Elaborado coletivamente por mais de 40 povos originários, o documento reúne orientações para combater estereótipos e práticas excludentes na cobertura das etnias e propõe uma relação mais próxima entre redações, jornalistas e comunidades indígenas. A Abrinjor, responsável pela publicação, também articula a distribuição do manual pelo país e a criação de uma formação acadêmica em jornalismo indígena
Por Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real
Manaus (AM) – A prática do jornalismo produzido por indígenas brasileiros ganhou mais uma importante ferramenta de inclusão no país: o primeiro manual de redação “Poranga Marandúa”, que na língua Nheengatu – da família Tupi-Guarani e originária da Língua Geral – significa “boa notícia”. O jornalismo não vive só de “boas notícias”, mas com o documento, os indígenas jornalistas querem evitar problemas recorrentes em diversos veículos da imprensa do país, como o uso dos termos “índio”, “tribo” e “selva”, e a repetição de pautas que apresentam os povos originários a partir da ótica do estereótipo e da extrema violência, sem o devido cuidado com a segurança de lideranças em denúncias as violações nos territórios.
A iniciativa inédita do “Poranga Marandúa” é da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor) que, em 2024, realizou um primeiro encontro com 30 profissionais, em Brasília. Na produção do manual de redação, 40 etnias participaram da elaboração do documento com orientações para uma cobertura que confronte o racismo nas coberturas jornalísticas e os estereótipos historicamente associados à identidade indígena na mídia brasileira.
A jornalista Luciene Kaxinawá, coordenadora da Abrinjor, explica que a partir desse encontro surgiu a ideia de criar o manual, cuja elaboração levou cerca de um ano e meio, entre reuniões, divisão dos capítulos, escrita e revisão coletiva. “A parte gráfica foi construída por uma indígena, a editora é uma editora do Instituto Kaingang, que é uma organização indígena do Sul do Brasil. Todo o manual foi pensado e elaborado por indígenas”, afirma.
Lançado oficialmente no último dia 10 de agosto, na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), a ideia de elaborar um manual de redação do jornalismo indígena, segundo Luciene Kaxinawá, surgiu da ausência de pluralidade na cobertura jornalística, que pouco fala sobre economia, geração de renda e valorização de saberes tradicionais dos 391 povos existente no país.
Os estereótipos e preconceitos
Embora o manual aponte diversas falas racistas e práticas inadequadas, a imprensa tradicional é duramente criticada por perpetuar padrões coloniais e absurdos que desumanizam, estereotipam e ridicularizam os povos originários. Entre as críticas mais contundentes presentes no documento, destacam-se: “a cobrança de ‘performance estética’ (“Índio de iPhone”):
Os indígenas jornalistas também criticam a mídia hegemônica e a sociedade “por questionarem a identidade de um indígena pelo fato de ele morar na cidade, ter formação acadêmica ou usar tecnologias cotidianas (como celulares de marca ou carros)”, diz o documento.
O manual também pontua que as culturas são dinâmicas e que, como dizia o líder Marcos Terena, um indígena “pode ser quem você é, sem deixar de ser quem ele é.”.
Para Luciene Kaxinawá, “[a imprensa e sociedade] Nos colocam sempre em uma caixinha, onde nós temos uma cultura única descrita nas reportagens e matérias pela mídia, que alimenta um estereótipo que não existe.”
Segundo ela, as notícias não contemplam a diversidade e a pluralidade dos povos indígenas. “As pessoas acham que só existe indígena na Amazônia, a ideia é desmistificar isso e mostrar que há indígenas em todo território brasileiro, e que nós temos culturas diferentes uma das outras.”
Ela diz que na produção do manual também foram considerados os diferentes contextos culturais e territoriais para a elaboração das diretrizes da publicação.
“O manual funciona também como material educativo para que jornalistas e comunicadores não-indígenas compreendam as formas próprias de representação e organização de cada povo indígena antes de produzir suas reportagens.”
Luciene destaca que esse cuidado diz respeito à forma como o jornalista escolhe e se relaciona com as fontes, pois é preciso compreender as hierarquias existentes em cada comunidade indígena e respeitar quem possui legitimidade para falar sobre determinado assunto ou sobre seu povo.
”Precisa ter o entendimento do tempo dos nossos caciques, saber as hierarquias. Entender que um indígena não fala pelo povo inteiro, ele tem que ter o aval da liderança e dos demais da comunidade para poder falar do seu povo. Não é qualquer pessoa que pode falar pelo seu povo, tem as hierarquias e seus representantes”, explica.
Para a realização da produção do manual “Poranga Marandúa”, a Abrinjor contou com o apoio de organizações como Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME), Nia Tero, Proteja, Instituto Kaingang (INKA) e Imaginable Futures. A Climate and Land Use Alliance (CLUA) participou da iniciativa na tradução das versões em inglês e espanhol, que serão lançadas posteriormente.
A Abrinjor, criada em 2022, reúne atualmente 70 indígenas, mas iniciou com 65 pessoas, entre jornalistas e estudantes de diferentes povos e biomas brasileiros: Amazônia: 30 integrantes; Cerrado: 14; Caatinga: 10; Mata Atlântica: 9; Pampa: 1; e Pantanal com 1. Os nomes de todas as etnias que eles representam estão inseridos no manual de redação.
