Machosfera: Músculos, corações explosivos e mentes aflitas. Por Susana Prizendt

Estimulado por farmacêuticas, big techs e indústria alimentícia, estereótipo de masculinidade precisa se materializar num ideal de corpo inalcançável. O resultado: misoginia e epidemia de mortes precoces de jovens. Agroecologia pode oferecer outro caminho

No Outras Palavras

A foto no perfil do Instagram apresenta um corpo compacto, em que os bíceps hipertrofiados saltam aos olhos – e parecem saltar até aos próprios braços, tamanha a desproporção. A pele que os recobre parece que vai estourar de tão esticada e as veias e tendões se destacam, formando um estranho desenho em 3D. Se a imagem equivale à fisionomia de alguém real ou não, é algo que já não é tão evidente. Com o desenvolvimento da Inteligência Artificial Generativa, as fronteiras entre o que existe materialmente e o que se reduz ao universo digital foram borradas – e, para uma parcela da sociedade, talvez nem se queira mais delimitá-las.  

A busca por um corpo ideal não é algo novo. Cada época da história teve seus padrões relativos ao que é ou não desejável para os seres humanos do sexo masculino e feminino. O terror do uso do espartilho pelas mulheres no período medieval, espremendo seus abdômens para moldar uma cintura idealizada, demonstra que nem sempre esses padrões eram minimamente saudáveis. No mundo capetalista, essa padronização (que não precisa ser única e pode ter nichos junto a determinados públicos) está atrelada não apenas ao poder e ao status, mas à geração de robustos rendimentos financeiros, através de um mercado em constante mutação.  

Se uma pessoa que tem pernas grossas desembolsa uma grana parruda para comprar produtos zero, na esperança de “obter” pernas mais delgadas; e outra se mata no levantamento de peso porque tem pernas delgadas e deseja o contrário, certamente “alguéns” estão lucrando (e muito!) com o estímulo a essa insatisfação generalizada na sociedade. Existe até quem lucre nas duas pontas, ganhando com a venda do que contribui para gerar o problema e com a venda do que poderia atenuá-lo, como acontece frequentemente na indústria química, que produz, ao mesmo tempo, o veneno tascado na comida e o remédio para controlar seus efeitos horrorosos na saúde. 

Voltando à esfera do desejo, gerar descontentamento para vender a ilusão de saná-lo é um pilar básico da sociedade de consumo. Nada como estimular a perseguição de um ideal inatingível para manter pessoas comprando produtos, usando serviços e sugando conteúdos midiáticos às toneladas. E isso é reforçado com a veiculação da ideia de que não existe alternativa ao capetalismo, apesar de todas as suas desgraças, e de que o colapso ambiental não poderá ser mitigado, mesmo se mudarmos nossos hábitos. Com o fim do mundo chegando e o aprofundamento da sensação de impotência para impedir sua chegada, para quê se preocupar com o futuro, inclusive o do próprio corpo?  

Cultivar o imediatismo não apenas impulsiona a produção e o consumo de uma massaroca de coisas não duráveis, mas gera também um efeito ambíguo sobre a própria percepção do cuidado consigo e com os demais. De um lado, há a busca por se adequar a certos padrões e, para isso, é preciso transformar a própria vida de forma acelerada, não importando muito as consequências a longo prazo geradas pelas medidas tomadas. De outro, há um anseio por se destacar em meio a uma massa de gente que persegue ideais semelhantes e se coloca em exposição contínua nas redes internéticas.  

Nesse redemoinho, a relação com a própria corporalidade fica sujeita a essas forças – que são externas à sua constituição e ao seu ritmo biológico, e podem violentá-la. Essa violência pode se estender para o entorno e acabar repercutindo na esfera coletiva, como veremos mais para frente.  

Crescendo e aparecendo 

A visão estereotipada do ideal de masculinidade na história da sociedade ocidental sempre envolveu a presença da força. Homens precisam ser fortes, por dentro e por fora, e ponto final. Isso significa que não podem manifestar seus sentimentos livremente, reconhecer que estão errados, muito menos ficar em posição considerada inferior à posição ocupada por mulheres. E essa fortaleza deve ser materializada em um corpo grande e rígido, transbordando virilidade, o que se traduz em músculos ultrabombados.  

