Cimi/RO denuncia retrocessos, falta de demarcação e cobra proteção aos territórios indígenas em assembleia

Mensagem final da 41ª Assembleia do Cimi Regional Rondônia aponta demora em processos de demarcação e criminalização de lideranças

Cimi

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Rondônia encerrou, em 3 de setembro, sua 41ª Assembleia com uma mensagem de denúncia sobre o avanço de violações de direitos indígenas e ambientais e de defesa da organização coletiva como instrumento de resistência. Realizado nos dias 2 e 3 de setembro, em Porto Velho (RO), o encontro reuniu lideranças dos povos Kujubin, Karitiana, Oro Mon, Kassupá, Mamaindê e Amondawá, além de representantes de movimentos sociais, pastorais, organizações da sociedade civil, da Igreja Católica e do Cimi Nacional.

Sob o lema “Esperançar e Anunciar a Vida em Tempo de Retrocesso”, os participantes afirmaram que o atual cenário é marcado por retrocessos sociais, políticos, ambientais e eclesiais. A mensagem final denuncia, entre outros pontos, a demora no reconhecimento e na proteção dos territórios indígenas, as ameaças de morte e a criminalização de lideranças e movimentos sociais, as invasões territoriais e a atuação do crime organizado.

O documento cita especificamente a morosidade nos processos de demarcação dos territórios dos povos Puruborá, Kujubin, Kassupá, Migueleno, Guarasugwe, Karitiana e Wayoro, além de denunciar ações armadas da Polícia Militar contra comunidades. Também critica o modelo econômico baseado na exploração dos territórios e as chamadas “falsas soluções baseadas na natureza”, apontadas como mecanismos de transformação da vida e dos territórios em mercadoria.

A assembleia defende o fortalecimento da articulação entre povos indígenas, comunidades tradicionais, camponeses, movimentos sociais, pastorais, igrejas e organizações da sociedade civil. Para os participantes, a esperança deve se traduzir em organização, resistência, solidariedade e luta pela defesa dos territórios, da justiça socioambiental, da Casa Comum e do Bem Viver.

Ao final, a mensagem reafirma o compromisso com a defesa dos direitos dos povos originários e convoca à mobilização por justiça, entendida como condição para a construção de uma paz efetiva. O documento também recupera uma passagem do Evangelho de João, “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10), como expressão do compromisso assumido durante a assembleia.

Leia a carta da assembleia na íntegra:

Mensagem final da 41ª Assembleia do Cimi/RO

“Esperançar e Anunciar a Vida em Tempo de Retrocesso”

Nós, mulheres e homens, lideranças indígenas dos povos Kujubin, Karitiana, Oro Mon, Kassupá, Mamaindê e Amondawá, representantes dos movimentos sociais e entidades MAB, Cáritas, CPT, OPIROMA, Via Campesina, Pastoral Indigenista, grupo de apoio, juntamente com representantes da Arquidiocese de Porto Velho, Frades Capuchinhos, Cimi Nacional e bispo da Diocese de Ji-Paraná, missionários e missionárias, estivemos reunidos e reunidas nos dias 2 e 3 de setembro de 2026, por ocasião da 41ª Assembleia do CIMI/RO.

Inspirados e inspiradas pelo lema “A esperança não decepciona!” e pelo compromisso com a vida e pela força da esperança, reafirmamos nossa missão de defender a vida, a terra e os territórios, os direitos dos povos originários, dos camponeses, das comunidades tradicionais e das populações das cidades e periferias.

Vivemos um tempo marcado por profundos retrocessos sociais, políticos, ambientais e eclesiais. A conjuntura atual nos desafia a perseverar no esperançar, mesmo diante das inúmeras situações de morte e do avanço de um modelo econômico sustentado pela exploração, pela concentração de riquezas e pela destruição dos territórios dos povos da terra, das águas e das cidades.

Diante dessa realidade, denunciamos:

As chamadas “falsas soluções baseadas na natureza”, que transformam a vida e os territórios em mercadoria, aprofundando desigualdades e provocando graves rupturas sociais nas comunidades;

Os deslocamentos forçados e as ameaças que expulsam povos e comunidades de seus territórios tradicionais;

A morosidade e a negligência nos processos de demarcação das terras dos povos Puruborá, Kujubin, Kassupá, Migueleno, Guarasugwe, Karitiana e Wayoro, entre outros que aguardam o reconhecimento e a proteção de seus territórios;

A criminalização das lideranças e dos movimentos sociais, bem como as constantes ameaças de morte contra aqueles e aquelas que defendem seus povos, territórios e direitos;

A escalada da violência contra os povos originários e as comunidades tradicionais, agravada pela atuação do crime organizado, pelas invasões territoriais, pela insuficiente proteção do Estado e pela ação armada contra as comunidades pela Polícia Militar;

O modelo capitalista de exploração, responsável pelo agravamento das mudanças climáticas, cujos impactos recaem de maneira desproporcional sobre os povos, comunidades e populações mais vulnerabilizadas;

A violação sistêmica dos direitos dos povos originários pelo Estado brasileiro, expressa também no desmonte e na fragilização de políticas públicas específicas e diferenciadas nas áreas da saúde, educação, proteção territorial e fortalecimento das economias indígenas.

Diante de tudo isso, somos chamados e chamadas a renovar a esperança, pois acreditamos que, quanto mais difícil é o tempo, mais forte deve ser a esperança. Nossa esperança não é passiva. É uma esperança que se transforma em organização, resistência, solidariedade e luta. É o esperançar que nasce dos territórios, das comunidades, das aldeias, dos campos e das periferias; que se alimenta da memória ancestral, da espiritualidade dos povos e da certeza de que a vida é maior que os projetos de morte.

Reafirmamos que nossa ação está pautada no compromisso permanente com os povos originários, as comunidades tradicionais, os camponeses e as populações das periferias urbanas. Sabemos que somente de forma organizada, articulada e solidária seremos capazes de enfrentar a exploração, a criminalização das lutas, as invasões dos territórios e as ameaças provocadas por madeireiros, grileiros, grandes empreendimentos e demais interesses econômicos que colocam o lucro acima da vida.

Assumimos, portanto, o compromisso de fortalecer a articulação entre os povos, movimentos sociais, comunidades, pastorais, igrejas e organizações comprometidas com a defesa da Casa Comum, com a justiça socioambiental e com o Bem Viver dos povos. Nossa fé nos convoca a permanecer firmes. O Evangelho nos recorda: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). É essa vida plena que defendemos e pela qual continuaremos caminhando.

Convocamos todas e todos a lutar incansavelmente pela justiça, entendendo que a paz verdadeira somente se concretiza quando há justiça, dignidade, direitos e respeito aos povos e à natureza; a continuar em resistência diante do projeto de morte imposto pelo capital e a fortalecer a esperança que brota da caminhada coletiva.

Acreditamos que pessoas simples, fazendo coisas pequenas, em lugares pequenos, podem promover mudanças extraordinárias na face da Terra. Por isso, seguimos confiantes e firmes: “diga ao povo que avance, avançaremos”.

Porto Velho, Rondônia, 3 de setembro de 2026

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