A imprensa e a dificuldade em administrar o Tico e o Teco. Por Luís Nassif 

Mídia escolhe um ângulo único e conveniente, descarta os desdobramentos que incomodam. Dois episódios recentes mostram isso com clareza.

No GGN

A grande imprensa tem uma dificuldade crônica: entender o foco principal dos fatos. Escolhe um ângulo único e conveniente, descarta os desdobramentos que incomodam. Dois episódios recentes mostram isso com clareza.

O primeiro é o caso do estudante acusado de condutas neonazistas na UFRJ. O noticiário travou na primeira camada do confronto e apagou o que veio depois: a provocação e a agressão do aluno acusado — puxão de cabelo, injúria racial contra o estudante negro que o abordara. Ao recortar só a cena que esvazia a gravidade do racismo estrutural, a imprensa repete o vício de sempre: descarta o contexto, dilui as responsabilidades cruzadas, blinda o essencial atrás de uma narrativa rasa.

Não sabem articular o Tico e o Teco: condenar a pancadaria (que é tratada como linchamento) e, ao mesmo tempo, contar as provocações e a injúria racial.

Essa mesma cegueira para o todo alimenta o desprezo pelos procedimentos democráticos. Rito processual não é burocracia inútil — é a base da estabilidade democrática, a proteção contra injustiças, inclusive para quem está sendo investigado. A imprensa deveria ser a maior guardiã desses ritos: sem segurança jurídica não há jornalismo livre. Mas com frequência assustadora os jornais caem na isca do autoritarismo e compram narrativas que atropelam o devido processo.

O episódio do ministro André Mendonça é um exemplo direto: vazamento de inquérito sigiloso, sem passar pelo STF. A manobra tem dupla intenção — desgastar e implodir a autoridade do Supremo, e forçar a ilegalidade processual para depois anular inquéritos que atingem figuras centrais da política nacional, incluindo Flávio Bolsonaro.

O “ingênuo” terrivelmente evangélico levando todos no bico: anulando o inquérito contra seu candidato e passando a conta ao Supremo.

Ao cair nessas armadilhas, os veículos abrem mão de pensar no amanhã. Ignoram o custo de longo prazo — para a democracia, e para a própria credibilidade do jornalismo.

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