O filósofo negro que quer rever as reparações coloniais

Entrevistamos Olúfémi Táiwò (Femi). Nascido nos EUA, com raízes nigerianas, ele dispara: para reverter os desastres do eurocentrismo, o central não são nem indenizações, nem lugar de fala. É preciso justiça social e políticas redistributivas

Por Thiago Gama, em Outras Palavras

Olúfẹ́mi O. Táíwò (Femi) examina o poder como quem abre um mecanismo para ver o que o move. Talvez venha daí a forma como se formou. Em Bloomington, na Universidade de Indiana, recusou-se a escolher entre filosofia e ciência política e concluiu as duas graduações ao mesmo tempo, entre 2008 e 2012, deixando economia e matemática nas margens do currículo. As margens acabaram no centro do método. Quando descreve a captura da elite, não denuncia um complô, descreve um comportamento de sistema: uma competição cujos termos são fixados por quem a vence, como nos mercados, como nos ecossistemas. O doutorado em filosofia, concluído em 2018 na Universidade da Califórnia em Los Angeles, completou o instrumental, a tradição transcendental alemã e a filosofia da linguagem lidas ao lado da tradição radical negra, sem que uma servisse de ornamento à outra.

Nascido em 1990, norte-americano de ascendência nigeriana, é hoje professor associado de filosofia na Universidade de Georgetown, colunista da Boston Review, pesquisador do Climate and Community Institute e um dos Freedom Scholars da Fundação Marguerite Casey. Uma linha discreta do currículo diz mais do que os títulos: ainda doutorando, ensinou filosofia social num centro de detenção juvenil de Los Angeles e, no primeiro ano em Georgetown, levou introdução à filosofia política para dentro da cadeia de Washington. Os dois livros nascem desse mesmo gesto de encostar conceito em chão: Reconsidering Reparations, pela Oxford, e Elite Capture, pela Haymarket, que chegou ao Brasil em 2025 pela Zahar, como Captura, na tradução de Maria Fernanda Novo e Teófilo Reis.

Onde boa parte do debate público enxerga uma disputa por representação, ele enxerga infraestrutura: canos, cabos, orçamento. A epistemologia da deferência, argumenta, concede a alguém o direito de ser ouvido numa sala e o devolve à rua exatamente como entrou. Daí a tese que reorganiza dois séculos de discussão sobre reparações: se escravidão e colonialismo construíram um sistema planetário de injustiça, repará-lo excede a indenização, o tribunal e o pedido de desculpas, exige erguer um sistema planetário de justiça. Nesta conversa, ele leva o argumento ao fim da unipolaridade depois de Ormuz, ao risco de um colonialismo verde que concentre no Norte os ganhos da transição energética, ao estado dos sindicatos sob Trump e ao Rio de Janeiro, onde a polícia tem alvo preferencial e ele é negro. Sobre o ataque da Casa Branca ao processo eleitoral brasileiro, não hesita: minar a democracia no Brasil é parte do esforço de miná-la em toda parte.

Eis a entrevista.

Seu conceito de captura da elite descreve um processo: ideias radicais ingressam em instituições, corporações e universidades e, em pouco tempo, se veem reduzidas a representação simbólica. De que modo esse mecanismo opera como forma central do poder de classe no capitalismo contemporâneo, e que formas de organização os movimentos populares podem construir para resistir a ele?

