Desmonte do marco fundiário e da política agrária paulista são denunciados por assentados, servidores e ex-servidores do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp)
Por Julia Dolce, de O Joio e o Trigo
Em abril de 2023, duas semanas após terem seus lotes titulados pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), órgão paulista responsável pela execução da política agrária e fundiária, os agricultores do assentamento Dom Tomás Balduíno foram convidados por funcionários do órgão para uma reunião. O tema era a discussão da produtividade do assentamento.
“A gente foi pensando que o Itesp ia desenvolver o assentamento. O pessoal nunca imaginou que ‘discutir a produtividade’ era arrendar o lote para a cana-de-açúcar”, conta o agricultor Valmir Ulisses Sebastião, assentado no Dom Tomás Balduíno e membro da direção regional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Na ocasião, os servidores do Itesp levaram para dentro do Dom Tomás Balduíno representantes da usina sucroalcooleira norueguesa Umoe Bioenergy, que tem sede no município de Sandovalina, onde também fica o assentamento. Nos 60 quilômetros entre Sandovalina e o maior município da região, Presidente Prudente, a usina planta canaviais em aproximadamente 40 mil hectares de terras. Cada hectare equivale aproximadamente a um campo de futebol.
A região, conhecida como Pontal do Paranapanema, fica no extremo oeste de São Paulo e é cenário de antigos conflitos fundiários entre movimentos camponeses e fazendas griladas sobre a maior porção de terras públicas devolutas remanescentes no estado. A expectativa dos movimentos é que essas terras se tornassem novos assentamentos. Entretanto, a gestão do governador e candidato à reeleição Tarcísio de Freitas (Republicanos) teve outros planos: privatizá-las.
“A gente entrega o título e imediatamente traz a agroindústria para trabalhar junto”, afirmou Tarcísio em visita ao Pontal realizada em junho deste ano. Na fala, o governador se refere a duas medidas colocadas em prática pelo Itesp na sua gestão: a entrega de títulos de domínio para famílias assentadas em lotes de assentamentos estaduais e a possibilidade de arrendamento desses mesmos lotes, mesmo antes da titulação, para empresas do agronegócio.
A experiência do Assentamento Dom Tomás Balduíno inaugurou a estratégia. Para ex-servidores e servidores do Itesp ouvidos pelo Joio – os trabalhadores na ativa preferiram não se identificar temendo represálias –, os efeitos desse combo indicam o desmonte da política de “reforma agrária” paulista.
- Reforma agrária
O Governo Federal, por meio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), identifica e destina terras para a execução da política de reforma agrária. Esse processo envolve a criação de diferentes modalidades de assentamentos, por meio da desapropriação de fazendas que não cumprem a função social da terra, ou da arrecadação de terras particulares e públicas federais. A titulação definitiva (entrega de títulos de domínio) é prevista para os assentamentos federais.
⠀ - Política agrária e fundiária estadual:
As unidades federativas (estados) executam políticas agrárias e fundiárias por meio da valorização e da destinação de terras públicas estaduais, que podem ser destinadas à criação de assentamentos estaduais ou de unidades de conservação. A Constituição do Estado de São Paulo não prevê a possibilidade de emissão de títulos de domínio para assentamentos estaduais, mas, sim, a concessão de Direito Real de Uso, documento que mantém a propriedade da terra pública, mas garante às famílias assentadas o direito de uso e usufruto de seus lotes.
“A política agrária paulista está definhando, acabou”, resume Alberto Vasquez, assessor parlamentar do Partido dos Trabalhadores (PT) na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) e ex-servidor do Itesp e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
O diagnóstico prevê um cenário cada vez mais comum em assentamentos titulados pelo país: a reconcentração de terras pelo agronegócio. Isso porque há uma crescente pressão de fazendas monocultoras, ou mesmo de construtoras, sobre os assentamentos paulistas.
Atualmente, os assentamentos estaduais são a maioria em São Paulo: 141 do total de 276 assentamentos no estado — o restante é gerido pelo governo federal.
Mais da metade dos 150 mil hectares que compõem esses assentamentos estaduais (57%) já não pode mais ser considerada terra pública, podendo ser vendida a terceiros. Isso porque o Itesp já iniciou a titulação de 4.142 lotes desses assentamentos, transformando seus 86 mil hectares em propriedade privada.
