Rio: A gramática da sentença dos “justiceiros”

O que matou Cláudio Rafael Pereira, em Copacabana, foi uma sequência de interpretações que transformou uma situação “ambígua” em certeza. A palavra de quem vale mais? É preciso convencer uma multidão de sua inocência para poder continuar vivo?

Por Jefferson Santana*, em Outras Palavras

Cláudio Rafael Landeiro Moreira saiu de casa, em Botafogo, na noite de 11 de agosto, para andar de bicicleta. A bicicleta pertencia à sua irmã. Algumas horas depois, estava caído no chão de uma rua de Copacabana, sendo espancado por homens que o haviam tomado por ladrão. Morreu no hospital, aos 37 anos, vítima de traumatismo craniano e hemorragia interna. As câmeras registraram a brutalidade: socos, chutes e dezenas de golpes com um pedaço de madeira. A polícia investiga quatro homens envolvidos no episódio; um dos seguranças já foi preso temporariamente.

A bicicleta era da irmã de Cláudio. Essa informação, aparentemente banal, é talvez o centro filosófico de toda a tragédia. Porque uma bicicleta não matou Cláudio. Tampouco foi a bicicleta, em sentido estrito, que provocou o linchamento. O que o matou foi uma sequência de interpretações que transformou uma situação ambígua em uma certeza, uma dificuldade de comunicação em indício de culpa e um homem em alguém que, para os seus agressores, já não precisava ser escutado.

Segundo familiares e reportagens sobre o caso, Cláudio tinha problemas psicológicos e dificuldades de expressão. Quando questionado sobre a bicicleta, não conseguiu explicar que ela pertencia à irmã. As imagens divulgadas mostram que, depois da abordagem inicial, ele foi agredido e posteriormente cercado por três homens, que o golpearam repetidamente até que caísse desacordado. Há algo assustador sobre essa sequência: Cláudio não precisou ser comprovadamente um ladrão para ser tratado como um ladrão. Bastou que, em determinado jogo de linguagem, essa descrição passasse a funcionar como se fosse uma certeza. É nesse ponto que o caso nos obriga a pensar para além da violência física.

Costumamos imaginar que a violência começa quando alguém dá o primeiro soco. Isso parece evidente: antes do golpe havia apenas uma suspeita; depois dele, a violência propriamente dita. Mas talvez essa cronologia esteja errada. Antes da paulada, houve uma sentença. Não uma sentença judicial, naturalmente. Uma sentença produzida informalmente no interior de uma situação cotidiana: “ele é ladrão”. A partir desse enunciado, tudo o que Cláudio fazia podia ser reinterpretado segundo a mesma chave. Sua dificuldade de explicar a procedência da bicicleta deixava de ser uma dificuldade de comunicação — que possivelmente resultado de uma deficiência intelectual (digo possivelmente porque ainda não é algo confirmado nos autos do processo) — e passa a funcionar como confirmação da suspeita. Sua presença deixava de ser a presença de um homem andando de bicicleta e passava a ser a presença de um suposto criminoso. Sua palavra perdia força justamente no momento em que mais precisava ser ouvida. O problema, portanto, não foi apenas uma informação falsa. Foi a produção de uma gramática da situação na qual determinadas coisas passaram a significar outras. A pergunta “de quem é essa bicicleta?” Poderia abrir diferentes caminhos. Poderia levar à resposta: “é da minha irmã”. Poderia levar a uma verificação. Poderia terminar numa constatação de engano. Mas, segundo os relatos sobre o episódio, a dificuldade de Cláudio em responder, produziu outro efeito. A ausência de uma explicação inteligível foi convertida em evidência de culpabilidade. O silêncio ou a dificuldade de fala passaram a significar culpa.

