“Cuidar das mulheres é cuidar dos territórios”, afirma lideranças em Encontro Nacional de Mulheres do Cerrado

Nesse dia do Cerrado, 11 de setembro, ressaltar o levante histórico das mulheres é fundamental para compreender esse território-bioma tão antigo quanto a história do mundo 

Ludmila Pereira, Le Monde Diplomatique Brasil

“Quando a gente tem autonomia, a gente tem saúde”, ressalta Miguelita Campos, da Associação São Marcel do Pari (MT), ao apontar a urgência de estratégias contra o adoecimento das lideranças no Cerrado e sobre a necessidade de considerarmos a vida e o Bem Viver das mulheres como fundamental para manter os territórios vivos e de pé.  

Durante sua fala no IV Encontro das Mulheres do Cerrado, que ocorreu entre os dias 1 e 3 de setembro, em Várzea Grande (MT), cerca de 60 mulheres, dos diferentes Estados, organizações e comunidades, se reuniram para fortalecer a reflexão e a articulação entre as mulheres dos territórios do Cerrado diante dos desafios enfrentados em seus contextos.  

“Nós somos as cuidadoras das sementes”, continua Miguelita em sua fala destacando a importância da relação das mulheres com o presente e o futuro do Cerrado, sendo elas, majoritariamente, as que manejam as sementes crioulas – aquelas passadas de geração a geração e que fertilizam sem o uso de agrotóxicos ou modificações genéticas. 

Organizado pela Articulação de Mulheres do Cerrado, o Encontro teve como tema “Somos corpo-território: encontrar, cuidar e resistir”. Entre os debates, a importância do cuidado e a questão: quem cuida de quem cuida dos territórios? foi colocada como pauta junto aos direitos territoriais, de forma que a política nacional de cuidado precisa chegar às pluralidades de mulheres e suas vivências.  

O Cerrado e seus saberes de cura 

O processo de adoecimento, diante das ameaças, conflitos territoriais, desesperança diante das devastações ambientais, o agravar dos problemas de saúde física e a preocupação constante em como manter a família, tem sido alguns elementos que tem tirado a paz e gerado sobrecarga às mulheres do Cerrado. 

Com estratégias ancestrais para assegurar suas comunidades de pé e vivas diante das injustiças climáticas e do avanço do agro-hidronegócio – o roubo das águas e a água como negócio – e mineração, as mulheres são, historicamente, as co-participantes da existência do Cerrado. O saber sobre as sementes crioulas, as formas de ler a terra e o tempo, os conhecimentos sobre plantas medicinais, a agroecologia e os roçados, as organizações locais de mulheres e a criatividade com os elementos naturais têm sido formas de impulsionar a saúde pelo Cerrado e junto a seus povos.

“Se nosso Cerrado morrer, o nosso saber também vai morrer junto”, conta a mestra Lucely Pio, Quilombola do Cedro (Mineiros – GO), vice coordenadora da Rede Cerrado e integrante da Articulação Pacari, durante uma das mesas do encontro. A mestra ainda relata sobre o Centro de Plantas Medicinais que coordenou por cinco anos, onde contribuiu com a catalogação de 450 plantas nativas do Cerrado e construiu um horto com mais de 300 espécies. 

Ao lembrar dos ensinamentos de sua avó e que até os dias de hoje as orientam, Lucely, que tem reconhecimento nacional por seu trabalho junto às plantas medicinais do Cerrado, enfatiza que é preciso respeito com esse território e sua potência. “Quando entramos no Cerrado, a primeira coisa que temos que fazer é pedir licença para entrarmos naquele espaço. Quando vamos plantar uma planta, temos que pedir licença para a planta, para que ela libere o princípio curativo”, diz. 

“O Cerrado para nós mulheres é um espaço de cura e sustento. O Cerrado é parte de nós. E pensando que estamos em ano político, a gente também está com essa preocupação de votar em quem defende o nosso Cerrado. Para o Cerrado permanecer de pé, nós também precisamos estar de pé”, relata Wasady Xakriabá, integrante da Mobilização dos Povos Indígenas do Cerrado (MOPIC) e da Articulação da Juventude Xakriabá, em Minas Gerais. 

“O nosso corpo é o Cerrado” 

Para as mulheres do Cerrado, o combate à violência ocorre em várias frentes, seja no campo ou na cidade, a busca pelos direitos, o acesso a políticas públicas, à autonomia e por um mundo melhor, ainda é uma busca constante. O Encontro veio no sentido de reafirmar que nenhuma mulher está sozinha, os debates, as trocas foram no sentido de fortalecer as raízes profundas de lideranças que asseguram o Bem Viver em um dos territórios mais antigos do mundo e berço das águas, o Cerrado.  

“Os povos do Cerrado estão cada vez mais cercados”, lembra a pesquisadora Maria Emília, assessora da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE). Em sua fala sobre a conjuntura política, ela chama atenção a quanto o MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) – fronteira do agronegócio formado pelos quatro Estados – criou um território do capital dentro do Cerrado e que o avanço do agronegócio também está ocorrendo dentro das escolas, com materiais didáticos que exaltam esse modo de exploração da natureza. 

Conforme Relatório Anual do Desmatamento (RAD), do MapBiomas, o MATOPIBA foi onde se perdeu a maior vegetação nativa nos últimos 20 anos, mais do que nos 500 anos anteriores. Em 2025, o Cerrado liderou, pelo terceiro ano consecutivo, o desmatamento no Brasil ao concentrar 55% da área destruída no país, com forte pressão da agropecuária na região do MATOPIBA, onde temos 70% da perda de vegetação nativa do país.  

A pesquisadora também ressalta que as mulheres tem coparticipação com a vida no Cerrado e, são elas, que têm criado estratégias para se manterem enraizadas em seus modos de vida, articulando ações de combate à destruição em seus territórios, realizando agroflorestas, roçados, debates e trocas de saberes. 

Ainda durante o Encontro das Mulheres do Cerrado, para possibilitar acesso das mulheres a recursos que as ajudem a ampliar suas ações contra a injustiças climáticas, através de projetos em suas comunidades, a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), lançou o Guia para elaboração de projetos sociais – Mulheres do Cerrado: Raízes Profundas.  

O material, construído junto com a Articulação de Mulheres do Cerrado, tem como objetivo detalhar o passo a passo para escrever um projeto, mas também apresenta referências de conteúdo sobre o bioma, dados sobre projetos fortalecidos pela CESE, receitas, testes de conhecimento e debates relacionados às desigualdades sociais. É uma forma de mobilizar as mulheres para que acessem recursos capazes de transformar a realidade de seus territórios. 

“Estarmos juntas é uma construção coletiva e esse momento de encontro é importante porque entendemos a realidade das outras comunidades. Poder falar de corpo, território e cuidado é indispensável. Essa foi uma possibilidade de diálogo, debate e construção coletiva para as mulheres do Cerrado”, relata Maria José, coordenadora de juventudes e regional do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) em Imperatriz (MA). 

A Articulação de mulheres do Cerrado surge em 2019, dentro da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, com o I Encontro das Mulheres do Cerrado, em Luziânia (GO), como espaço de auto-organização das mulheres e suas pluralidades para somar forças na luta pela defesa dos corpos-territórios e da sociobiodiversidade do Cerrado. 

Ludmila Pereira é jornalista afrocerradeira, integra o Instituto Pretas, a Articulação de Mulheres do Cerrado, a Rádio e TV Quilombo e a Rádio Kalungueira

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