A Era do Obscurantismo e o complexo de vira-lata. Por Paulo Nogueira Batista Jr.

Pela primeira vez em cinco séculos, domínio eurocêntrico está ameaçado. Ocidente resiste, reacende a chama tóxica do racismo e busca submeter a periferia. Brasil pode jogar papel político e simbólico na emergência do Sul Global. Mas as elites preferem a submissão

Em Outras Palavras

Estamos atravessando a mais perigosa situação geopolítica desde a Segunda Guerra Mundial. O brasileiro, que adora se iludir, precisa abrir os olhos urgentemente. Quais são as características marcantes desta fase, cujo início remonta à primeira ou segunda década do século XXI? Creio que podemos destacar quatro pontos:

1) A ascensão e consolidação de um mundo multipolar, marcado pelo rápido progresso da China e de outras nações do Leste da Ásia.

2) O declínio relativo do Ocidente, acelerado por escolhas estratégicas altamente problemáticas dos Estados Unidos (a abertura de uma guerra de três frentes contra a Rússia, a China e o Irã e, desde 2025, uma fragmentação inédita do Ocidente).

3) A relutância, mais do que isso – a recusa terminante do Ocidente de aceitar seu declínio relativo – a ponto de estar disposto a violar todos os princípios, contratos e regras, além de praticar abertamente toda sorte de violência e pirataria. Estados Unidos e aliados mostram-se prontos, como estamos vendo, a realizar operações militares e até mesmo ir à guerra na tentativa de preservar e talvez reverter seu domínio decadente.

4) Apesar do declínio, o Ocidente, em especial a superpotência Estados Unidos, não devem ser subestimados, pois podem fazer – e fazem – grandes estragos urbi et orbi.

Uma importante faceta do declínio do Império Ocidental é a degradação intelectual e moral das elites ocidentais. Basta lembrar a baixa qualidade dos atuais líderes europeus, com poucas exceções, e dos presidentes dos Estados Unidos. Os estadunidenses realizaram a façanha de eleger George W. Bush não uma, mas duas vezes para a presidência da República. Elegeram depois Donald J. Trump não uma, mas duas vezes.

O que veio a público sobre o poderoso esquema Jeffrey Epstein, com sua penetração entre lideranças de renome, incluindo políticos, empresários e intelectuais, desvendou uma rede de corrupção, libertinagem e pedofilia, cuja existência e alcance poucos poderiam imaginar. Instalou-se a barbárie nas oligarquias do Ocidente.

A intensificação do racismo no Ocidente e suas implicações geopolíticas

Tudo isso é (ou deveria ser) bastante conhecido em suas linhas gerais. Menos reconhecidas são as conotações raciais presentes nessa tensa situação geopolítica. Nem sempre se leva na devida conta a existência de um racismo disseminado, arraigado, de natureza estrutural, que acrescenta uma conotação especialmente perversa ao quadro geopolítico.

O mundo pode ser dividido para certos propósitos em duas partes – o Ocidente Coletivo e o Sul Global. O Ocidente Coletivo costuma ser definido como os países de alta renda liderados pelos Estados Unidos; inclui Canadá, União Europeia, Reino Unido, Austrália, Israel, Japão, Coreia do Sul e alguns outros países de alta renda). Excluídos os países asiáticos de alta renda (Japão, Coreia do Sul e Cingapura), a população do Ocidente representa algo como 12% da população mundial, com tendência a perder peso. O Sul Global é normalmente entendido como correspondendo ao resto do mundo, isto é, os países emergentes ou reemergentes e em desenvolvimento da Eurasia, Ásia, África e América Latina. O que temos é The West and the Rest, título pertinente de um livro de Niall Ferguson. O Ocidente se vê pressionado pela ascensão do “Resto”, onde vivem nada menos que cerca de 86% da humanidade.

Um ponto central: aproximadamente 3/4 da população que reside no Ocidente são brancos – com as minorias não brancas funcionando principalmente como trabalhadores de baixa qualificação em empregos que, como se sabe, os brancos não estão mais dispostos a ocupar. A população do Sul Global é totalmente diferente em termos de composição racial – os brancos são minoria; a grande maioria é representada por pretos, pardos, amarelos, mestiços etc. Historicamente, os brancos são minoria na África, na Ásia e mesmo na América Latina, onde a colonização europeia teve mais peso.

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