Há duas coisas úteis a dizer sobre isso. A primeira é que o mecanismo da captura da elite é, a meu ver, bastante simples de compreender quando pensado em termos de competição. Assim como funcionam os processos evolutivos, ou mesmo os processos econômicos do mercado, os termos da vida sob um processo evolutivo ou econômico são determinados pelos vencedores da competição. E não surpreende que, sob o capitalismo, as instituições e as pessoas capazes de vencer a disputa sobre como compreender períodos da história ou conceitos radicais sejam justamente aquelas que detêm o maior poder de mercado, se quisermos estender a analogia. Do mesmo modo que a Pepsi e a Coca-Cola podem fazer mais publicidade e mais propaganda, os bancos, os capitalistas e os gestores do Estado podem falar mais sobre os acontecimentos radicais do passado. Controlam os currículos do ensino fundamental e do ensino médio. Podem promover vencedores, isto é, podem decidir quais de seus inimigos políticos perseguir e quais tentar cooptar. E, simplesmente porque todos esses atores seguem as próprias preferências, num processo fortemente ponderado em favor de quem tem mais dinheiro e mais alavancagem institucional, compreende-se por que as versões das ideias radicais que circulam passam, com o tempo, a refletir as preferências das pessoas mais poderosas e mais ricas. De maneira ampla, portanto, a captura da elite é apenas a descrição desse processo bastante ordinário, que reconhecemos quando pensamos nossas ideias como algo que emerge em arranjos a que se poderia chamar dialéticos, ou, digamos, em competição, do modo como normas e tendências emergem da competição nos mercados, ou como emergem em biomas e habitats na competição entre predador e presa.

A segunda coisa diz respeito à resposta. Como responder, com movimentos de base, aos problemas que a captura da elite descreve? A primeira parte da resposta consiste, evidentemente, em desenvolver estruturas de base estáveis. Se existem sindicatos e movimentos sociais de longa duração que também participam da disputa sobre como compreender as ideias radicais e os movimentos por justiça do passado, há ao menos algum contrapeso à memória que os capitalistas, ou os ditadores militares, preferiam que tivéssemos do passado.

Mas é preciso acrescentar a essa percepção algo talvez igualmente importante. Não basta ter movimentos de base, sindicatos ou organizações sociais duradouras: o modo como são compostos e o modo como conduzimos a política dentro deles também é decisivo no combate à captura da elite. Há tendências no movimento sindical em direção ao que se poderia chamar de sindicalismo de negócios. O fato de algo ser um sindicato não significa que seja aquilo que nos Estados Unidos chamaríamos de um sindicato combativo. Há diferentes atitudes que um sindicato pode ter diante dos patrões e, correspondentemente, diferentes atitudes que pode ter diante dos próprios filiados. Sindicatos muito verticalizados podem desenvolver uma camada de dirigentes desligada das preocupações do filiado médio e, pior ainda, uma liderança política confortável demais com os poderes estabelecidos fora do sindicato, o que inclui tanto os patrões quanto o arranjo político mais amplo, os gestores do Estado e os representantes eleitos com quem precisam interagir. Ter formas de base de organização econômica e política, como sindicatos e movimentos sociais, e ao mesmo tempo conduzi-las democraticamente, é o que considero decisivo para desmontar a captura da elite, ou ao menos para enfrentá-la.

Qual é hoje a situação dos sindicatos norte-americanos sob a administração Trump?

Há diferenças importantes entre as diversas partes do movimento sindical. Houve sindicatos cuja direção, ao menos, se mostrou de algum modo próxima de Trump, e o sindicato internacional dos Teamsters é talvez o exemplo mais visível. Houve sindicatos que sinalizaram disposição de travar uma batalha política mais ampla, mas que concordaram com a administração em pontos muito limitados, e o melhor exemplo disso é o United Auto Workers, o UAW. E houve sindicatos mais dispostos a confrontar a administração, em razão da posição de seus filiados. O exemplo mais evidente são os sindicatos de trabalhadores do ensino superior, como a American Association of University Professors, que funciona como sindicato em algumas universidades, e também os servidores federais, alvos do DOGE e de Elon Musk em demissões em massa, e os sindicatos que os representam, entre eles a American Federation of Government Employees.

De modo geral, eu diria que há entre os sindicatos norte-americanos o reconhecimento de uma luta política que extrapola suas disputas contratuais específicas. Mas eles precisam lidar não apenas com a circunstância política presente, e sim com décadas de destruição legal do movimento sindical, o que torna difícil assumir uma postura militante quando se está apenas tentando sobreviver e garantir proteções contratuais básicas para os filiados. Ainda assim, espero que estejamos começando a ver uma direção mais militante.

