seu terceiro encontro recente com o presidente do Senado, David Alcolumbre, um dos expoentes máximos do Centrão. Busca desencalhar, naquela casa legislativa, a tramitação do fim da 6×1. Alcolumbre regateia e procrastina. Quer reeleger-se ao posto, no início do ano e sabe que, se se mantiver no Planalto, Lula será um apoiador muito importante. Os interesses recíprocos podem resultar num acordo. É possível, porém, que ele fracasse – se, por exemplo, o senador pelo Amapá calcular que as chances de Flávio cresceram e é melhor manter engavetada a redução da jornada de trabalho…

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Em termos de público, o comício de lançamento de Flávio Bolsonaro, realizado também neste domingo, foi um fiasco. Reuniu no pico, na praia de Copacabana, 8,9 mil pessoas – meros 15% do que seu pai foi capaz de atrair, no mesmo local, há quatro anos. Mas o candidato sabe que conta com outros trunfos. As big techs e as corporações de IA norte-americanas exercem controle crescente sobre o espaço público brasileiro. Centenas de milhões de pessoas entregam às redes sociais da Meta, Alphabet (Google) e X os conteúdos que produzem. Um contingente cada vez maior recorre, além destas, às inteligências artificiais da OpenAI e à Grok de Elon Musk, para dirimir dúvidas quotidianas. O presidente Donald Trump, cujos laços com a ultradireita global e a família Bolsonaro são óbvios, tem dado sinais crescentes de que pretende usar este domínio para influir nas eleições brasileiras deste ano.

O mais recente destes indícios foi a emissão pela Casa Branca, em 12/8, de um memorando presidencial supostamente destinado a “combater os cibercrimes”. Vale ler, em detalhes, a análise minuciosa do documento preparada pelo cientista político Reynaldo Aragon e publicada hoje em Outras Palavras. Ela diz, em síntese, que: a) Donald Trump acaba de criar os instrumentos jurídicos que permitirão às big techs e corporações de IA norte-americanas invadir e interferir em sistemas de dados estrangeiros, sem conhecimento de seus proprietários e sem que os Estados Unidos disponham-se a prestar contas a órgãos multilaterais; b) Estas ações violadoras podem, entre muitas outras ações, interferir em dados públicos dos países-alvo (os registros de eleitores do TSE brasileiro, ou, de forma mais ampla, os mecanismos ligados ao gov.br, por exemplo). Podem, também, driblar restrições legais aos abusos praticados por meio das redes sociais; c) Já há pretexto para adotar tal tipo de conduta contra o Brasil. Ele surgiu a partir do momento em que o Estado norte-americano considerou o PCC e o CV organizações “terroristas” e “ameaças transnacionais”. Bastaria, agora, alegar que as redes a ser atingidas pela interferência das big techs norte-americanas “são usadas” pelo PCC e CV.

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A recuperação de Flávio Bolsonaro nas últimas pesquisas eleitorais parece estar ligada a uma certa normalização. Num primeiro momento, a escolha, por Jair Bolsonaro, de um filho com enorme telhado de vidro, para representar o clã na disputa presidencial, foi vista com espanto e descrença. Quando ficou claro, porém, que ela era definitiva, setores crescentes do eleitorado que são movidos pelo antipetismo aceitram-na como um “mal menor” diante de Lula.

Interromper este processo requer restabelecer o choque de projetos no presente. Tirar a escala 6×1 das teias de aranha do Congresso Nacional é um caminho claro. Em entrevista publicada hoje pelo Valor, o ex-chanceler Celso Amorim, hoje assessor especial de Lula, sugere uma rota complementar. Diante dos ataques norte-americanos, diz ele, o Brasil não deve temer o uso, o quanto antes, de ações retaliatórias. Elas estão previstas na Lei de Reciprocidade Econômica. Permitem, entre outras medidas, “suspensão de concessões comerciais, de investimentos e de obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual”. Se usadas com coragem, e combinadas com ações pedagógicas, podem levar a ações de grande repercussão econômica e política. Por exemplo, quebrar os direitos de patente de empresas farmacêuticas norte-americanas. Reduzir o domínio que outras corporações dos EUA exercem sobre o mercado audiovisual brasileiro. Limitar os próprios poderes, nas comunicações brasileiras, das big techs e empresas de IA daquele país. O cardápio de opções é vasto.

A campanha eleitoral apenas começou. Lula é muitos. Um dos causos que contou no comício de ontem foi sua mudança de atitude, na condução das greves de 1979 e 80. Na primeira, ele dobrou a assembleia no estádio de Vila Euclides com uma manobra. Sabendo que sua proposta – encerrar o movimento – não seria aceita se levada a votação, evitou fazê-lo e colocou em cena sua liderança e prestígio pessoal. Conseguiu que os operários lhe dessem um “voto de confiança para seguir negociando”, e voltassem ao trabalho… Ganhou a votação mas foi visto, por meses, como um traidor, admitiu.

Em 1980, escaldado pelo trauma, recusou-se a propor o fim da greve – mesmo sabendo que mantê-la levaria provavelmente à derrota. O movimento se prolongou por 41 dias. Lula e a liderança foram presos. Ao voltarem, não traziam conquista salarial alguma, mas os operários os trataram como heróis. Embora derrotada economicamente, a greve de 1980 desmascarou a ditadura como nunca antes frente aos trabalhadores. Talvez tenha apressado o fim do regime e o grande ascenso das lutas sociais, que havia começado poucos anos antes e se estenderia até 1989.

Os tempos são muito distintos. Não há ascenso, e sim uma desconstrução nacional que se prolonga quase quatro décadas. Mas mesmo em tempos de retrocesso há momentos de esperança e retomada. As próximas semanas dirão se ofensiva de Trump e o acosso de Flávio Bolsonaro serão capazes de despertar em Lula a energia de 1980.

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