Santana e Silva (2025), Praxedes e Silva (2025) e Silva (2026) definem violência gramatical a partir da ideia de que regimes de dominação podem impor redes de inferências materiais que determinam o significado dos conceitos e, ao mesmo tempo, distribuem quem possui autoridade para falar, quem merece reconhecimento e quem pode ser excluído. O caso de Cláudio pode ser lido precisamente nessa chave. Não se trata simplesmente de dizer que os homens “usaram palavras violentas”. Ela aparece na própria estrutura inferencial que organizou a situação: não consegue explicar a bicicleta → deve estar escondendo alguma coisa → provavelmente roubou → é ladrão → deve ser aniquilado. Essa cadeia não é uma dedução lógica válida. É uma cadeia de inferência socialmente disponível. E é justamente por isso que ela é perigosa.

Uma gramática não precisa ser verdadeira para organizar a realidade. Ela precisa apenas ser fixada no imaginário popular por meio do compartilhamento entre e por meio das classes oprimidas para que determinadas conclusões pareçam naturais. Nesse caso, a pergunta sobre a bicicleta deixou de ser uma pergunta. Tornou-se um mecanismo de classificação. Cláudio foi colocado numa posição na qual sua palavra já não tinha o mesmo estatuto da palavra daqueles que o acusavam. O que estava em jogo, portanto, não era apenas o que Cláudio havia feito, mas quem tinha autoridade para dizer o que Cláudio era.

Há uma maneira muito particular de desumanizar alguém: não é necessariamente negar que ele seja biologicamente humano, mas negar que ele possa ocupar determinadas posições dentro de uma situação. Cláudio poderia ser um homem que pegou emprestada a bicicleta da irmã. Poderia ser um homem que não soube responder a uma pergunta. Poderia ser um homem com dificuldade de expressão. Poderia ser uma pessoa com deficiência intelectual ou transtornos mentais. Poderia ser simplesmente alguém diante de uma situação confusa. Mas, uma vez fixada a descrição de “ladrão”, essas possibilidades deixam de competir em condições de igualdade. A acusação passa a funcionar como uma certeza fulcral da situação: aquilo que não é mais colocado em dúvida e a partir do qual outras ações passam a parecer justificadas (Wittgenstein, 1969). É possível reconstruir, então, a tragédia em duas camadas: na primeira, ocorre uma violência de classificação, ou seja, um homem é convertido em ladrão sem que a acusação seja estabelecida. Na segunda, ocorre a violência física: aquele que foi classificado como ladrão passa a ser tratado de acordo com essa classificação. O segundo momento parece mais brutal, e é, porque deixa marcas no corpo e aniquila uma vida. Mas o primeiro é aquilo que torna o segundo inteligível para quem o pratica. É por isso que a paulada não é o começo da violência. A paulada é a materialidade de uma gramática.

Há uma ironia trágica no caso: depois de ser tratado como ladrão, Cláudio teve seus bolsos vasculhados pelos próprios agressores. As imagens registradas pelas câmeras mostram que os homens continuaram a agredí-lo mesmo depois de ele cair, deixando-o posteriormente agonizando no local. A violência corporal parece ter produzido, então, uma espécie de confirmação retrospectiva da acusação. Primeiro ele é suspeito. Depois ele precisa ser contido. Depois ele pode ser agredido e morto. Por fim, quando o corpo está no chão, se reflete: “era preciso fazer isso!”. A gramática produz ação e a ação, uma vez realizada, parece confirmar a gramática. É assim que determinadas formas de violência conseguem se reproduzir. Elas não precisam ser acompanhadas de uma teoria explícita sobre o outro. Basta que existam práticas capazes de transformar determinadas pessoas em sujeitos cuja palavra vale menos, cuja explicação é considerada suspeita e cuja presença é percebida como ameaça. O caso Cláudio é extremo porque essa transformação terminou em morte. Mas o mecanismo que o tornou possível não é necessariamente excepcional.

