Alexandre de Moraes nunca foi de esquerda ou algo minimamente próximo disso. Sua biografia é a de um homem da ordem, formado politicamente na direita paulista e habituado a tratar conflito social como caso de polícia. Quando estudantes, trabalhadores e movimentos sociais cruzaram seu caminho, quase sempre o encontraram do outro lado.
Sua carreira política foi construída na direita brasileira. Passou por DEM, MDB e PSDB. Nos governos tucanos de Geraldo Alckmin, foi secretário da Justiça de São Paulo, presidiu a antiga Febem e, anos depois, assumiu a Secretaria da Segurança Pública. Entre uma passagem e outra pelo governo paulista, tornou-se o “supersecretário” de Gilberto Kassab na Prefeitura de São Paulo, acumulando o comando de Transportes e Serviços.
Sob sua responsabilidade, a PM reprimiu estudantes secundaristas e manifestações contra o aumento das passagens. Moraes defendeu o uso de balas de borracha e chamou os protestos contra o impeachment de Dilma de “atos de guerrilha”.
No próprio dia do afastamento de Dilma, assumiu o Ministério da Justiça de Michel Temer. Ainda filiado ao PSDB, recebeu de Temer sua indicação ao STF.
Já ministro, votou contra o habeas corpus de Lula, pela prisão após condenação em segunda instância, pela terceirização irrestrita e pelo fim da contribuição sindical obrigatória.
A biografia fala por si. Moraes foi formado dentro da direita tradicional e levou sua concepção de ordem para cada posto que ocupou no aparato do Estado.
A esquerda digna desse nome sempre soube disso.
Diante da tentativa de golpe bolsonarista, Moraes cumpriu um papel correto e necessário. Fez a porra do básico. Usou as atribuições de seu cargo contra uma quadrilha que pretendia destruir o processo eleitoral e abrir caminho para uma ditadura.
Naquele momento, defender sua atuação, exigir a prisão dos golpistas e construir uma unidade ampla contra o fascismo eram obrigações democráticas elementares. O básico tornou-se decisivo porque uma parte considerável das instituições, das Forças Armadas e das classes dominantes flertava abertamente com o golpe.
A direita institucional entrou em choque com a extrema direita golpista. A esquerda precisava explorar essa contradição, apoiar todas as medidas necessárias contra o golpe e preservar sua independência política.
Parte dela preferiu entrar na farra dos memes.
O “Xandão” talvez tenha começado como brincadeira. Aos poucos, virou uma pedagogia política às avessas. A piada apagou a biografia, embaralhou os campos e expôs o tamanho da nossa decadência política: bastou uma autoridade enfrentar Bolsonaro para que parte da esquerda a adotasse como herói do nosso campo.
Também pudera. Boa parte das atuais direções partidárias da esquerda está mais preocupada com performance digital e com a próxima eleição do que com formação política. O meme ocupou o espaço da análise, a militância virou torcida e uma convergência circunstancial ganhou aparência de identidade política.
É constrangedor. Parte da esquerda parece incapaz de apoiar um ato correto sem transformar seu autor em herói popular.
Unidade tática é uma coisa bastante simples. Diante de um inimigo comum e mais perigoso, forças diferentes podem atuar juntas em torno de um objetivo delimitado. Naquele caso, derrotar a tentativa de golpe, preservar as liberdades democráticas e punir os responsáveis.
Uma aliança assim não apaga a história de ninguém nem transforma representantes da ordem em aliados permanentes do povo.
O STF que julgou os golpistas é o mesmo que autorizou a terceirização irrestrita, enfraqueceu sindicatos e atacou direitos trabalhistas. Moraes participou das duas coisas. Sua trajetória é perfeitamente coerente: trata-se de uma autoridade conservadora defendendo a ordem constitucional contra uma extrema direita que pretendia destruí-la.
Podemos estar do mesmo lado numa batalha concreta e continuar em campos opostos na disputa pelo futuro da sociedade. A política fica incompreensível quando essa diferença elementar desaparece.
Nunca, jamais, nem brincando, devemos nos confundir com um sistema que explora o povo e o trata como inimigo sempre que ele se organiza para mudar a própria vida.
Você, que é de direita, não seja burro ou oportunista. Moraes foi formado nos partidos tradicionais do seu campo, serviu aos seus governos e sempre pertenceu à direita. Recusar o golpe de vocês não o transformou em esquerdista.
Você, que é de esquerda, também não seja burro. Comemorar a prisão de golpistas não exige que você entregue a Moraes uma identidade política que toda a sua biografia desmente.
A unidade tática pode ser uma necessidade histórica. A confusão política produzida em torno dela pode se tornar uma tragédia.
Que este episódio sirva, ao menos, de aviso.
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*Em David Deccache.




