Fonte da Polícia Federal em Brasília ouvida pela Fórum revela que a corporação trata como inaceitável a forma como o ministro bolsonarista tentou descredibilizá-la e mexer em sua estrutura. Leia a entrevista exclusiva
Por: Henrique Rodrigues, nas Forum
Atensão nos bastidores do Supremo Tribunal Federal e da Polícia Federal atingiu o nível mais crítico de que se tem notícia até hoje. No centro da crise está a atuação do ministro André Mendonça, indicado à Corte pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e sob a alcunha de “terrivelmente evangélico”, cujas movimentações recentes contra o ministro Alexandre de Moraes e contra a própria cúpula da PF deflagraram uma reação institucional sem precedentes no interior da corporação.
Para entender a profundidade do abalo sísmico que sacode Brasília, a Fórum voltou a ouvir uma de suas fontes mais estratégicas na capital federal. Trata-se do mesmo agente da Polícia Federal lotado em Brasília que, na transição entre o final de 2022 e o início de 2023, período em que atuava diretamente no Palácio do Planalto, foi o personagem central de uma histórica série de 14 matérias exclusivas publicadas por este veículo. Na ocasião, o servidor denunciou com antecedência a articulação golpista que se desenhava no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) sob o comando do general Augusto Heleno e a mando de Jair Bolsonaro, maquinação que viria a se confirmar tragicamente perante o país e o mundo no 8 de Janeiro.
Agora, o mesmo agente que antecipou a trama golpista da extrema direita quebra o silêncio para relatar o que se passa no novo front de batalha: o choque aberto promovido por André Mendonça ao determinar apurações baseadas no depoimento do empresário Daniel Vorcaro e tentar arrastar o ministro Alexandre de Moraes e a própria direção da PF para o lamaçal de suspeitas controversas.
Na avaliação contundente da fonte, o tiro de Mendonça saiu pela culatra e provocou um levante silencioso, porém devastador, na Contrainteligência e no alto comando da instituição policial.
“Mendonça quis intimidar a PF, e isso nunca vai ser tolerado. Eles vão desconstruir o Mendonça e quem vai fazer isso é a Contrainteligencia… Só para lembrar, no gabinete do Mendonça tem um delta lavajatista, o doutor Marcantonio [Thiago Marcantonio Ferreira], que foi assessor do próprio Mendonça quando ele era ministro da Justiça, e agora o Mendonça levou ele para o STF… A PF sabe com quem está lidando”, começou dizendo o federal.
O servidor da PF se refere à Coordenação-Geral de Contrainteligência (CGCINT), subordinada à Diretoria de Inteligência Policial (DIP). Regimental e legalmente, a unidade tem a função de atuar na proteção do conhecimento, salvaguardando operações policiais, inquéritos sigilosos e documentos estratégicos contra o acesso de pessoas não autorizadas ou organizações criminosas, e na neutralização de ameaças adversas, prevenindo e detectando interferências ilegais que comprometam a instituição.
A Fórum apurou que esses relatórios de contrainteligência policial, robustos, analíticos e repletos de dados, é que estão sendo encaminhados às mãos do ministro Edson Fachin, presidente do Supremo, anexados ao pedido de abertura de investigação feito por Alexandre de Moraes, para que a partir deles seja autorizada a instauração de um inquérito contra Mendonça, algo que é dado como quase certo e que deve ser autorizado em breve. Além de dados sobre a conduta do ministro em questão no exercício de sua função, o ponto central do material é a inação de Mendonça no caso envolvendo os R$ 61 milhões recebidos de Vorcaro pelo senador Flávio Bolsonaro (depois soube-se de um novo depósito de R$ 8,6 milhões).
Conexão da “Lava Jato” no gabinete do STF
A presença do delegado citado pelo agente no gabinete de André Mendonça no STF lança luz sobre o histórico de métodos operacionais que a Polícia Federal conhece de longa data. O investigador aponta para a trajetória do delegado no Ministério da Justiça durante a gestão de Mendonça no governo Bolsonaro, correlacionando sua atuação aos setores mais conturbados da inteligência da época.
Ao detalhar quem é o interlocutor de confiança do magistrado na Corte, e se os novos fatos teriam os dedos dele, o servidor expõe os vínculos históricos que acenderam os alertas da Contrainteligência policial:
“Tem, com certeza, porque essa cara [delegado Marcantonio] foi da gestão dele [Mendonça] lá no Ministério da Justiça e estava envolvido naquela Diretoria de Operações, que cuidava da Inteligência junto com a [delegada] Marilia Alencar, que foi julgada, condenada [na tentativade golpe de Estado] e está presa”, explicou.
A revelação conecta a atuação presente no gabinete do Supremo às redes de inteligência paralela e ingerência política formadas durante a gestão bolsonarista. Para a PF, a reprodução desses quadros e o uso de métodos controversos de apuração em gabinetes do Judiciário indicam que a investida contra a corporação não foi um fato isolado, mas uma ação calculada de inteligência. Haveria, portanto, conexão e similaridade entre a forma de agir empregada no período da tentativa de golpe e os últimos lances feitos no escândalo do Banco Master.