Se a percepção do tempo está dominada pela velocidade das novas tecnologias – com seu rolar infinito das telas e sua simulação de realidades fake -, não há espaço para processos lentos de transformação. Há que se forçar braços e pernas a mostrarem uma musculatura volumosa logo, desconsiderando seus processos naturais próprios e seus limites. Mas, como a maioria de nós está nas cidades e não tem uma rotina de atividades que movimentam o corpo com vigor e constância, a tendência é que nossos músculos experimentem justamente o contrário, e se enfraqueçam.  

O caminho encontrado pelos habitantes urbanos, para não enferrujar em frente aos computadores ou nos bancos dos veículos de transporte para o trabalho, é estabelecer um programa de exercícios físicos para encaixar na rotina. No caso de quem quer ter um corpo com a musculatura hipertrofiada, o que se costuma fazer é mesmo puxar ferro, seja em casa ou em uma academia. Disciplina, constância e paciência são pré-requisitos básicos para obter resultados positivos, algo que leva tempo – e não significa ficar igual ao influencer seguido nas redes digitais.  

Sabemos que genética, condições sociais na infância, alimentação, sono e outros fatores têm influência decisiva no processo de desenvolvimento físico e psicoemocional. Além disso, há a biologia para botar limites na visão fantasiosa de quem quer inflar os músculos de um dia para o outro, e ela já nos mostrou inúmeras vezes que a natureza não funciona como o ser humano quer. Assim, vemos a todo instante a frustração de quem acreditou no guru do momento e imaginou que ficaria igual a ele apenas seguindo seu roteiro de maromba.  

E é aqui que um determinado mercado, que vem estufando no ritmo que essas pessoas desejam que ocorresse com seus bíceps, entra nessa história. Trata-se do mercado dos esteróides anabólico-androgênicos (EAAs), compostos sintéticos ou naturais normalmente usados para repôr o principal hormônio do corpo masculino, a testosterona. Em apenas 5 anos, as vendas no Brasil aumentaram 670%, como mostra um levantamento feito pelo jornal Valor junto à ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); um salto de cerca de um milhão (2018) para mais de 7 milhões (2023) desses medicamentos comercializados legalmente.  

Os números podem estar bem abaixo da realidade porque as vendas de algumas das empresas fabricantes não foram computadas. E há o que é produzido e comercializado sem regulamentação em “laboratórios” improvisados, circulando em um comércio clandestino online ou até nas próprias academias, inclusive nas periferias, onde é chamado de “suco”.  

Esse mercado em expansão atende à ânsia em obter resultados rápidos e à vontade de chegar a um nível de hipertrofia que vai muito além do que é comum na população – inclusive do que é comum em quem treina do modo chamado de natural, ou seja, livre de EAAs. Só que o combo “crescer e aparecer” cobra um preço salgado, em grana e em consequências complicadas para o organismo de quem se joga nessa aventura. 

Em algum lugar a bomba estoura 

Todas as vezes que o ser humano tenta forçar a natureza a sair de seu ritmo, ela reage. Frequentemente, essa reação costuma ser bem diferente da que era desejada – e lidar com ela torna-se um novo desafio. Estamos vendo isso em nossa relação com o ambiente planetário, já que ele nos mostra inegavelmente que nossa pegada ecológica (inflada pelo estilo de vida dos bilionários) é insustentável, e que desacelerar a extração dos chamados recursos naturais é inevitável para sobrevivermos como espécie.  

Exigir que um determinado lote de terra produza mais (e mais velozmente) do que seria produzido naturalmente, não importando os danos ao seu equilíbrio, é a base do modelo imposto pelo Ogronegócio. A plantação, feita com sementes geneticamente modificadas, é entupida de fertilizantes químicos e de agrotóxicos, para que as espécies escolhidas se desenvolvam exponencialmente, eliminando as demais.  

O resultado está aí: empobrecimento do solo, perda da biodiversidade, aumento da resistência por parte do que se considera praga, contaminação e adoecimento. É apenas com o aumento do uso desses produtos, a expansão de suas fronteiras e a absorção de musculosos subsídios governamentais que o sistema se mantém, permitindo a exportação de 132,8 milhões de toneladas só de soja em 2025, novo recorde histórico.  

Em relação aos elementos ingeridos ou injetados no território íntimo que é o corpo humano, existe a mesma tendência de gerar desequilíbrio quando se quer forçá-lo a adquirir uma condição irreal para sua constituição. Não foram poucos os casos de pessoas que perderam a vida, ao se lançarem em processos radicais de transformação, como cirurgias plásticas e dietas restritivas. No caso de anabolizantes, podemos dar uma olhada no que acontece com fisiculturistas de elite.  