O dado foi informado pelo órgão ao Joio em resposta a um pedido de Lei de Acesso à Informação (LAI). Segundo o Itesp, os outros cerca de 63 mil hectares de assentamentos estaduais devem ser titulados até o fim do ano. O órgão não soube informar quantos desses lotes já foram vendidos, justamente porque as famílias tituladas deixam de integrar o público beneficiado pelas suas políticas agrárias.
A corrida pela titulação de lotes de assentamentos estaduais em São Paulo
Um servidor do Itesp ouvido pela reportagem afirmou que, neste ano, recebeu representantes de agroindústrias solicitando informações sobre como comprar os lotes de assentamentos. “Eu falei pra ele ir até o cartório e ver como faz, porque não precisam da anuência do Estado”, relata.
Outra tabela enviada pelo Itesp em resposta ao pedido de LAI informa que, por meio de seu programa de “parcerias produtivas”, partes de 462 lotes de assentamentos estaduais espalhados pelo estado estão sendo ocupadas pela agroindústria, sendo a maioria delas (82%) para a produção de cana-de-açúcar, gado e soja.
Já são mais de 3 mil hectares de terras, antes públicas e destinadas à agricultura familiar, agora arrendadas para pasto ou para a produção dessas commodities. O Itesp se recusou a enviar os nomes das empresas que atualmente arrendam essas terras, alegando que a informação fere a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).
“O Itesp mente dizendo que é isso é regularização”
A titulação de lotes de assentamentos estaduais se tornou possível graças a brechas no marco legal da política agrária paulista, instituídas pelos governos de João Dória (2019 a 2022 pelo PSDB) e de Tarcísio (governador desde 2023). Entre elas estão a Lei nº17.517/2022, que criou a figura dos títulos de domínios que, na prática, privatizam os lotes de assentamentos estaduais, e a Lei nº18.294/2025, que revogou uma cláusula de quarentena que impedia a venda desses lotes por dez anos.
Diferentemente da política federal de reforma agrária, que prevê a titulação definitiva como etapa final da distribuição de propriedades por meio da criação de assentamentos, a política agrária paulista não previa essa modalidade. Antes, as famílias assentadas em assentamentos estaduais paulistas recebiam apenas concessões reais de uso, documento que lhes dava o direito ao usufruto de seu lote e a transmiti-lo por herança.
Esses lotes só poderiam ser repassados para terceiros que se enquadrassem no perfil da agricultura familiar, e apenas quando houvesse adoecimento ou morte dos titulares. Nesses casos, as famílias recebiam uma indenização pelas benfeitorias construídas sobre os lotes.
Com as mudanças recentes na legislação, os lotes de assentamentos estaduais podem agora ser vendidos imediatamente e a qualquer pessoa ou empresa.
“Pode ser um açougueiro, pode ser um político, pode ser alguém que quer fazer uma chácara de lazer. Pode ser até o próprio fazendeiro da região”, afirma a advogada e engenheira agrônoma Tânia Andrade, primeira diretora executiva da Fundação Itesp. Ela denuncia a inconstitucionalidade da mudança, uma vez que a emissão de títulos de domínio é atribuição exclusiva da União.
Andrade explica que a Constituição Estadual não prevê a possibilidade de emissão de título de domínio, porque terras devolutas são inalienáveis. “O objetivo dessa concessão de uso em terra pública, de se fazer um assentamento estadual, é valorizar essa terra, fazer com que ela tenha uma finalidade nobre”.
Essa finalidade, prevista na Lei estadual nº4957/1985, que dispõe sobre a valorização e aproveitamento dos recursos fundiários paulistas, prevê a disponibilização da terra especificamente para a agricultura familiar, modelo de produção que pressupõe que a maior parte do trabalho rural seja realizado por membros da unidade familiar em questão.
Segundo Alberto Vasquez, essa lei costumava ser o principal mandamento dos servidores do Itesp. “Ela organiza os critérios da seleção de famílias, de forma que o Estado, tendo terras, deveria valorizá-las para promover a justiça social”, pondera.
