Clima: Retrato de um Europa quase infernal

Diante de megaincêndios e o calor extremo que já matou milhares, está em curso uma campanha feroz da ultradireita para “abafar” a tragédia. Nega a crise climática. Sabota políticas de mitigação. Apregoa o salvacionismo tecnológico. E culpa até ambientalistas pelo caos

Por Sergio Ferrari | Tradução: Rose Lima, em Outras Palavras

Desde maio, tem havido muita conversa sobre um diagnóstico sufocante que ocupa manchetes urgentes em jornais e revistas, rádio e televisão. A causa desse fenômeno — a estreita relação entre o aquecimento global e os verões escaldantes — também está nas notícias, mas com menos frequência. E a responsabilidade direta pelo uso exagerado de combustíveis fósseis como eixo de um sistema de produção dominante aparece apenas nas análises mais especializadas. Nesse contexto, as forças políticas que minimizam o problema — e que, frequentemente, chegam ao ponto do negacionismo climático — continuam atuando como cúmplices do atual desastre climático.

Pouco de pontual, muito de constante

No Norte, julho e agosto quebraram recordes, e ainda falta um mês para o fim de um verão, com quatro ondas sucessivas de calor, quase sem trégua entre uma e outra. Períodos de vários dias com temperaturas acima da média esperada para essa época do ano, dias de máximas não inferiores a 30-35 graus e noites com temperaturas acima de 20 graus.

É uma situação térmica que gera estresse climático-sanitário, ao ameaçar a saúde das pessoas, especialmente das mais vulneráveis, devido à idade ou a doenças. Aumentam as complicações cardíacas, circulatórias e respiratórias e, em alguns casos, o desfecho é fatal. Em meados de agosto, o calor já causou a morte “prematura” de mais de 25 mil pessoas na Europa..

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o que caracterizou o estado do clima em julho e início de agosto no Hemisfério Norte foram as temperaturas recordes na superfície da terra e do mar. Junto com esse calor extremo, secas persistentes e incêndios florestais devastadores. O julho mais quente já registrado em âmbito mundial, repetindo a cifra registrada em julho de 2024, confirma a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA, em inglês).

Na Europa, especificamente, o serviço Copernicus sobre mudanças climáticas, que depende do Centro Europeu de Previsão de Tempo a Médio Prazo (ECMWF, em inglês), confirma que foi o segundo julho mais quente já registrado, com uma temperatura média do ar próximo à superfície 1,47°C superior à média pré-industrial estimada (1850-1900). Dados mais do que alarmantes se considerarmos o aquecimento progressivo de julho desde 2016, com registros anuais sucessivos de 2023 até hoje.

Além disso, durante a primeira metade deste ano, aproximadamente 82% dos oceanos experimentaram ondas de calor marinhas de alta intensidade. Em julho, por exemplo, com temperaturas excepcionalmente altas em grandes áreas do Pacífico tropical, assim como no Atlântico próximo à Europa e ao Mediterrâneo ocidental.

Europa em brasas

No início de agosto, segundo o portal Environmental News, incêndios florestais já haviam devastado seis milhões de hectares na Europa e na América do Norte.

De acordo com o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, cerca de 1.614 incêndios no Velho Mundo resultaram em 667.342 hectares destruídos, inúmeras evacuações e milhões em perdas. Os mais impressionantes foram em Gironda, França, onde 42.000 hectares de florestas de pinheiros foram destruídos, assim como em várias regiões da Espanha, onde mais de 200.000 hectares foram perdidos, o dobro da média anual histórica daquela região. A Grécia e Portugal também pagaram um preço alto e, nos últimos dias, outros países, como a Bélgica.

Em uma espiral sem saída, o aquecimento global, inevitavelmente, favorece as condições para que esses incêndios extraordinários aconteçam. Por sua vez, os incêndios agravam as mudanças climáticas. Entre 2001 e 2023, as emissões fósseis mundiais relacionadas ao fogo aumentaram 60%.

Entre negacionismo e propostas “pragmáticas”

Nem mesmo o aquecimento global, a crise climática e os desastres naturais escapam da polarização extrema que caracteriza o debate político e ideológico europeu.

No final de julho, quando a comunidade de Madri enfrentava um dos piores incêndios de sua história, o partido espanhol de extrema-direita Vox surpreendeu com uma postagem em suas redes sociais criticando o governo socialista por “falta de prevenção”: “Não é a mudança climática. É uma ideologia criminosa, incompetência e abandono”, denunciou. E, assim como o direitista Partido Popular, o Vox rejeitou o Pacto de Estado oferecido pelo governo para alcançar um consenso sobre a emergência climática. Como principal resposta, ambos os partidos acusaram o primeiro-ministro Pedro Sánchez de querer tirar vantagem política dos inúmeros incêndios.