Enquanto práticas regulares de musculação e de outras atividades físicas estão relacionadas a uma melhor condição de saúde, o comportamento extremo de pessoas adeptas do fisiculturismo está ligado ao aumento de problemas no organismo e até à diminuição da expectativa de vida. Atingir um tamanho agigantado e uma força descomunal exige o consumo intenso desses esteróides e de muitas outras substâncias, como diuréticos e estimulantes, sobretudo quando o tempo é curto. 

Uma das consequências já muito bem documentada desse uso é a sobrecarga cardiovascular. Sofrer um ataque cardíaco aos 30  anos não é algo que gera surpresa na classe médica quando se trata de “atletas” desse setor. Recentemente, o caso da morte de um jovem de 22 anos (que tinha mais de um milhão de seguidores/as e era referência no setor marombado) deu visibilidade a esse debate, que costuma se desenrolar sem ecoar fora do seu circuito.  

No entanto, o conhecimento sobre esse drama não deu as caras hoje. Já em 2000, a Revista Internacional de Medicina Esportiva publicou um estudo com dados alarmantes. Em um período de 12 anos, o índice relativo à mortalidade constatado foi de 12,9% para os levantadores de peso acompanhados pela pesquisa. É quatro vezes maior ao que foi obtido em relação ao grupo de controle, formado por não fisiculturistas.  

Outro amplo levantamento, registrado na revista JAMA em 2024, analisou usuários de EAAs por 11 anos e comparou os dados encontrados com os de não usuários. A mortalidade em geral de quem fez uso dessas substâncias foi cerca de 2,8 vezes maior que a do restante. E esse número aumenta para 3,6 vezes, quando comparamos apenas a mortalidade associada a suicídios, homicídios e acidentes, fatores relacionados a desequilíbrios psíquicos. Assim, é possível perceber que além dos próprios usuários, outras pessoas também são afetadas por esse uso indevido, já que podem ser vítimas de confrontos violentos provocados por eles.  

O mantra entoado por quem acha que se trata de uma escolha pessoal – “cada um faz o que quiser consigo mesmo” – cai por terra quando vemos que as consequências não se restringem aos territórios corporais de quem usa esteróides. Além disso, há o impacto na saúde pública, que terá que atender aos problemas físicos e mentais vivenciados por esse público. E, dada a identificação de muitos desses usuários com ideologias reacionárias, a bomba pode estourar no colo das mulheres. 

Pau nas diferenças      

O recrudescimento da misoginia e do feminicídio nos últimos anos é expressivo. O velho ódio ao sexo feminino tem surfado na onda dos ideais de ultra-direita que tomaram boa parte do mundo, sobretudo os EUA – país cujo Ministério da Guerra anda vetando a liderança de mulheres e pretende implantar um programa para reforçar a testosterona dos integrantes de suas forças armadas, de modo a aumentar sua agressividade e, claro, a grana na conta da Big Pharma.  

Acusadas de mentirosas, manipuladoras, interesseiras, destruidoras da família tradicional e dos bons costumes, nós mulheres devemos ser postas no cabresto, nem que seja na base da porrada. Tudo o que conquistamos (e sabemos bem o preço pago pelas conquistas e o quanto ainda falta para conquistar) teria que ser retirado de nós, para que o patriarcado voltasse a exibir quadríceps avantajados, restaurando a ordem e a moralidade perdidas.  

As frustrações provocadas por um modelo econômico que promete maravilhas (como as mostradas nas redes virtuais) e distribui pedradas (como trabalho precário, serviços desestruturados por privatizações e profunda insegurança em relação ao espaço e ao tempo em que se vive) são canalizadas para alvos convenientes ao sistema. Entre eles, encontramos o corpo feminino.  

Historicamente visto como mais fraco e mais “ligado ao pecado”, ele pode e deve ser controlado pelos homens, sobretudo pelos considerados grandes, como os musculosos, ricos e famosos que se destacam como influencers. Desse modo, os anabolizantes que povoam a machosfera fazem parte de um movimento de negação a tudo que pode ser considerado manifestação de fraqueza – caraterística que seria exclusivamente feminina, física e emocionalmente falando, incluindo a parte que é referente ao caráter.  

No circuito de machos bombados, seja em que estágio a pessoa estiver (e pode ser apenas o do desejo de pertencer a ele), o que é valorizado é a grandeza. Alguém grande deve ser entendido como um homem ultra musculoso, ultra (re)conhecido, ultra rico e ultra bem sucedido em tudo, incluindo suas relações com as mulheres, com os negócios e com o mundo plataformizado. Nesse sentido, atingir a grandeza é poder ter (e demonstrar que se tem) uma vida identificada como a ideal pelo macho alfa contemporâneo, aquele que é vencedor – ou melhor, aquele que é invencível (e imbrochável!). 