Outro instrumento importante para a recente e radical mudança na política agrária paulista foi a Lei nº 17.557/2022, que criou o chamado “Programa Estadual de Regularização de Terras”. Por meio dela, a gestão Tarcísio não tem apenas acelerado a titulação dos assentamentos, mas também das fazendas griladas em terras públicas, como investigou o Joio em outra reportagem.
O programa estadual é objeto da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7326/2022, assinada pelo PT e pela Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), que atualmente aguarda julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). O foco de questionamento da ADI é a entrega de terras públicas ao poder privado.
Em contrapartida, a campanha de Tarcísio à reeleição tem propagandeado a entrega de títulos de domínio aos assentados, nomeando-a como uma ampla ação de regularização que traria segurança jurídica para as famílias. Outro político que ecoa a narrativa é o candidato a deputado federal Guilherme Piai (Republicanos), ex-secretário de agricultura e ex-diretor executivo do Itesp no governo Tarcísio.
Piai é herdeiro de fazendas na região do Pontal do Paranapanema e natural de Presidente Prudente, onde lançou sua pré-candidatura no último 23 de junho, em evento que contou com a presença de Tarcísio e do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL). Em vídeo publicado recentemente pela sua campanha, ele destaca que sua gestão à frente do Itesp e da pasta da agricultura teria entregue escrituras de propriedades a mais de cinco mil famílias assentadas.
“Regularização fundiária é dar segurança para quem vive, trabalha e produz na terra. Ao lado do governador Tarcísio, fiz a reforma agrária do jeito certo: sem invasão, sem conflito e com respeito à propriedade. Com diálogo, trabalho e o documento na mão de quem tem direito”, defende a postagem.
A narrativa eleitoral da regularização, porém, também é questionada pelas fontes ouvidas pelo Joio. Isso porque, diferentemente do informado pelos candidatos, as famílias assentadas não estavam irregulares antes da titulação. “O Itesp mente dizendo que isso é regularização. Você só criou uma fase a mais no processo de assentamento estadual”, avalia Vasquez.
Para Tânia Andrade, a concessão real de uso entregue aos assentados como fase final do processo de assentamento estadual lhes garantia uma segurança jurídica maior de que não seriam retirados de seus lotes. “Porque ninguém poderia tomar aquela terra, nem mesmo um banco”, explica.
Ausência de políticas públicas
O discurso da regularização via titulação, porém, ganhou aprovação de parte da população assentada. Segundo Andrade, houve um esforço do governo estadual em fomentar, entre os assentados, a desinformação e o medo de que as concessões reais de uso poderiam ser revogadas a qualquer momento.
O apelo pela titulação, porém, responde também a uma demanda dos próprios assentados: um desejo crescente de se desfazerem de seus lotes. Por trás dessa motivação estão uma série de dificuldades em seguir produzindo no campo. Uma dessas barreiras é a falta de sucessão rural – filhos que não querem seguir trabalhando como agricultores.
“Há desafios para manter a agricultura familiar no contexto atual, com ampla mecanização da agricultura e acesso à internet. O jovem não vai querer ficar na enxada. Ele estuda, ameaça sair do lote e com o casal original já idoso, a especulação imobiliária bate à porta. É tentador”, resume Vasquez.
Há uma série de medidas que poderiam ser tomadas pelo governo estadual para incentivar a agricultura familiar, como políticas de assistência técnica e rural e a ampliação do acesso e da remuneração via políticas federais e estaduais que compram a produção de assentados. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) ou o Programa Paulista da Agricultura de Interesse Social (Ppais) são alguns exemplos citados por Vasquez.
“Se você tivesse só um fortalecimento do Ppais, a médio prazo, as famílias poderiam começar a se estruturar, porque demora alguns anos para uma inserção bem sucedida no mercado a ponto de pensarem: ‘vou ficar aqui nessa terra e a minha próxima geração também’”, avalia Vasquez. “[Essa situação] já é difícil em um governo que apoia a agricultura familiar”, diz o ex-funcionário do Itesp, que acredita não ter havido vontade política para implantar medidas favoráveis à agricultura familiar nas últimas gestões estaduais.