Em sua crítica, a epistemologia da deferência converte ação política em postura moral: a atenção migra para as pessoas presentes numa sala e não para as condições materiais. O que separa essa postura de uma epistemologia construtiva, orientada à capacidade coletiva e à infraestrutura?

A maior diferença entre aquilo que chamo de epistemologia da deferência e a epistemologia construtiva está no objetivo central. Por que nos preocupamos em compreender os diferentes modos pelos quais as pessoas formam crenças sobre o mundo e chegam a conhecê-lo? O tipo de epistemologia que critico concentra-se em vencer batalhas simbólicas e batalhas de atenção. Devemos escutar este ou aquele tipo de pessoa, sejam mulheres, pessoas trans ou pessoas negras. O foco recai sobre as diferentes maneiras de nos relacionarmos com elas, com frequência por meio de uma atenção concentrada em celebridades, figuras proeminentes ou influenciadores. E há uma espécie de desatenção à questão de como vencer essas batalhas simbólicas se traduziria naquilo que de fato nos preocupa: como é a vida das mulheres, como é a vida das pessoas trans, como é a vida das pessoas negras, e como podemos tornar o mundo mais justo e mais igual para todas elas.

A alternativa para a qual procuro dirigir as pessoas, como você aponta na pergunta, é o que chamo de epistemologia construtiva. Continua a ser importante, nessa perspectiva, que não ignoremos as pessoas por causa de suas identidades e que não as submetamos a um escrutínio injusto por causa delas. Mas aquilo em direção a que buscamos construir conhecimento não é apenas um simbolismo geral da igualdade, e sim a reconstrução efetiva do mundo na direção da igualdade. E proponho que se pense isso literalmente. Costumo dar o exemplo dos encanamentos de Flint, no Michigan. Houve ali uma crise da água, tanto porque houve má gestão política das fontes de abastecimento, o que levou à contaminação, quanto porque não houve disposição de escutar as pessoas que diziam às autoridades que a água estava contaminada e não era potável. Mas elas não precisavam apenas ser ouvidas: precisavam também de água limpa. É um exemplo para que se perceba que não basta escutar as pessoas, é preciso transformar o mundo material de maneira a atender às suas preocupações.

As condições materiais de vida nos Estados Unidos se deterioraram ao longo dos governos de George W. Bush, Obama e Trump. Como explicar a resposta que os sucessivos governos deram às crises desse período?

Algumas observações podem ajudar. Desde George W. Bush, o segundo, vivemos a grande crise econômica de 2008 e, alguns anos depois, a pandemia global. Houve um duplo movimento por parte das administrações presidenciais. De um lado, houve reconhecimento da crise nas duas ocasiões. Mas, em 2008, o grande socorro financeiro foi dirigido aos bancos. E, durante a covid, houve um pacote econômico expressivo para responder aos problemas da pandemia, embora de caráter temporário.

Foram enviados cheques a pessoas individualmente, o que é o mais perto que já chegamos de algo como uma renda básica universal. Os economistas mostraram que aquilo teve efeito importante sobre a pobreza, particularmente sobre a pobreza infantil, que foi reduzida à metade. Poderíamos ter transformado a medida em traço permanente de um novo Estado de bem-estar social, transferências monetárias diretas do governo, mas deixaram os cheques expirar. Em vez de caminhar para algo mais próximo de um Estado de bem-estar direto, algo mais parecido com o Bolsa Família, voltamos ao que havia antes: um Estado de bem-estar muito remendado, que oferece algum apoio aos mais pobres, mas um apoio altamente condicional e frequentemente submetido às guerras culturais e políticas. Há agora nova disputa sobre a continuidade do auxílio alimentar aos pobres e também sobre o corte do Medicaid, isto é, da cobertura médica dos mais pobres.