Assimetria política e os relatórios da inteligência
O incômodo da corporação com Mendonça ganhou densidade documental nas últimas horas. Relatórios internos da própria Polícia Federal, encaminhados no âmbito dos procedimentos enviados pelo STF e que agora estão sob análise do ministro Edson Fachin, colocaram a nu a seletividade e a assimetria na tramitação de processos sob a relatoria de Mendonça.
Levantamentos da contrainteligência policial evidenciaram a flagrante disparidade de prazos impostos pelo ministro dependendo do espectro político do investigado. Em casos emblemáticos, a PF constatou que Mendonça levou apenas nove dias para despachar e determinar medidas drásticas no caso envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA), no âmbito das apurações do Banco Master. Em contrapartida, quando o alvo era o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL-RJ), aliado político da extrema direita, o ministro demorou longos 75 dias para adotar qualquer decisão.
Situação idêntica de discrepância de critérios foi apontada pela PF na comparação do tratamento dispensado às menções envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula, chamado pela mídia corporativa de “Lulinha”, em contraste com a lentidão e benevolência dedicadas ao ex-prefeito e dirigente político baiano ACM Neto, em inquéritos idênticos. A disparidade de ritmo, que acelera severamente quando mira opositores e desacelera perante aliados, levou a Polícia Federal a registrar internamente como as convicções e o direcionamento político têm contaminado a condução dos inquéritos, algo ilegal para o exercício da função de ministro do STF.
No que diz respeito ao inquérito do Master, a apuração com a fonte da PF aponta que já há uma espécie de ponto pacífico de que a relatoria sairá das mãos de Mendonça por não haver mais condições de lisura por parte do ministro, algo compartilhado inclusive pelos colegas de tribunal. No entanto, como vem sendo noticiado, a decisão só pode ser tomada por Fachin, que neste momento atua arbitrando o caos para tentar baixar a temperatura.
Questionado sobre qual caso, nomeadamente, poderia trazer problemas de maneira mais imediata para Mendonça, em relação ao seu comportamento alegadamente suspeito nos inquéritos e processos, o que deve fazer com que o inquérito do Master saia de suas mão, o agente federal não hesita:
“O caso do Flávio [Bolsonaro]… Esse é um dos principais, se não for o principal caso, a ser analisado e a virar alvo por parte da Contrainteligência… A forma como ele agiu protegendo o Flávio Bolsonaro, o que jamais poderia acontecer, é nítida para a PF e isso pode ser observado analisando o inquérito e curso do próprio inquérito… Estamos falando de R$ 61 milhões, depois mais R$ 8,6 milhões, que chegaram ao conhecimento da PF e dele [Mendonça], e que ele e a turma do gabinete ignoraram… O cara [Flávio] é candidato à Presidência da República! Meu Deus do céu, ele não pode legalmente agir assim ignorando e blindando, e isso está nos autos pelas condutas que ele tomou… Ou não tomou… Ao analisar isso, todo mundo lá [na PF e no STF] já apontou o viés político-eleitoral do Mendonça, e esse vai ser o caso que terá mais peso para mostrar que ele não tem condições seguir como ministro do STF… Muita coisa sobre o Flávio virá à tona quando o que tiver que ser feito for feito”, garantiu.
Ao analisar o impacto dessas constatações e o teor dos relatórios que vazaram ou tiveram o sigilo levantado, a fonte da Polícia Federal ressalta que o modus operandi de Mendonça foi cabalmente escancarado, expondo a manipulação do devido processo legal:
“A situação é a seguinte: mesmo que os relatórios não sejam provas definitivas de algo errado juridicamente por parte do Mendonça, pois não foram inseridos em nenhum processo, embora muita coisa esteja errada, eles mostram como o Mendonça opera. Ou seja, expõem os riscos que ele trouxe para o inquérito e a sua forma de direcionar as investigações para tentar interferir no devido processo legal… Isso por si só é um absurdo, e trará consequências”, explanou a fonte.
Ataque à cúpula da corporação e ao diretor-geral Andrei Rodrigues
O ápice do descontentamento da Polícia Federal com o integrante da Suprema Corte foi o ataque ostensivo direcionado ao próprio topo da instituição. Ao tentar instrumentalizar vazamentos e ilações para fragilizar a investigação, Mendonça mirou diretamente a gestão do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Na avaliação dos quadros técnicos e operacionais da PF em Brasília, a tentativa de fustigar o comando da corporação teve como objetivo enfraquecer o trabalho sério de apuração que vem desmantelando esquemas de corrupção, redes de desinformação e tentativas de golpe de Estado no país.
O servidor ouvido pela Fórum pontua que a linha vermelha foi cruzada quando o ministro priorizou o interesse político-partidário em detrimento do rito institucional:
“O devido processo legal e o rito processual da investigação foram corrompidos por Mendonça por interesse político, em uma tentativa de atingir figuras de cúpula e decisórias, como o diretor-geral da Polícia Federal, o Andrei [Rodrigues]”, disparou o servidor.
