Kit Antiautoritário: Como varrer a ultradireita

Menos discursos e mais histórias. Ideias fortes e apelo emocional. Construir movimentos e angariar votos. Nessas eleições, conheça manual prático que reúne, com 59 jogadas e 141 dicas baseados em casos concretos em 30 países, antídotos às estratégias e padrões da extrema-direita

Por Bernardo Gutierrez, em Outras Palavras

Contar as histórias das pessoas, não ideias abstratas. Comunicar por meio de emoções. Redefinir a polarização em torno de valores, não de identidades. Não falar de política: melhor misturá-la com outros conteúdos (cultura, estilos de vida, entretenimento, saúde). Construir uma rede de influenciadores digitais. Não se limitar a desmentir a desinformação. Esses são alguns dos antídotos incluídos no Kit Antiautoritário, uma verdadeira caixa de ferramentas para derrotar os novos líderes autoritários.

caixa de ferramentas, recém-lançada pela organização Democracy Hub (D-Hub), denuncia que políticos como Javier Milei, Donald Trump, Jair Bolsonaro, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi ou o húngaro Viktor Orbán não improvisam. “Eles mudam sua forma para se adaptar ao lugar”, seguindo “os mesmos padrões e estratégias”. “Diante desse novo fenômeno, vimos que havia muito diagnóstico (acadêmico, jornalístico). O que faltava eram os antídotos. Nós colocamos o foco nisso, há lugares onde se conseguiu freá-los”, afirma ao El Diario o argentino Agustín Frizzera, coordenador do projeto. O projeto foi cozinhado ao longo de dois anos, a partir de 130 entrevistas em 30 países e do estudo de 159 exemplos concretos. O kit está repleto de casos de sucesso contra os novos autoritarismos. Na França, atores democráticos trabalharam com influencers para mobilizar jovens eleitores. Na Índia e no Brasil, usaram-se grupos de WhatsApp para organizar voluntários e transformar apoio em ação.

kit antiautoritário reúne 10 grandes estratégias (reunidas em 10 manuais), 59 jogadas e 141 conselhos para fortalecer a ação democrática. Entre elas, destacam-se jogadas narrativas, de comunicação digital, de construção de movimentos sociais, de coordenação da oposição e de mobilização eleitoral. Para evitar linguagens excessivamente formais, o projeto apostou em formatos multimídia: manuais baixáveis em pdfpodcasts e vídeos. Além disso, conta com uma wiki para leitura online em sete idiomas (inglês, espanhol, francês, alemão, húngaro, português e chinês mandarim simplificado).

O manual autoritário

Manual Autoritário — volume 1 da coleção, capa preta — explora como líderes autoritários ganham popularidade, vencem eleições e corroem instituições. A primeira jogada, Um novo estilo disruptivorevisa como esses líderes tentam “se distanciar da imagem dos políticos tradicionais, desde o vocabulário até a vestimenta, modos e práticas”. Em uma campanha ininterrupta, tudo gira em torno da personalidade de um grande líder que compartilha sua intimidade para parecer mais humano (Modi fazendo ioga, Donald Trump pedindo comida num McDonald’s, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente brasileiro, compartilhando o parto de sua filha).

A frase “flood the zone with shit” (inunde a zona com merda), pronunciada pelo ideólogo da extrema direita global Steven Bannon, é uma de suas principais estratégias. Eles saturam a mídia com conteúdo interminável — falso, exagerado ou descontextualizado — para criar confusão e desviar a atenção. “Como nossos cérebros tendem a associar repetição com veracidade”, alerta o manual, “eles usam seus canais para inundar o ecossistema com histórias — verdadeiras ou falsas — para controlar a conversa”.

Cada jogada do manual conclui com conselhos para combatê-la. Diante do Inunde a zona com desinformação, por exemplo, recomenda-se não reagir sempre. “Já não estamos na era do fact checking (verificação de fake news): quando desmentimos, chegamos tarde. O segredo é antecipar-se e desmascarar a narrativa antes que ela se imponha”, afirma ao El Diario a italiana Federica Vinci, da D-Hub.

Comunicar com emoção

A jogada Ideias fortes, apelo emocional disseca como os novos autoritarismos combinam ideias com emoções. O coquetel emocional — uma mistura de medo, esperança, fúria e até empatia — reforça sua mensagem. Enquanto as forças progressistas usam uma “comunicação excessivamente técnica e pouco emocional que não conecta com a experiência cotidiana das pessoas”, pondera Federica Vici, “a extrema direita consegue impor narrativas simples e repetitivas”. Esse apelo emocional provoca uma resposta visceral e fervorosa entre seus seguidores, algo que contrasta com a apatia dos democratas. O manual detalha a campanha do presidente argentino Javier Milei, repleta de alegria e entusiasmo. Milei desfilava num conversível, desdobrando rituais, slogans, símbolos e objetos que serviam como metáforas. Com uma motosserra e uma nota de dólar, sintetizava todos os problemas em um inimigo, o banco central, a quem acusava de roubar todos os argentinos por meio da inflação.