O processo de construção desse ideal de ser humano traz na sua rabeira a intolerância com quem não segue seus passos. Não são apenas as mulheres que são discriminadas, mas também a comunidade LGBT+ e os povos tradicionais, cujos corpos-territórios não se encaixam na estética masculina preconizada. Se os bombados são os vencedores, essas outras pessoas são vistas como as perdedoras – ou losers, em língua de gringo.  

Uma das características do fascismo é desumanizar quem é diferente. Ao ser coisificado, um ser pode ser atacado e destruído sem remorsos. Se pensarmos nestes tempos de multiplicação de agentes de IA, com quem se pode interagir sem o menor cuidado ou respeito, há um impulso para o desenvolvimento de relações desumanizadoras, que podem se estender aos seres humanos de carne e osso. Por isso, e voltando ao tratamento dado às mulheres, é bom prestar atenção no modo como muitos homens másculos “falam” com suas Alexias ou suas Siris, assistentes virtuais submissas aos seus comandos.    

Quando alguém acha que seu tamanho e sua fama dão aval para que possa acelerar carrões caríssimos, provocar acidentes e colocar a vida alheia em risco, tornar-se um modelo para uma juventude emocionalmente vulnerável, através de canais com milhões de seguidores/as, é alimentar uma sociedade perturbada, competitiva e autoritária. Todos/as perdemos com isso.  

Explode coração  

Em 2023, o Conselho Federal de Medicina decretou a proibição do uso de anabolizantes para fins estéticos, já que é impossível assegurar as condições de saúde de pacientes que fazem uso deles sem necessidade clínica.  

Quem resolve insistir no uso inadequado, têm aumentados os riscos das seguintes tretas: queda de cabelo, acne, trombose, embolia, elevação do colesterol ruim (LDL); redução do colesterol bom (HDL), resistência à insulina, insuficiência renal, diabetes tipo 2, ginecomastia, hepatite medicamentosa, cirrose, infarto e AVC. E vale destacar, ainda, a diminuição da fertilidade, algo que deveria ser caro aos que tanto cultuam a virilidade. Portanto, as alterações estéticas almejadas pelos usuários são acompanhadas de alterações no organismo como um todo, principalmente em alguns órgãos vitais. 

Um dos efeitos físicos mais característicos de quem abusa dessas substâncias é a hipertrofia ventricular: o aumento do tamanho do coração (ele pode mais que dobrar de peso e ficar próximo ao tamanho do coração de uma anta, maior mamífero terrestre nativo). Como os demais músculos do corpo, quando está sob à ação de esteroides, ele sofre um estímulo para crescer e se torna mais espesso e endurecido, dificultando o bombeamento do sangue. E o problema não atinge só quem usa por muito tempo, já que as deficiências cardiovasculares podem ser sentidas a partir da quarta semana de utilização.  

O processo é ainda mais traiçoeiro porque engana suas vítimas. Elas costumam se sentir mais dispostas, vigorosas e energizadas, enquanto o órgão vai sendo atacado. No momento em que os sintomas (como dores no peito, dificuldades respiratórias e até desmaios) começam a ser percebidos, é comum os danos já estarem em um estágio muito difícil de reverter. Vale lembrar que uma outra impossibilidade de reversão ocorre com a produção natural de testosterona, que cairá abaixo do que seria normal, caso se interrompa o uso (questão sensível para quem se apresenta como imbrochável). 

Além disso, o estrago pode ser ampliado da esfera individual para a coletiva porque muitas das pessoas usuárias costumam postar seus feitos nas redes virtuais, transmitindo uma ideia de saúde totalmente inconsistente para quem as admira e deseja seguir seus passos. Ao menos até que seus corações “explodam” no peito mega turbinado e, por um curto tempo, um alarme soe na mídia do setor, logo perdido nos feeds controlados pelas Big Techs.  

Considerando que o órgão é simbolicamente associado ao amor e à generosidade, fica parecendo um contra senso que pessoas narcisistas, competitivas e intolerantes (como boa parte da machosfera marombada) possam ter um “coração enorme”. Mas a verdade é que, à medida que ele cresce, começa a perder sua elasticidade, dificultando o relaxamento necessário ao processo do batimento. Essa inflexibilidade física pode ser um símbolo mais coerente em relação à inflexibilidade psicoemocional/ideológica de quem desfila seus egoísmos e preconceitos em perfis seguidos por uma trempe de garotos ansiosos por referências de homens bem sucedidos.  

