Em memória: Ivy Wiens, parceira de luta das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira

A alegria, a força e a dedicação marcaram sua presença nas comunidades e, todos os anos, na Feira de Trocas de Mudas e Sementes, em Eldorado (SP)

Equipe ISA 

Ivy Wiens doava sua energia e fala poderosa para agitar as celebrações e passava de barraca em barraca, de cada comunidade, para perguntar às lideranças com os nomes na ponta da língua e celebrar a diversidade: “o que vocês trouxeram pra feira esse ano?”

Das respostas, brotava o orgulho de cada roça plantada e colhida e os sorrisos de respeito e reconhecimento de que ocupar a Praça Nossa Senhora da Guia com a força quilombola era uma luta de valor.

Nos dias 14 e 15 de agosto deste ano, ela conduziu mais uma vez com toda a sua energia e sorriso acolhedor a 17ª Feira de Trocas de Mudas de Sementes, chamando cada quilombola pelo nome, indicando a sua profunda ligação com o lugar, mas sobretudo com as pessoas.

O momento da feira sempre coroou sua profunda dedicação e alegria à luta quilombola no Vale do Ribeira e à defesa da Mata Atlântica, desde o movimento de resistência à instalação da hidrelétrica de Tijuco Alto, projeto que teria impactos irreversíveis nas comunidades e que em 2016, após 28 anos de protestos, teve sua licença prévia rejeitada pelo Ibama.

Ivy e Leonila Priscila da Costa Pontes, poeta, agricultora e liderança quilombola, na Feira de Sementes em 2023
Ivy e Leonila Priscila da Costa Pontes, poeta, agricultora e liderança quilombola, na Feira de Sementes em 2023 📷 Claudio Tavares/ISA

Ivy nasceu em Itu (SP) em 25 de junho de 1978. Era militante da Marcha Mundial das Mulheres, relações públicas de formação e especialista em gestão pública e gerência de cidades, com mestrado em gestão ambiental. Mudou-se para o Vale do Ribeira em 2009, quando passou a trabalhar no Instituto Socioambiental (ISA) como assessora técnica para as comunidades quilombolas. 

Permaneceu na organização até 2020, e seguiu nos anos seguintes colaborando com atividades importantes do território, em especial com a produção anual da feira de trocas de mudas e sementes. 

“Ela sempre foi uma pessoa muito alegre e dedicada às coisas que ela fazia. Não deixava nada para trás. Gostava muito de ajudar as pessoas, muito carinhosa. Aquele sorriso dela vai ficar para sempre na mente das pessoas, no coração. Era uma pessoa do bem, de paz e de amor”, afirmou Valni de França, liderança do Quilombo São Pedro. 

Recentemente, Ivy atuou como professora de inglês e espanhol pelo Centro Paula Souza no Quilombo André Lopes, e passou a gerir a Casa do Rio, em Eldorado, um hostel para receber pessoas amigas e turistas e apresentar a região que se tornou sua morada e território.

“Ela criou aqui no Vale do Ribeira uma grande família quilombola. É uma perda muito grande. Uma grande amiga dos quilombolas”, afirmou Benedito Alves da Silva, o Ditão, liderança histórica do Quilombo Ivaporunduva.

Neste 28 de agosto, o ISA lamenta profundamente a partida precoce de Ivy e se solidariza às comunidades quilombolas do Vale do Ribeira em seu luto. 

Ela ofereceu durante sua vida o exemplo de que a luta, quando conduzida com alegria, é capaz de aproximar mundos, unir esforços e movimentar a defesa dos direitos das comunidades quilombolas.

*Texto em atualização.

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Troquei ideias muito poucas vezes com Ivy e apenas uma vez pessoalmente, num evento no Vale do Ribeira, Na ocasião, fomos apresentadas por um amigo comum, o defensor Andrew Toshio Ayama, da Defensoria Pública de São Paulo. Foi tudo muito rápido, mas deu para ver o tipo de relação que ela mantinha e como era reconhecida pelas comunidades da região, a vida e a garra de luta que emergiam dela. Por esse pouco contato, não pensaria que esta notícia para mim totalmente inesperada, da qual tomei conhecimento lendo a matéria do ISA, me pegaria fundo. E pegou.

Luz pra você, Ivy. E muita força para a sua família, que não conheci, e para todos os seus amigos, para a turma do ISA e para as comunidades da luta quilombola do Vale do Ribeira. Você permanece.

Tania Pacheco.

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