Documentário Usina Cambayba (RJ) movimenta debate sobre justiça de transição no MPF

Curta-metragem apresenta relatos sobre a ocultação e incineração de corpos de desaparecidos políticos na antiga usina de cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes (RJ)

Procuradoria da República no Rio de Janeiro

A busca por justiça, verdade e reparação, em defesa da preservação da memória dos mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar brasileira, foi tema da sessão-debate promovida pelo Ministério Público Federal (MPF). O evento, realizado no auditório do Memorial da Procuradoria da República no Rio de Janeiro na última terça-feira (15), exibiu o documentário Usina Cambayba, dirigido pelo cineasta Marcelo Fonseca.

O encontro contou com a participação de servidores públicos do sistema de justiça, familiares de mortos e desaparecidos políticos, defensores de direitos humanos, representantes de coletivos voltados à memória, verdade, justiça e reparação representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para um debate sobre as violações dos direitos humanos executadas por aparelhos repressivos do Estado durante os anos de chumbo no Brasil.

Ao iniciar a sessão, o procurador da República Julio Araujo destacou o compromisso democrático e educacional das exibições de filmes promovidas pelo MPF. “Nosso objetivo com esse tipo de evento não é só contemplativo, mas também impulsionar discussões sobre memória, verdade, justiça e reparação. No caso do filme ‘Usina Cambayba’, a questão da justiça de transição e violação de direitos humanos na ditadura”, declarou.

Usina Cambayba expõe relatos sobre a ocultação e incineração de corpos de desaparecidos políticos na antiga usina de cana-de-açúcar em Campos dos Goytacazes (RJ). Os fatos retratados no filme dialogam com casos de tortura e violência praticados na Casa da Morte, em Petrópolis, e no Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), na Tijuca, no Rio de Janeiro. Estes casos motivaram a propositura de ações penais pelo órgão.

O diretor Marcelo Fonseca falou sobre o processo desafiador de produção e distribuição do filme, marcado por tentativas de censura e intimidação. Para ele, o documentário reitera o papel do audiovisual na educação e preservação da memória do país. “O audiovisual contribui para a educação sobre o período da ditadura militar brasileira, principalmente entre aqueles que não viveram, mas que, em algum nível, defendem o retorno a um Estado que viola os direitos humanos”, destacou.

Fernando Sousa, cineasta e diretor executivo da Quiprocó Filmes, destacou a importância das leis de incentivo à cultura para a realização de projetos audiovisuais que abordam questões relevantes para o contexto brasileiro. “Essas medidas são fundamentais para o processo de descentralização da produção de filmes e para a revelação de novas histórias ao público”.

Dario Gularte, cineasta e representante do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação e do grupo Filhos e Netos RJ, ressaltou a importância de revisitar e divulgar os crimes praticados pelo estado durante a ditadura militar. “É preciso colocar esses acontecimentos em perspectiva para que os responsáveis pelo terrorismo de estado sejam devidamente punidos”, afirmou.

A investigação conduzida pelo Ministério Público Federal sobre o caso da Usina Cambayba resultou em denúncia contra Cláudio Guerra, ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Espírito Santo. Em 2023, ele foi condenado, em primeira instância, a sete anos de prisão por ocultação de cadáveres. A sentença, proferida pela juíza federal Maria Isadora Tiveron Frizão, foi premiada em concurso nacional do Conselho Nacional de Justiça.

Convidada à mesa de debate, Maria Isadora Tiveron Frizão, juíza federal no Rio de Janeiro, destacou a capacidade do documentário em tornar as informações do caso mais acessíveis ao espectador. “

A coordenadora nacional do MST/RJ, Amanda Matheus, relembrou a trajetória de mais de 20 anos de luta pela ocupação das terras da Fazenda Cambahyba. Em 2023, o território foi formalizado como Assentamento Cícero Guedes, em homenagem ao agricultor e ativista assassinado nas proximidades da Usina Cambahyba. “A Fazenda Cambahyba era símbolo do latifúndio improdutivo, da violência e degradação ambiental. Por meio da luta, o MST conquistou um assentamento onde as famílias estão construindo um projeto de vida capaz de proporcionar alimentação saudável e dignidade às pessoas que vivem lá “, relatou.

Lançado em agosto de 2026, o documentário Usina Cambayba é uma realização da Outrar Produções com apoio do Ministério da Cultura e do Governo Estadual do Rio de Janeiro, por meio da Política Nacional Aldir Blanc (Pnab).

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