O fim do momento unipolar representa o fim de uma era para os Estados Unidos, ou o país ainda pode recuperar aquela posição?

Penso que a era da unipolaridade provavelmente terminou. Acredito que, daqui a algumas décadas, os historiadores poderão apontar acontecimentos específicos nos quais isso ficou mais decisivamente demonstrado, e eu ficaria muito surpreso se a atual guerra no Irã não fosse aquilo em que esses historiadores do futuro haveriam de se concentrar. Boa parte do movimento em direção à multipolaridade é de natureza estrutural: a ascensão da China, da Índia, do Brasil e da Coreia do Sul em importância global e em força econômica. Mas, de uma perspectiva militar, penso que a capacidade do Irã de provar em campo que era capaz de sobreviver a uma ofensiva total do aparato militar norte-americano e, ainda assim, ditar funcionalmente os termos em Ormuz é um sinal claro, para o resto do mundo, de que os Estados Unidos não são a potência que já foram.

O que virá do outro lado disso depende, em grande medida, de que tipo de política prevalecerá entre os países do estrato intermediário em termos de dinâmica de poder. Eles acabarão por se alinhar a um ou dois dos grandes países? Formar-se-á um eixo geopolítico em torno da China ou da Índia? Ou teremos antes algo como um mosaico, no qual os países colaboram em questões específicas, com alianças militares que não coincidem inteiramente com os blocos econômicos de comércio? Esse seria um mundo bem mais irregular do que o atual. De todo modo, qualquer que seja a multipolaridade a que venhamos a chegar, parece-me muito claro que, no curtíssimo prazo, chegaremos a um mundo reconhecidamente multipolar.

A administração Trump afirmou ontem que o processo eleitoral brasileiro é fraudulento. O Brasil o lê, e a classe política brasileira o acompanha em Outras Palavras. O que diria sobre isso?

Femi – Penso que precisamos compreender, e imagino que isso já se compreenda em outros lugares, mas aqui nos Estados Unidos é muito importante que compreendamos, a ascensão global da extrema direita como um movimento global. Eles se entendem assim e procuram colaborar entre si. A tentativa anterior da administração Trump de socorrer Bolsonaro tem continuidade neste episódio mais recente da mesma saga.

De modo geral, o eixo internacional que se estende da direita brasileira à direita norte-americana, à direita húngara e à direita de outros lugares é profundamente hostil aos processos democráticos. E essa hostilidade não é apenas ideológica: como vimos na Hungria, com a derrota de Orbán, eles precisam desmontar os processos democráticos para manter o domínio do poder. E precisam que isso ocorra também em outros países, para sustentar aquilo que desejam no país em que estão baseados. Já vêm fazendo investigações para saber como a extrema direita se transformou depois do resultado húngaro, o que parece já ter produzido alguns deslocamentos em seu modo de operar em outros lugares.

O episódio recente no Brasil é mais um exemplo disso. Tentam manter aquele território, tentam deslegitimar o processo brasileiro porque compreendem que, quanto mais fortes forem em mais países, maiores serão suas chances de vencer globalmente. E o Brasil, país economicamente forte e muito populoso, é território importante para eles. Continuarão a fazer o que puderem para minar a democracia no Brasil, como parte de seu esforço de minar a democracia em toda parte.

Em Reconsidering Reparations o senhor recusa dois modelos: o legalista, da compensação financeira, e o da pura reparação relacional. Como sua visão construtiva reposiciona as reparações, não como transição voltada a uma violação passada, mas como projeto global orientado à distribuição futura de recursos e de controle?

Começo o livro apontando que o caso particular das reparações pela escravidão transatlântica e pelo colonialismo responde, certamente, a injustiças e a crimes do passado. Mas, e é isto que o distingue de outros movimentos por reparação, essas reparações respondem também aos crimes e às injustiças específicas que construíram a ordem mundial. É o que sustento no primeiro capítulo.