Mas, se voltarmos à questão do tamanho ampliado do órgão, talvez o que esteja ocupando esse “espaço emocional”, agigantando-o, seja algo muito diferente dos sentimentos amorosos socialmente convencionalizados. E sentimentos, sejam quais forem, também estão rotineiramente relacionados a outro órgão do corpo: o cérebro.  

Martelando o crânio  

A revista Frontiers in Communication publicou um estudo científico sobre a Geração Alfa, formada por pessoas nascidas entre 2010 e 2024. Elas são consideradas a primeira geração totalmente “platform-native”, ou seja, constroem suas identidades na interação com as plataformas digitais, algo muito além de usar as ferramentas tecnológicas para determinadas finalidades, como obter informações ou entretenimento.  

As relações que elas estabelecem com outras pessoas, a linguagem que adotam, a percepção do tempo… tudo passa a ser referenciado pelas dinâmicas do universo online. E, como sabemos, essas dinâmicas são moldadas para viciar, envolvendo a criança ou adolescente em um labirinto personalizado, de acordo com algoritmos criados para maximizar sua permanência nessas plataformas.  

É essa mistura contínua de socialização, aprendizado, consumo e diversão, sempre condicionada e direcionada pelos interesses das Big Techs e de seus clientes, que irá influenciar decisivamente na formação de um determinado eu, a ser incorporado por pessoas cujo organismo ainda está em formação. Nesse meio vampiresco, podemos dizer que vício puxa vício. No artigo Big Techs e Big Foods – um casamento lucrativo, eu já havia esmiuçado as relações nada saudáveis para a sociedade entre essas gigantes.  

Quanto mais viciado/a na internet, mais tempo online, mais anúncios absorvidos, mais estímulo ao consumo de ultraprocessados (UPPs), certo? E quanto mais se ingere esses preparados lotados de aditivos, mais se quer devorá-los, devido a alterações no paladar e no próprio funcionamento do cérebro. Sem comida nutritiva, a cognição de um ser humano fica prejudicada e mais facilmente ele/a irá se ligar em conteúdos superficiais e distorcidos, inclusive aqueles que fazem apologia à violência e à discriminação.  

Neurônios condicionados, papilas gustativas moldadas, a juventude fica mais e mais sujeita aos complicômetros contemporâneos, como obesidade, ansiedade e depressão. É o pacote perfeito para gerar insatisfação com a própria vida, que costuma ser canalizada para o próprio corpo. No caso masculino, pode produzir os gatilhos ambientais que ajudem a desencadear  a ocorrência de vigorexia, uma doença em que a pessoa se sente mais fraca do que é, sofre com essa percepção e se lança em processos que podem ser perigosos.  

Só tendo em vista esse mecanismo esmagador é possível entender que existem multidões de adolescentes envolvidos com o que é chamado de Looksmaxxing, uma corrente estética que busca maximizar as características consideradas masculinas para aumentar a atratividade. Segundo um monitoramento do conteúdo de uma dessas comunidades (que é visitada por 6 milhões de pessoas ao mês), publicado na revista Sociology Health & Illness, o predomínio é de incitações a procedimentos agressivos, incluindo autolesões – como martelar repetidamente a própria mandíbula, procedimento que supostamente a deixaria mais acentuada, prática conhecida como “bone smashing”.  

E tudo regado a insultos e a ridicularização de quem não adere ao que é pregado e não conquista as condições físicas que representam a virilidade almejada. Sob esse bombardeio psicoemocional, começar a se envolver com outras “bombas”, agora na esfera material, acaba sendo um dos caminhos encontrados para a auto-afirmação desses jovens.  

Isso tem acontecido cada vez mais cedo, tornando o processo ainda mais conflituoso, já que o uso precoce causa a interrupção do crescimento dos ossos e faz com que o jovem fique menor em altura do que seria o esperado para sua constituição natural. É algo que tem entrado na rotina em nosso país, onde 1 em cada 16 estudantes já utilizou anabolizantes, incluindo os que estão no ensino fundamental (menores de 15 anos). 

Vale lembrar que, nesse meio, os passos para encontrar os EAAs estão todos dados, não sendo difícil driblar as leis, como mostram seus gurus em posts abertos ou em cursos pagos. Ao experimentar essas bombas na juventude, a chance de se tornar dependente é maior, lembrando que o índice para adultos (30%) já é bem alto comparado com outras drogas, como a cocaína (25%). Então, os tais ciclos (períodos de administração dos EAAs) vão se sucedendo, envolvendo doses cada vez mais altas – e as consequências podem ser fatais. 