O agricultor Valmir Ulisses Sebastião revela que os assentados do Dom Tomás Balduíno tentaram debater a melhoria dessas políticas com representantes do Itesp. “A gente discutiu que tinha várias possibilidades do que poderia mudar, mas o governo nunca colocou um real dentro do assentamento”, afirma.
Na sua avaliação, esse desamparo deixa as famílias mais suscetíveis às propostas de venda e arrendamento de seus lotes. “Quando a pessoa não tem uma política pública para desenvolver o lote, ela vai acabar procurando alguma coisa para tentar sobreviver”.
Para Andrade, essa consequência é calculada. “O objetivo de você entrar com parcerias ao invés de estimular a produção pelo próprio assentado é fragilizar esse assentado. É uma política muito nefasta”, crava.
“O técnico do Itesp disse que compensava arrendar”
De acordo com Valmir, após receberem os técnicos do Itesp acompanhados de representantes da Umoe Bioenergy, alguns assentados do Dom Tomás Balduíno ficaram tentados a arrendar suas terras. Os técnicos do órgão público chegaram a incentivar esse arrendamento, conta. “Eles iam primeiro nas casas das famílias que defendiam pra tomar cafézinho. Tinham reuniões marcadas em assentamentos de todos os municípios do Pontal para plantar cana-de-açúcar “.
Uma situação semelhante foi narrada à reportagem durante uma viagem de campo ao Pontal do Paranapanema, realizada no último mês de julho. Segundo Claudecir Adriano da Silva, agricultor e tesoureiro da Coopercampo, cooperativa que atende os assentados do Pontal, técnicos do Itesp também passaram pelo seu assentamento Rodeio, que fica no município de Presidente Bernardes. O objetivo era incentivar o arrendamento de lotes para a usina sucroalcooleira vizinha, a Cocal.
“O próprio Estado levou [representantes da usina]. Quem faz o contato todinho com a empresa é o técnico do Itesp. Ele disse que compensava arrendar, que a gente teria mais tranquilidade. Como você vai combater o próprio Estado?”, questionou Claudecir.
Ele mostrou à reportagem um print de uma conversa de grupo no Whatsapp entre assentados, no qual um servidor do Itesp opina que a usina seria uma “benção” para assentados e familiares. “Emprega muita gente”, diz a mensagem.
Em outro trecho da conversa de texto, o técnico diz que vai seguir acompanhando as propostas entre a Cocal e os assentados, assim como teria acompanhado nos assentamentos Florestan Fernandes, localizado em Mirandópolis, Estância Palu, localizado em Presidente Bernardes, e Santo Antônio 2, que fica em Mirante do Paranapanema.
Os assentados do Rodeio negaram a parceria. Procurada, a Usina Cocal respondeu que a empresa foi convidada pelo Itesp e pela Secretaria de Agricultura do estado a “avaliar a possibilidade de uma parceria para o cultivo de cana-de-açúcar, com o objetivo de ampliar a rentabilidade das propriedades”.
A Usina informou que foram realizadas tratativas iniciais e que foi firmado um protocolo de intenções para estudo da possibilidade de parceria, mas sem a transferência de posse ou a autorização de uso dos lotes: “como não houve manifestação de interesse dos assentados, a Cocal não prosseguiu com a iniciativa”. Confira a nota na íntegra.
Os assentados do Dom Tomás Balduíno também acabaram negando a parceria com a Umoe Bioenergy. Segundo Valmir, as condições da proposta eram bastante desfavoráveis aos assentados. Ele lembra que o valor máximo anual ofertado pela usina pelo alqueire de terra arrendado, aproximadamente 2,42 hectares, era R$4 mil. “Era muito menor do que se a gente produzisse alface, por exemplo, nesse determinado alqueire”.
Outros pontos que afastaram os assentados, explica o agricultor, é que eles teriam que trabalhar cortando cana-de-açúcar para a usina e se submetendo ao modelo de produção indicado pela empresa, inclusive com uso de agrotóxicos. Valmir destaca também que o contrato envolvia a usina ter procuração para pegar empréstimos no nome dos assentados.
O Joio pediu ao Itesp e à Umoe Bioenergy acesso ao contrato apresentado nas visitas ao Dom Tomás Balduíno, para conferir as informações, mas não obteve retorno.