É em parte por causa dessa visão que me parece fazer sentido defender uma concepção construtiva das reparações. Se aquilo a que respondemos, aquilo que buscamos reparar, são os princípios de construção de nossa ordem mundial presente, o alicerce dessa ordem, então faz sentido conceber o objeto da reparação como sendo as próprias partes constitutivas de nossa ordem global, as relações fundamentais que fazem de nossa ordem política e econômica aquilo que ela é.

O modelo da responsabilidade civil, que trata as reparações como simples ressarcimento de dano à vida de indivíduos ou de famílias, não acerta a escala daquilo a que esta versão das reparações poderia estar respondendo. Isso vale para o modelo da reparação das relações, que propõe que devemos aprender a conviver melhor dentro do sistema de injustiça criado pelos danos de ontem. Se o que aconteceu, fundamentalmente, foi a criação de um sistema planetário de injustiça, o modo de repará-lo é criar um sistema planetário de justiça. É essa a minha posição.

O clima, para o senhor, não é um problema técnico separado da história, e sim continuação da história imperial e do capitalismo racial. Como as reparações climáticas podem impedir um colonialismo verde, no qual as nações ricas monopolizam a tecnologia limpa e impõem à periferia nova dívida de extração? E o apartheid energético é um conceito útil para o momento?

Penso que é um conceito útil. Uma das coisas interessantes de colocar ao lado desta conversa não é apenas a ascensão da China em termos geopolíticos, mas especificamente seu efeito sobre a disponibilidade de energia limpa, sobretudo solar e eólica. O efeito singular da China foi tornar possível outra rota para fora do colonialismo climático, outro caminho para a transição energética, na direção do oposto do apartheid energético: uma disponibilidade de energia amplamente acessível e democratizada, e uma segurança energética igualmente democratizada.

É um termo útil, portanto, para descrever o componente energético do problema ecológico mais geral apontado pelo colonialismo climático, a saber, que a crise climática está ligada à história do império e do capitalismo racial. E o modo específico dessa ligação não é apenas o fato de que aquelas histórias produziram o problema, mas, mais diretamente, o fato de que as relações políticas e econômicas construídas sobre a história do império e do capitalismo racial são relações distributivas. Falo no livro em pensar o sistema planetário como um aqueduto, ou como uma série de dutos, que dirigem riqueza de algumas partes do mundo para outras, poluição de algumas partes do mundo para outras, energia de algumas partes do mundo para outras.

A questão permanente será para onde essas coisas irão. Para onde irá a poluição quando tivermos êxito, ou quando fracassarmos, em realizar uma transição energética global? E para onde irão a riqueza e os retornos positivos dessa transição? Existe a possibilidade de uma resposta ampla, democrática e reparatória à crise climática. Mas existe também a possibilidade de que os ganhos das energias renováveis, possíveis ou efetivos, se concentrem nas partes do mundo que já detêm a riqueza, e de que as consequências negativas continuem concentradas nas partes do mundo que têm menos.

E penso que devemos olhar por essa lente para a ascensão da xenofobia e do sentimento anti-imigração pelo mundo, especialmente, embora não exclusivamente, no norte global. O que se vê na África do Sul é particularmente preocupante nesse aspecto. Trata-se do lance de abertura de uma política que faria exatamente aquilo que o colonialismo climático e o apartheid energético descrevem: concentrar os efeitos negativos da crise climática nas partes do mundo com menos infraestrutura, menos riqueza e mais problemas sociais.

Sua crítica da captura da elite é frequentemente usada por comentaristas conservadores para dissolver a política de identidade por inteiro. Como preservar a política de identidade original, em sua forma radical e colisional, de duas reduções: a liberal individualista e a reacionária de má-fé?

