Por Gilvander Moreira[1]
Como 2º texto subsídio para o mês a Bíblia (Setembro de 2026) sobre o Livro de Daniel queremos refletir mais um pouco sobre os dois primeiros capítulos do Livro de Daniel que podem nos inspirar sobre como resistir diante de opressões e explorações invencíveis à primeira vista.
O livro de Daniel reflete a experiência de pessoas que vivem em comunidade, pautando sua convivência e sua luta na fé no Deus de seus antepassados, que lutaram por libertação. Elas sustentam a postura existencial de que apenas o poder do Deus da vida é inquestionável e imbatível. Os outros poderes, sejam políticos, econômicos, religiosos ou culturais, por mais prepotentes que aparentem ser, são todos derrubáveis pela ação de quem acredita que Deus é o único poder absoluto (Dn 2,31-47). É possível que o autor do Evangelho de Lucas tenha se inspirado em Dn 2,31-47 para afirmar, no Cântico de Maria, que “Deus dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens e despede os ricos de mãos vazias” (Lc 1,51-53).
O livro do profeta Daniel tem a finalidade de animar a esperança, mesmo que esta esteja por um fio, na resistência popular diante dos projetos opressores do grande capital, que atropelam e violentam a dignidade humana e os valores culturais ancestrais e religiosos dos povos das florestas, do campo e da cidade. A profecia de Daniel busca despertar o povo do sono letárgico imposto pela ideologia dominante, que anestesia as consciências e incute subserviência e resignação diante de projetos exploradores. Busca avivar a consciência histórica de um povo que caminha de forma autônoma, com fé no Deus Javé, solidário e libertador (Cf. Ex 13,17-15,19), reproduzindo sua identidade sociocultural, permanentemente ameaçada pelas idolatrias disfarçadas de “progresso”, “valor cultural do presente” ou “última novidade”, mais do mesmo travestido de economia verde ou de liberdade abstrata. Estas são seduções que, de múltiplas formas, armam ciladas para desumanizar e violar a dignidade da pessoa humana e da natureza.
No início do livro de Daniel, narra-se que “no terceiro ano do reinado de Joaquim em Judá, Nabucodonosor, rei da Babilônia, sitiou Jerusalém com seu exército” (Dn 1,1). Após quase dois anos de cerco, Jerusalém foi invadida e devastada e o templo saqueado e destruído. Nabucodonosor levou para o exílio a família real e outras famílias importantes (Dn 1,3), a melhor força de trabalho: “jovens sem nenhum defeito físico, de boa aparência” e preparados para trabalhar em áreas estratégicas, “cientistas” para servir na corte do rei (Dn 1,4). A eles foi ordenado que estudassem a literatura e a língua da Babilônia (Dn 1,4), ou seja, que assimilassem a cultura do império invasor. Deveriam “ter uma ração diária da comida e do vinho da mesa real”, isto é, comer e beber da cultura do inimigo. Isso era estratégia para cooptar os escravizados de forma que eles introjetassem e assimilassem, em si mesmos, o modo de ser e de existir dos escravocratas. O pior escravo é o que “lambe as botas” daquele que o golpeia, imaginando que, assim, irá conseguir uma sobrevida.
O profeta Daniel e seus companheiros Ananias, Misael e Azarias, recusaram-se a comer e a beber da comida e da bebida do palácio do rei Nabucodonosor. “Vamos comer só vegetais e beber só água” (Dn 1,12). Eles fazem a opção de não se contaminarem, como sinal de crítica ao imperialismo e resistência cultural e religiosa, preservando sua identidade ancestral. A alimentação saudável era a “espinha dorsal” da cultura de um povo que sofrera a escravidão no Egito devido ao imperialismo dos faraós e que, para conquistar a terra prometida, teve, antes, que marchar “quarenta anos pelo deserto”. A mística que anima a resistência popular passa, necessariamente, pela reprodução e valorização dos valores ancestrais camponeses. Preservar os valores culturais é um princípio ético indispensável na luta para resistir e desmoronar os megaprojetos exploradores.
Em contexto de escassez, tornou-se imprescindível cuidar da qualidade dos alimentos. Por isso, as regras alimentares deviam ser levadas a sério (Cf. Ez 4,13-14; Os 9,3; Est 4,14; Jt 10,5; 1Mc 1,62-63; 2Mc 6,18-31). Após dez dias, o capataz do império babilônico viu que aqueles que se alimentaram apenas com vegetais e água – ou seja, com a “comida de verdade”, a dos Macabeus, protagonistas da resistência popular, diante da opressão do rei Antíoco IV Epífanes, que os obrigava a comer carne de porco – estavam mais saudáveis. Ao final de Dn 1, diz-se que “Daniel ficou trabalhando e servindo na casa real até o primeiro ano do reinado de Ciro” (Dn 1,21), cerca de 50 anos.
Na Bíblia, encontramos muitas narrativas de grandes projetos que foram enfrentados por povos injustiçados e marginalizados, entre os quais destacamos seis: 1) A Construção da Torre de Babel (Gênesis 11,1-9); 2) A construção de um bezerro de ouro (Êxodo 32,1-35); 3) A estátua gigante de pés de barro do livro do profeta Daniel (Daniel 2,1-49); 4) O mercado no entorno do templo de Jerusalém (Mateus 21,12-13; João 2,14-16); 5) O comércio ao redor da deusa Ártemis (Atos 19,23-40); 6) O dragão do Apocalipse (Apocalipse 12,1-12).
BH/MG, 18/08/26
[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI e Ocupações Urbanas; autor de livros e artigos.