Encenação com Vorcaro, a entrega em mãos e o troco da PF
A engenharia montada em torno das declarações de Daniel Vorcaro perante o juiz auxiliar de Mendonça é descrita pelo agente federal como uma peça de teatro político meticulosamente ensaiada para criar um pretexto jurídico contra Alexandre de Moraes e a própria PF.
A cena da entrega física, feita em mãos, do pedido de abertura de investigação foi o gatilho desenhado para forçar o acesso a dados sigilosos e gerar matérias plantadas na imprensa tradicional com vazamentos seletivos e premeditados. No entanto, o investigador avisa: o tempo da complacência institucional com métodos arbitrários acabou. A Polícia Federal de hoje não é a mesma que assistiu passivamente aos abusos cometidos por parte de seus quadros durante o ápice da Operação Lava Jato.
Com um tom incisivo, o experiente agente detalha a sequência de fatos e decreta que Mendonça arrumou um impasse institucional do qual dificilmente sairá ileso:
“Ele vai levar várias emparedadas daqui para frente, isso está claro… O depoimento do Vorcaro para o juiz auxiliar e toda aquela encenação já fazem parte desse desvio do Mendonça. A entrega física, em mãos, do pedido de investigação, ou de inclusão do Moraes, foi feita para ele ter acesso aos pontos que supostamente vinculavam o Moraes ao Vorcaro. E aí vêm os vazamentos premeditados… E o ‘corre’ da PF é esse, investigar certo, com o devido processo legal. Mas o Mendonça vai lá e faz isso aí, tenta intimidar a PF e age desse jeito gângster. Ele está com um problemão agora. Isso a PF não vai engolir, como fizeram lá na Lava Jato. E ele ainda expôs a instituição ao atacar o Andrei [Rodrigues, diretor-geral]”, revelou o agente da PF.
O vídeo e a incitação às ruas
Após uma longa entrevista, o servidor da Polícia Federal retomou o contato e disse que havia algo que precisava de um aparte. André Mendonça havia publicado um vídeo nas redes, em tom quase messiânico, agradecendo orações e o apoio recebido, uma atitude estranha e até certo ponto inexplicável para um magistrado da Suprema Corte, que deve apenas tomar decisões justas segundo a Constituição e o ordenamento jurídico nacional. Para o agente, assim como para a PF, porque os grupos de WhatsApp de integrantes da corporação fervilhavam àquela altura, segundo o entrevistado, a atitude foi uma iniciativa concreta e uma convocação, mas também uma confissão de quem sabe que agora “tem um problemão”.
“Mendonça gravou esse vídeo aí, que vimos agorinha de noite, para os irmãos evangélicos dele, e é sintomático o que ele está fazendo: campanha para levar gente da extrema direita para a Paulista e para as ruas do país criando esse clima de ‘manifestação paralela’ do 7 de Setembro. Aí vai Malafaia, vai todo mundo, e você já sabe como é, né? Quer se converter, não só de forma simbólica, na figura do mundo jurídico da extrema direita. E quer se salvar… Isso é papel de ministro do STF? Alguém já viu isso na vida? Ele assume que quer ‘ressignificar’ a República, e por via judicial… Todo mundo está de olho nesses movimentos”, acrescentou a fonte.
Sobre esse movimento novo, o policial federal contextualizou que isso foi tão planejado que, mesmo após a saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master e o sorteio que designou Mendonça, o ministro evangélico esperou o auge do período eleitoral para acender a chama que incendiaria o “espantalho” predileto dos bolsonaristas, o “colega” Alexandre de Moraes, que colocou Bolsonaro na cadeia.
“Ele ficou dois anos ‘pianinho’ [quieto] até que aquele sorteio fez cair nele a relatoria do Master, depois que o Toffoli abandonou o caso por pressão… Agora, seis meses depois, simplesmente escolhe todos aqueles que vão fazer ou não delação e direciona tudo apenas para quem ele quer… E tudo justamente agora, calculando e cavando interferência eleitoral em favor do Flávio Bolsonaro”, disse.
Cálculo político raso para salvar a extrema direita
O desfecho da entrevista exclusiva com a fonte da Polícia Federal aponta para o colapso da estratégia política de André Mendonça. Ao tentar se cacifar como o principal contraponto a Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal, assumindo o papel de paladino e “salvador” do bolsonarismo, o ministro atropelou preceitos básicos da inteligência e da prudência da magistratura.
Ao personificar o ataque contra Moraes, figura vista pela extrema direita e por Jair Bolsonaro (o padrinho que o indicou à vaga “terrivelmente evangélica”) como seu grande “carrasco” judiciário, Mendonça acabou por isolar a si próprio, mobilizando a reação unificada da Polícia Federal, da Contrainteligência da corporação e da própria maioria do STF.
“Mendonça agiu com pouca inteligência, muito pouca… Botou o Vorcaro para falar o que ele queria ouvir. Em resumo, o Mendonça agiu de forma circunstancial para contrapor. Ele queria ser o salvador da extrema direita, uma vez que o Moraes é o ‘carrasco’ do seu padrinho de indicação ao STF… Mas agora tem um preço alto aí”, finalizou a fonte da PF.