Lidar com a identidade é lidar com os fatos da política de classe na região do mundo em que vivemos. Isso não significa que não tenhamos de percorrer um terreno político complexo, no qual lidamos com liberais individualistas dispostos a deferir politicamente a negros neoliberais, ou com quem se disponha a ser liderado por uma mulher na presidência ou por uma parlamentar trans, mas que não apoia nenhuma das políticas ligadas à justiça mais ampla para as pessoas negras em geral, que não se dispõe a considerar soluções radicais para a violência policial ou para o encarceramento, e assim por diante.

E, na direita, encontra-se rigorosamente o mesmo fenômeno. Estão dispostos a apoiar pessoas não brancas alinhadas à direita, estão dispostos a apoiar ataques ideológicos de esquerda ao centro liberal, mas tampouco se dispõem a apoiar as políticas ou os movimentos que efetivamente lutam por justiça para essas pessoas. Estão dispostos a criticar o modo como as feministas falam das questões trans, mas apoiam a proibição de atletas trans no esporte, ou a proibição do uso de banheiros por pessoas trans.

A política construtiva obriga as pessoas a vincular sua adesão à política de identidade às mudanças específicas que desejam produzir no mundo material, concreto, efetivo. É como dizer: não me diga que apoia as vozes negras se apoia o encarceramento em massa de pessoas negras como política pública. E isso vale tanto para o centro-esquerda quanto para a direita. É assim, exatamente do mesmo modo, que defendo a intenção colisional original da política de identidade, tanto dos liberais individualistas quanto dos detratores reacionários de má-fé. É a isso que se dirige o objetivo da epistemologia construtiva, ou da política construtiva, como prefiro dizer.

Sua obra dá continuidade a uma linha que vem de Amílcar Cabral e Frantz Fanon, e a autonomia pós-colonial segue incompleta. Numa era de dívida perpétua, condicionalidades do Fundo Monetário Internacional e imperialismo monetário, qual seria hoje uma estratégia panafricana de autonomia estrutural?

É algo que muita gente ainda está tentando montar, e sou devedor das percepções de quem pensa nessa direção, economistas como Ndongo Samba Sylla, Daniela Gabor e Fadhel Kaboub, que tentam responder exatamente a essa questão. O que o século XXI acrescenta aos problemas que já preocupavam Cabral, Nkrumah e Fanon é, evidentemente, a crise climática, mas também, como você perguntou antes, esta era de multipolaridade que se anuncia. E, diferentemente do que ocorria na Guerra Fria, não parece haver um conjunto coerente de centros ideológicos pelos quais as pessoas do continente africano, da diáspora africana ou do terceiro mundo possam se orientar diante dos problemas geopolíticos. O quadro é traçado de modo bem mais cru pelos interesses próprios das nações e pelos interesses próprios dos grupos de elite que as influenciam. Considero, portanto, muito difícil traçar uma estratégia de autonomia estrutural sob essas condições.

Ainda assim, há ao menos duas coisas que quem tenta costurar essa estratégia deveria manter no centro das atenções. A primeira é a questão energética. Houve uma conferência na Colômbia voltada a organizar uma transição justa dos combustíveis fósseis para um sistema de energia renovável, montada em sentido colisional, essencialmente por uma coalizão dos dispostos, sem esperar pelos grandes países que detêm poder de veto, sem esperar pelos Estados Unidos, procurando costurar uma transição com a qual aquelas nações possam concordar. Se não me falha a memória, foi sediada pela Colômbia e pelos Países Baixos. Penso que isso será um pilar central de uma estratégia genuinamente panafricanista e terceiro-mundista. Sobretudo depois do desastre em Ormuz, é algo que, de uma perspectiva de realismo político, se deveria procurar articular. E os resultados eleitorais recentes na Colômbia complicam substancialmente o modo como isso pode ser conduzido, razão pela qual quem hoje pensa uma estratégia panafricanista ou terceiro-mundista tem ainda mais motivos para prestar atenção à transição energética e à geopolítica de respondê-la.