Seria confortável dizer que tudo não passou de um erro. Alguém confundiu uma bicicleta. Alguém interpretou mal uma resposta. Alguém tomou uma decisão precipitada. Mas “erro” é uma palavra pequena demais para explicar o que aconteceu. Erros podem ser corrigidos. Uma pessoa pode dizer: “espere, essa bicicleta é da minha irmã”. Outra pode responder: “ entendi, então me desculpe”. A situação poderia terminar ali. O que torna o caso monstruoso é que a possibilidade de correção foi substituída pela escala da violência. Quando uma suspeita se transforma rapidamente em certeza, e a certeza se transforma em autorização para agir contra alguém, não estamos mais diante de um simples problema de informação. Estamos diante de um problema normativo: quais são as regras que determinam quem pode ser acreditado e quem deve ser tratado como ameaça? É nesse sentido que a violência gramatical antecede a violência física. Ela estabelece, ainda que tacitamente, quem pode falar e quem será interpretado; quem merece explicação e quem precisa ser contido; quem é presumido inocente e quem precisa provar que não é culpado.

Uma pessoa não deveria precisar ser eloquente para ter seus direitos preservados. Uma pessoa não deveria precisar responder perfeitamente a uma pergunta para deixar de ser suspeita. Uma pessoa com dificuldades de comunicação ou, até mesmo, com deficiência mental ou transtornos mentais, não se torna menos digna de ser ouvida. E ninguém precisa convencer uma multidão de sua inocência antes de poder continuar vivo.

É aqui que a contribuição de Silva (2026; 2026) se torna particularmente importante. Seu conceito de alavancagem gramatical não se limita a identificar que determinados conceitos são opressivos. A proposta é intervir nos fulcro que sustentam uma determinada forma de vida, deslocando certezas naturalizadas e produzindo outras possibilidades normativas. Silva (2026; 2026) descreve, nesse sentido, diferentes níveis de resistência e modalidades de alavancagem gramatical, incluindo a redefinição conceitual e a criação de formas de resistência. Aplicada ao caso de Cláudio, isso significa deslocar a pergunta. Não devemos perguntar apenas: “como impedir que pessoas sejam tão violentas?”. Devemos perguntar também: “que gramática torna algumas violências imagináveis como respostas razoáveis?”. Se “não saber explicar” puder significar “é culpado”, temos uma gramática. Se “parecer suspeito” puder significar “pode ser agredido”, temos uma gramática. Se “ser considerado criminoso” puder significar “perdeu o direito de ser ouvido”, temos uma gramática. E se essas inferências puderem ser interrompidas, temos a possibilidade de outra gramática.

Cláudio morreu porque uma mentira foi tratada como certeza e porque essa certeza foi transformada em autorização para agir sobre seu corpo. Mas talvez sua morte também nos obrigue a enxergar algo que permanece invisível quando pensamos a violência apenas como agressão física. Antes de alguém ser golpeado, muitas vezes já foi golpeado no lugar em que sua palavra deixa de contar. A violência gramatical é esse golpe anterior. Ela não necessariamente deixa sangue no chão. Deixa algo mais difícil de perceber: uma distribuição desigual da credibilidade, da autoridade e do direito de aparecer como sujeito.


Referências bibliográficas

PRAXEDES, Fábio; SILVA, Marcos. Gaslighting como violência gramatical: uma leitura baseada na epistemologia Wittgensteiniana. Prometeus, v. 17, n. 47, 2025.

SANTANA, Jefferson; SILVA, Marcos. Sobre democracia racial, violência gramatical e certezas fulcrais: como um mito se torna regra no imaginário brasileiro. ethic@, Florianópolis, v. 24, p. 1–32, ago. 2025.

SILVA, Marcos. Soberania Gramatical e suas Alavancas. Kotter Editorial: Curitiba, 2026b

SILVA, Marcos. Da lâmpada à alavanca: por um inferencialismo e expressivismo periféricos. Sofia, Espírito Santo, Brasil, v. 15, n. 1, p.e15151834, 2026.

WITTGENSTEIN, Ludwig. On certainty. Ed. G. E. M. Anscombe e G. H. von Wright. San Francisco: Harper Torchbooks, 1969.

*Doutorando no PPGFil-UFPE. Bolsista FACEPE. Membro do grupo NormAtiva.

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