Tal arrendamento de lotes de assentamentos – ou como colocado por Tarcísio, o ato de “trazer a agroindústria pra dentro” – tem ocorrido principalmente por outras brechas abertas na sua gestão: uma série de diretrizes publicadas pelo Itesp nos últimos anos. A principal delas é a portaria nº53/2023, que autorizou que até 70% de lotes de assentamentos estaduais sejam outorgados à empresas por meio das chamadas “parcerias produtivas”.
Em resposta ao pedido de LAI feito pela reportagem, o Itesp afirmou que o programa não pode ser nomeado como uma iniciativa de “arrendamento” de terras: “A utilização das expressões ‘arrendamento’ e ‘lotes arrendados’ não corresponde à sistemática adotada pela Fundação Itesp”.
Para os ex-servidores do Itesp ouvidos pela reportagem, o termo “parcerias produtivas”, porém, seria uma maquiagem. “Eles usam esse eufemismo porque se admitirem que estão arrendando, significa dizer que os assentados não exploram diretamente, e sim a indústria. Mas nós sabemos que é a agroindústria quem decide tudo, então a exploração não é mais direta da família, o que trai a lei 4957/1985″, afirmou Vasquez.
Segundo o assessor parlamentar, o Itesp era pressionado havia anos pelo agronegócio para autorizar arrendamentos em assentamentos estaduais. “Essas terras estão muito bem localizadas. Desde o começo dos anos 2000 já havia pressão dos vizinhos, e debate interno no Itesp, pelo arrendamento. Com a portaria e com o enfraquecimento das políticas de agricultura familiar, os próprios chefes do órgão abriram as portas para o arrendamento”, afirma.
De acordo com o texto da portaria nº 53/2023, toda a produção feita na parte do lote outorgada às empresas deve ser comercializada, ficando “assegurado o pagamento da cota parte do parceiro assentado, conforme condições acordadas e estipuladas pelo contrato”. O texto coloca também que, com a “parceria”, assentados e empresas partilham riscos advindos “da força maior”.
A participação do órgão neste contrato, porém, é considerada “meramente fiscalizatória” e apenas no ato da implantação do projeto. Após a assinatura do contrato, o órgão se isenta das funções de mediar a relação entre assentados e empresas. “A Anuência dada pela Fundação Itesp aos contratos firmados tem propósito meramente fiscalizatório dos termos e condições do uso do lote e da implantação do Projeto de Parceria Produtiva, ficando afastada toda e qualquer responsabilidade por obrigação decorrente do ajuste contratual”, diz o texto da portaria.
A regra prevê também que 70% da área pode ser arrendada, e que os 30% restantes devem ser destinados a moradia, quintais, hortas e pomares do assentado.
No entanto, segundo a ex-diretora executiva do Itesp, que participou da criação de boa parte dos assentamentos estaduais paulistas, o tamanho dos lotes de assentamentos é calculado tecnicamente, de modo a garantir a sustentabilidade econômica dos assentados, com espaço suficiente para o plantio para a subsistência para a produção econômica.
“A portaria transforma esses 30% do lote em uma chácara, o que é romântico, falso e absurdo. Não é difícil que o assentado acabe sendo obrigado a se desfazer daquilo que conquistou com tanta luta, refém da grande empresa. O que segura um pequeno agricultor na sua terra é a sua capacidade de sobreviver nela, de tirar comida dela. A produção de maior valor é essa da subsistência”, afirma.
Por fim, o texto da portaria indica que as parcerias produtivas deveriam observar os “projetos técnicos relativos ao plantio de culturas diversas”, realidade distinta do monopólio de commodities apresentado nos dados enviados pelo Itesp à reportagem.
Para Andrade, os resultados das mudanças nos marcos legais fundiários paulistas vão resultar em um cenário oposto ao da diversidade de plantios. “Com os assentamentos a gente via produção diversificada no Pontal do Paranapanema. Tinha fruta, diversos animais, mandioca, feijão. Era uma paisagem recortada. O objetivo agora é retomar a paisagem de antes, da exploração extensiva”, lamenta.
Agrotóxicos – “Imagina com a usina dentro do assentamento?”