A segunda é a busca de uma estratégia ampla de cancelamento da dívida. Há décadas existem ativistas lutando por justiça em matéria de dívida, e penso que estão certos em concentrar-se nessa possibilidade. Quanto mais flexibilidade fiscal os governos do sul global e os governos africanos conseguirem para si, mais provável será que consigam fazer uso real de sua margem de manobra, margem que se amplia num mundo cada vez mais multipolar. E quanto mais dívida conseguirem tirar de seus balanços, melhor o farão. São essas as duas coisas que me ocorrem do ponto de vista estratégico.

Vivemos um período de colapso ecológico, política reacionária e cinismo generalizado. Em resposta, o senhor propõe construir bens públicos e infraestrutura material, e não apenas crítica moral. Que formas de organização popular e de construção institucional oferecem hoje um horizonte real?

Houve algumas tentativas de institucionalizar formas variadas de decisão democrática direta. Houve uma onda de cidades que adotaram o orçamento participativo depois que Porto Alegre mostrou o que ali era possível, e houve tentativas de legislar por democracia direta, experimentadas na Irlanda e em outros lugares. Há questões importantes sobre como colocar poder institucional sério nas mãos de processos democráticos diretos, seja na legislação, seja no orçamento, seja na composição de nossos parlamentos por algo como o sorteio, possibilidade de que alguns teóricos vêm falando.

Mas precisamos encontrar formas democráticas diretas de construção de poder que reconciliem o fato da eficácia estatal, que eu diria ser hoje maior do que em qualquer momento da história humana, com o fato infeliz de uma captura talvez sem precedentes do Estado pelos interesses do dinheiro. Vemos níveis de desigualdade econômica que remetem a períodos muito anteriores, ao menos nos Estados Unidos, que lembram o que aqui chamamos de Gilded Age. Vemos até mesmo as forças do capital se organizarem em torno do uso do Estado para proteger investidores. Daniela Gabor e Ndongo Samba Sylla estudaram isso em escala global, e o fenômeno também ocorre internamente em lugares como os Estados Unidos, onde o Estado adota uma postura extremamente musculosa para proteger o capital.

O Estado ajuda a moldar a realidade das pessoas, mas vem sendo usado cada vez mais para fazer o contrário: proteger centros de dados, proteger acionistas e promover todo tipo de intervenção antipopular. E não é coincidência que um grande movimento antidemocrático global esteja emergindo para proteger exatamente esse estado de coisas. Por isso, ao mesmo tempo que precisamos das formas tradicionais de mobilização social de base, de sindicatos, de sindicatos de devedores, de sindicatos de inquilinos, de todas essas formas de organização exteriores ao Estado, capazes de agir sobre ele e de contê-lo, penso que precisamos também redesenhar o Estado de modo a, ao menos, retardar o avanço do capital rumo ao controle total de nossas vidas.

Vivo no Rio de Janeiro, um dos estados mais violentos do Brasil, e o alvo preferencial da polícia daqui é a população negra. Como explicar essa seletividade, comparando o Rio de Janeiro e os Estados Unidos?

Uma das coisas que emergiram do estudo do policiamento em nossa região, isto é, nos Estados Unidos, no Caribe e na América Latina, é que a evolução do policiamento esteve atada ao controle social no sentido mais amplo. Ouve-se às vezes de marxistas mais ortodoxos que a polícia existe para defender a propriedade e para defender o capital, e isso está correto. Mas, adotando-se uma perspectiva sociológica mais ampla do que isso significa, percebe-se que defender o capital não consiste apenas em defender este ou aquele edifício: consiste em defender a ordem social que mantém a classe trabalhadora embaixo e os capitalistas em cima.

E, queiramos ou não, você e eu vivemos em partes do mundo nas quais essa ordem social, na forma particular que assume em nossos países, foi racializada. As pessoas que estão no topo têm sistematicamente maior probabilidade de serem percebidas como brancas, e as pessoas que estão na base têm sistematicamente maior probabilidade de serem percebidas como negras e indígenas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

doze − oito =