Uma outra forma de fazer jornalismo
A construção do manual “Poranga Marandúa” foi coletiva. Recebeu contribuição de indígenas jornalistas de todas as regiões do Brasil, resultado de um processo de discussão sobre como a imprensa brasileira se relaciona com os povos indígenas, muitas vezes de forma equivocada e violenta.
Segundo Ykarunī Nawa, co-coordenador da Abrinjor, a proposta não é criar um documento de confronto com a imprensa, mas estabelecer outras possibilidades de relação entre jornalismo e povos indígenas.
“O ‘Poranga Maranduá’ não é um manual de ataque ao jornalismo. É um manual de diálogo, de parceria, de confiança no jornalismo. A gente acredita e propõe justamente uma outra forma de jornalismo, porque a gente acredita que o jornalismo pode sim ter uma prática mais ética, respeitosa e de combate ao racismo”, destacou.
Essa mudança, conforme Ykarunī, também passa pela inserção de indígenas jornalistas nas redações, mas não pela ideia de que um único profissional possa representar todos os povos. O objetivo é ampliar o diálogo intercultural na produção jornalística e reconhecer os povos indígenas como participantes da construção do conhecimento produzido pela imprensa.
“Se o jornalismo é produtor de conhecimento, o diálogo com os povos indígenas nessa produção de conhecimento é fundamental para poder ter a transformação da realidade social do mundo, principalmente onde os povos indígenas vivem, que na maioria das vezes tem sido um lugar violento para as pessoas, corpos e vivências indígenas. A presença indígena nas redações é algo que o manual apoia bastante”, disse.
Há indígenas nas redações?
O debate proposto pelos indígenas jornalistas no manual “Poranga Marandúa” levanta não só ao apontamento dos termos coloniais e racistas e orientações de linguagem, mas também à presença indígena nas redações e a necessidade de uma relação mais próxima entre jornalistas e territórios indígenas.
A Abrinjor ainda está levantando dados sobre a presença de indígenas jornalistas indígenas no mercado de trabalho, mas já identifica profissionais atuando na comunicação de instituições como Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Defensoria Pública da União (DPU) e Organização das Nações Unidas (ONU), além de portais e veículos independentes.
Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), no Brasil existem cerca de 55 mil jornalistas em exercício ativo. Um dos dados levantados pela Abrinjor mostra uma exclusão nesses números: apenas 0,1% dos cargos de liderança em veículos brasileiros são ocupados por indígenas.
De acordo com Luciene Kaxinawá, a maioria está trabalhando na mídia independente, enquanto ainda há pouca presença na imprensa tradicional. “A gente quer mudar essa realidade, quer aumentar a presença indígena nos veículos de comunicação e também na parte de cargos de liderança”, disse.
Ykarunī Nawa acredita que um dos principais desafios é fazer com que as redações não percebam indígenas jornalistas apenas como profissionais destinados à cobertura de pautas étnicas. A proposta do jornalismo indígena, segundo ele, é ampliar a perspectiva desses profissionais para diferentes editorias, como política, economia e saúde.
“A gente não fala de uma editoria indígena, de uma produção somente sobre povos indígenas. A gente fala de uma presença de impacto na produção noticiosa a partir da perspectiva indígena. A questão étnica é o nosso olhar, não diz respeito à restrição da nossa produção”, defendeu.
Como acessar o manual
Depois de lançado, o próximo desafio é fazer o manual dos jornalistas indígenas chegar a quem produz notícia nas redações de meios tradicionais e independentes, que representam os diversos segmentos existentes atualmente: do jornal impresso, passando pelas emissotas de rádio e TV, além dos sites de notícias online.
A Abrinjor disponibilizou a publicação gratuitamente na internet e também trabalhou com exemplares impressos, que começaram a ser distribuídos para instituições e organizações, entre elas EBC, Rádio Nacional, Agência Brasil, Ministério da Cultura, Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), DPU, Funai e Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
A associação prevê ainda visitas e entrega de exemplares a veículos de comunicação em São Paulo e Rio de Janeiro e afirma estar elaborando um plano estratégico para ampliar o alcance da publicação. “Estamos na elaboração de um plano estratégico para que a distribuição alcance o maior número de pessoas sejam elas educadores, acadêmicos, jornalistas e sociedade civil como todo, porque o manual não é só para jornalistas, mas todos que comunicam com, para e sobre povos indígenas no Brasil”, disse Luciene Kaxinawá.
Entre os próximos passos dos indígenas jornalistas está a articulação com a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso Brasil) para a criação de uma formação acadêmica em jornalismo indígena. A proposta surgiu após a elaboração do manual e, segundo Luciene Kaxinawá, a instituição acolheu a demanda. A intenção é que jornalistas indígenas participem da construção do curso e que a formação também seja levada a veículos de comunicação, sindicatos e universidades.
“A articulação está em busca de melhorias para nossa categoria, e reconhecimento como indígenas jornalistas. Existe um jornalismo indígena, já é um avanço muito considerável para nós. O manual em si é uma grande conquista para nós, porque foi um grande trabalho coletivo, de bastante tempo e de muito trabalho árduo de quem esteve à frente”, manifestou a coordenadora da Abrinjor.