Do ciclo mortal para o ciclo vital 

Ao vermos  influencers famosos, ricos e fortes, patrocinados por empresas que fabricam produtos para acelerar o aumento dos músculos, nossa tendência é condená-los pelos danos que provocam, ao estimular outras pessoas a entrar nesse furacão. Mas é preciso olhar com atenção para eles. No fundo, também são peças manipuladas, arrastadas em uma engrenagem que mastiga cérebros e corações. Afinal, o mercado “juicer”, como é chamado nos EUA o que envolve os “tomadores de suco”, faz parte de um sistema que se sustenta com a proliferação de polêmicas e extremismos, principalmente do tipo visualmente chocante.  

Ao serem levados a submeter seu próprio corpo a processos não saudáveis para conquistar e manter seguidores/as, eles mesmos se tornam um produto, ficam reféns dos personagens que criaram e têm que jogar o jogo sujo que garante essas existências performáticas. Portanto, o vício fisiológico e a prisão psicoemocional e econômica se entrelaçam. Atrás desse palco, em que desfilam músculos e egos parrudos, iremos encontrar outros elementos turbinados: os bolsos dos grandes acionistas de Big Techs, Big Pharma e Big Foods.  

É dessa forma que a plataformização da vida de muitos jovens (emocionalmente vulneráveis, em uma sociedade que não acolhe seus anseios e parece prestes a ruir) os aprisiona em um ciclo de agressividade para consigo e os/as demais, torturando o próprio corpo em um circuito de adoecimento que os aproxima de uma morte precoce. Como escreve Catherine Shannon, “os espelhos ao nosso redor, especialmente os tecnológicos, nos dividem uns contra os outros — e isso é desestabilizador e perigoso”.  

Enfrentar esse universo multi espelhado, que nos escraviza, nos antagoniza e nos consome, é um desafio existencial que passa pela luta contra os mecanismos político econômicos que permitem a exploração ininterrupta de corpos, emoções e mentes por uma elite tecnológica disposta a sugar nosso planeta até o osso, como podemos perceber com a multiplicação dos data centers mundo afora. Sobretudo em ano de eleições, quando nosso país vai definir quem ocupa o Congresso Nacional e as cadeiras do executivo no planalto central e nos estados, é preciso expor essas entranhas. 

São ações indispensáveis e urgentes: regular as plataformas digitais; desmontar as redes ilegais e reduzir a influência das redes legais de produção e venda de substâncias danosas; criar programas de prevenção e cuidado; combater a misoginia e a homofobia em suas raízes; incentivar e dar condições para a prática saudável de exercícios; ampliar o acesso à alimentação de qualidade; coibir a publicidade de ultraprocessados e, principalmente, abrir portas para que a juventude possa encontrar caminhos de atuação coletiva em torno de uma agenda construtiva, que a permita lidar com os desafios atuais. 

É nesse sentido que os movimentos agroecológicos podem ser acionados e apoiados pelo poder público. Eles trazem outra perspectiva de existência, promovendo a integração dos seres humanos com os demais seres que coabitam nosso mundo. Trabalham com a criação de outro tipo de ciclo. Ao invés do ciclo individual e agressivo das bombas da máfia farmacêutica, eles reverberam o ciclo que alimenta  a vida.  

Se os “sucos” tomados pelos marombados adoecem seus corpos e suas mentes, gerando o aumento da violência e da infertilidade, os nossos sucos da terra, feitos com alimentos biodiversos cultivados pelas mãos camponesas, podem impulsionar a recuperação da saúde das pessoas, da sociedade e da natureza. Porque, de fato, realizar a Transição Agroecológica envolve a transformação das relações do ser humano consigo mesmo, com os demais seres humanos e com a teia heterogênea de viventes que estrutura nossa existência planetária compartilhada.  

Como no caso dos venenos agrícolas, não há uso seguro de EEAs. Então, temos que (e vamos!) trabalhar firmemente para substituir as bombas tóxicas, que estão sendo usadas na guerra travada contra o próprio corpo e contra nossa Casa Comum, pelas bombas de sementes crioulas que vão turbinar naturalmente a fertilidade da vida!

Susana Prizendt – Arquiteta e urbanista, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida (CPCAPV) e do MUDA-SP.

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