A impossibilidade de seguir produzindo cultivos diversos foi outro ponto que desanimou os assentados do Dom Tomás Balduíno em relação à parceria com a Umoe. Isso porque o uso intensivo de agrotóxicos nos canaviais da usina que cercam o assentamento já contaminam e impossibilitam parte dessa produção.
“Depois que a usina chegou, a gente não consegue mais colher algumas frutas, por exemplo”, afirma Valmir. Ele conta que cultivos como o mamão apodrecem antes da colheita, contaminados pela deriva – termo técnico para as gotículas de agrotóxicos transferidas pelo vento.
O mesmo foi relatado por Claudecir no assentamento Rodeio. “Imagina com a usina dentro do assentamento?”, questionou. A Usina Cocal informou que não realiza pulverização em áreas de assentamento e que “seus prestadores de serviços de pulverização são homologados e licenciados para a atividade”.
Mas tanto a Umoe Bioenergy quanto a Cocal são rés em uma ação civil pública aberta pelo Ministério Público Estadual (MP-SP) em 2015. O processo investiga impactos socioambientais da pulverização de agrotóxicos por aviões na região do Pontal do Paranapanema desde 2009. A conclusão de técnicos do MP-SP na ação foi que a Umoe teria praticado a maioria das pulverizações no entorno de sericicultores – criadores de bicho-da-seda – de Pirapozinho, município da região, que perderam a produção.
Um artigo científico publicado à época destacou outras perdas, essas no assentamento Guarani, que também fica na região, associadas às pulverizações feitas pela Umoe desde que a multinacional se instalou no Pontal, em 2004.
“Devido à pulverização, as famílias alegaram a dificuldade de produzir de modo agroecológico. Os assentados também alegaram que a pecuária do assentamento é diretamente afetada, pois o pouco gado existente está morrendo em razão da contaminação causada pelo uso intensivo de agrotóxicos”, apresenta o artigo.
Mais recentemente, o relatório da pesquisa de pós-doutorado realizada por Alessandro de Santana na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em 2025, voltou a apontar a Umoe e a Cocal como responsáveis pela contaminação de lavouras de agricultores assentados. O documento destacou que os assentados denunciam a contaminação para os próprios técnicos do Itesp, que ainda assim, realizam um “trabalho de convencimento das famílias assentadas para firmarem parcerias com as empresas agropecuárias”.
Esse convencimento encontra como barreira a organização política e econômica dos assentados. Não à toa, os dados de parcerias produtivas enviados pelo Itesp mostram a presença da cana-de-açúcar em assentamentos que têm menos interlocução com movimentos sociais, em regiões onde o setor atua há mais tempo.
É o caso dos assentamentos Horto Guarany e Monte Alegre, localizados próximo a Araraquara, município da região central de São Paulo. Já a soja entrou principalmente no assentamento Boa Sorte, em Restinga, município da região nordeste do estado.
“Aqui a gente costuma fazer um debate mais amplo com as famílias sobre a importância de manter o que é mais sagrado, que é a terra, nosso bem comum da natureza”, explica Valmir. “A gente entende que não pode entregá-la para quem não tem vínculo com a agricultura familiar, que pode criar problemas. É uma área coletiva, cada um tem seu lote, mas cada um é vizinho do outro”, completa.
No entanto, a corrida pela finalização das titulações dos lotes de assentamentos ainda no atual mandato, com vistas à eleição para governador, tende a fazer essa organização perder força. Arrendar ou vender passa a ser uma decisão individual. “A pessoa isoladamente tem que resistir a uma grande pressão”, afirma Tânia Andrade.
Para ela, o conjunto de medidas que possibilitaram titulação e arrendamento de assentamentos representa a “morte por inanição da política agrária prevista constitucionalmente”. Ex-servidores e servidores na ativa convergem para um possível destino comum entre o Itesp e a agricultura familiar nos assentamentos estaduais: ambos podem deixar de existir.
Ou restaria aos assentados seguir o destino traçado por Tarcísio para sua política fundiária: tornarem-se “empreendedores do agro”
Procurados, o Itesp e a Umoe Bioenergy não responderam a reportagem até a publicação.