O manual 4, intitulado Narrativa, adverte que fatos e argumentos racionais não bastam por si só. “As mensagens ressoam quando dialogam às emoções reais das experiências cotidianas”. Um dos conselhos narrativos consiste em não contar, mas mostrar. “Ideias ninguém escuta, se antes não forem tornadas visíveis. Símbolos, metáforas, imagens concretas. A política que se vê, se entende e se compartilha”, argumenta Agustín Frizzera. Além disso, convém fazê-lo com humor. “O humor quebra o medo, desarma a épica autoritária e expõe o ridículo do poder”, completa Frizzera. Por outro lado, a pesquisa revelou que a extrema direita usa em toda parte apenas doze temas para alimentar suas teorias da conspiração: corrupção, aborto, comunismo, perseguição religiosa, ideologia de gênero, drogas, impunidade, doutrinação nas escolas, regulação da mídia, invasão da propriedade e invasão da privacidade. Federica Vici alerta que o erro é responder com complexidade demais: “As forças democráticas devem simplificar, unificar a mensagem e voltar a falar do que realmente importa — custo de vida, aluguéis, inflação — com propostas claras”.

Influencer chefe

kit descreve em detalhe como a extrema direita construiu um sofisticado ecossistema de comunicação digital. Os líderes se comportam como “influencers chefes”. Por exemplo, Nayib Bukele, presidente de El Salvador, replica diariamente mensagens de seus seguidores na rede social X, ajudando-os a monetizar seus perfis. O volume 2, Comunicação digital, é dedicado a como criar um novo ecossistema de comunicação descentralizado. Uma de suas principais jogadas é construir uma rede de influencers. O brasileiro Pedro Telles, diretor de programas da D-Hub, confessa ao El Diario que parte do sucesso do bolsonarismo residiu em seu ecossistema de comunicação: “Você abre o WhatsApp e no grupo da família aparece uma mensagem do seu tio que chegou de um grupo extremista. Aí, você liga o rádio ou um podcast indo para o trabalho e escuta alguém falando algo parecido. Depois, almoçando com a galera do trabalho, alguém te conta a mesma coisa porque ouviu de um influencer…”.

A grande estratégia do manual: Colocar brócolis no arroz”. O “arroz” é o conteúdo que naturalmente atrai a atenção. O “brócolis” é a mensagem política que queremos transmitir. “Inserir conteúdo político em formatos que as pessoas já consomem e apreciam. Não forçar a conversa: misturá-la com cultura, entretenimento e vida cotidiana”, pondera Agustín Frizzera.

Construir movimento, conseguir votos

O volume 3 é dedicado à promoção do voto. Pedro Telles destaca o papel que a sociedade civil organizada teve na derrota de Jair Bolsonaro em 2022: “O maior exemplo foi o Pacto pela Democracia, que une mais de duzentas organizações. Foi a própria sociedade civil quem convocou as pessoas a irem votar, especialmente os jovens”. O volume é baseado em exemplos de sucessos como You can vote (Estados Unidos), Meu primeiro voto (Brasil) ou French civil society campaigners (França), entre outros.

O volume 5 é dedicado à Coordenação da oposição, porque “derrotar o autoritarismo exige estrutura, colaboração e propósito compartilhado”. O melhor caso de sucesso da coordenação da oposição, segundo Pedro Telles, foi o de Lula da Silva na campanha de 2022. “O principal símbolo disso foi o convite de Lula a Geraldo Alckmin (político conservador) para ser vice-presidente e construir uma frente ampla, tanto nos partidos políticos quanto na sociedade civil”, pondera Telles.

volume 6 é focado na Construção de movimentos, já que em contextos polarizados, os partidos frequentemente aprofundam a divisão. Os movimentos devem, segundo o kit, “redefinir a polarização em torno de valores, não de identidades partidárias”. Instituições & Espaço CívicoApoio internacional e Liderança também já foram lançados. O Manual Democrático, cujo podcast já está disponível, foi lançado julho. Com capa branca, reune as jogadas mais eficazes de todo o kit para contra-atacar. “Jogadas”, usando palavras da D-Hub, “que chegam às pessoas não apenas pela razão, mas pela emoção; não apenas por discursos, mas por histórias; não apenas nas eleições, mas na vida cotidiana”. Todas as jogadas do kit antiautoritário, conclui Frizzera, apontam para o mesmo: “sair do modo reativo, reconectar com como as pessoas vivem e consomem política hoje, não para ‘ter razão’, mas para construir poder de verdade”.

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