Um artigo recente do site ecologista Reporterre alega que o Vox espalhou argumentos falsos ao culpar ativistas ambientais pelas recentes enchentes [como as de Valencia, em outubro de 2024, com 200 mortes]. Especificamente, acusaram os ativistas de destruírem barragens e de proibirem a limpeza de rios e lagos. Embora amplamente refutado, esse argumento continua sendo parte de uma campanha ideológica e moral para desacreditar os ambientalistas, a quem o Vox chama de “ecocriminosos” e “apóstolos de uma religião climática”. Quando o chefe de governo espanhol disse, recentemente, que “as mudanças climáticas matam”, a extrema-direita em seu país respondeu com o slogan “O fanatismo climático mata”.

Na França, e segundo esse mesmo artigo, “a extrema-direita usa [os incêndios] como argumento contra o ambientalismo”. Apesar de seu aparente “aggiornamento” pró-ambiental, esse setor político aproveita as crises climáticas para promover “seu [próprio] tecno-solucionismo… e avançar em suas ideias antiambientalistas”. De que forma? Argumentando, por exemplo, que uma “ecologia do decrescimento” (NdT.: Decrescimento ou Movimento do Decrescimento refere-se à teoria política, econômica e social que critica a busca infinita pelo crescimento econômico e propõe uma redução controlada do consumo e da produção para proteger o meio ambiente), que se opõe ao uso do ar-condicionado, é a culpada. Mas a proposta de ar-condicionado em grande escala promovida pelo Reagrupamento Nacional (RN) de Marine Le Pen para combater as ondas de calor ignora suas graves consequências ambientais: essencialmente, um nível extraordinário de consumo de energia, que, certamente, agravaria o aquecimento global. Ao mesmo tempo, permite que a RN reafirme seu apoio à indústria nuclear, continue defendendo os combustíveis fósseis e continue sua oposição ao desenvolvimento de energias renováveis.

Na Suíça, o Partido Popular Suíço (PPS-UDC), também de extrema-direita e a principal força nacional, embora não pareça negar as mudanças climáticas, ainda minimiza suas consequências reais. Isso é evidenciado pelas respostas de vários de seus líderes por meio de uma série de entrevistas na televisão pública. Thomas Matter, seu vice-presidente, questiona a origem humana das mudanças climáticas. Por sua vez, Marcel Dettling, seu presidente, tenta superestimar os “efeitos positivos” das mudanças climáticas ao afirmar que as colheitas serão mais abundantes. Seu colega Manfred Bühler, deputado nacional pelo Cantão de Berna, enfatiza que “haverá menos necessidade de energia para aquecer edifícios no inverno, [que] o aquecimento global tem aspectos positivos e negativos [e que] os colapsologistas só veem os aspectos negativos”.

Termos como “colapsologistas”, “profetas do apocalipse” e “catastrofistas”, entre outros, foram usados por personalidades do PPS para desqualificar as vozes progressistas — e até vários veículos de mídia — por sua interpretação do aquecimento global. “A mudança climática é um desafio. Mas precisamos parar com o alarmismo e de dizer que todos nós vamos morrer”, disse Yvan Pahud, deputado nacional do PPS pelo Cantão de Vaud. E Manfred Bühler argumentou que “se o aquecimento continuar, a Suíça terá, mais ou menos no ano 2100, o clima da Califórnia… E [lá] as pessoas não morrem como moscas. Pelo contrário, é uma região próspera”.

A maioria dos parlamentares do PPS entrevistados está otimista: a Suíça “saberá como se adaptar”. Eles estão confiantes de que inovações tecnológicas permitirão maior eficiência energética e defendem o desenvolvimento da energia nuclear, ao mesmo tempo em que criticam várias soluções existentes no campo das energias renováveis. Mas, no curto prazo, o que pode ser feito para combater os efeitos do aquecimento global? A resposta consensual dessa força de extrema-direita refere-se exclusivamente à “responsabilidade individual”. “Não se trata de forçar os cidadãos a consumir menos, já que essa atitude penaliza a economia. Isso nos empobrecerá”, dizem. .

Diante da realidade do aquecimento acelerado, outros partidos e governos de direita e de extrema-direita no continente europeu variam desde o ceticismo e o negacionismo climático da Aliança pela Alemanha (AfD) até “soluções pragmáticas”, como o retorno à energia nuclear, conceito promovido pela primeira-ministra italiana Giorgia Meloni.

Uma série de posições que, além de suas nuances, minimizam o impacto das mudanças climáticas, enfrentam diretamente as propostas dos setores progressistas para enfrentar o aquecimento global (sejam socialistas, ecologistas ou de esquerda radical) e tentam relativizar a responsabilidade da Europa no atual desastre climático global. Há momentos, inclusive, que partem para o ataque, diluindo seu negacionismo climático em discursos contra os partidos Verdes que, após uma década de expansão e de crescimento, nos últimos três ou quatro anos, perderam força em todo o continente.

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