A escalada da retórica belicista de Washington tenta disfarçar a profunda fragilidade de um governo marcado por sucessivas derrotas geopolíticas e pela perda de influência global
1.
Existem pequenos “acidentes”, na história, que são emblemáticos, e que conseguem sintetizar e desvelar – ao mesmo tempo – situações de enorme complexidade. Como foi o caso, por exemplo, do que aconteceu na cidade de Ancara, no dia 8 de julho de 2026, quando o presidente Donald Trump foi retirado às pressas do seu avião presidencial, e levado escondido num caminhão contêiner de refeições, para um outro aparelho militar menor e mais discreto que o retirou da Turquia, e o transportou para Inglaterra. E, na cidade de Londres, foi recolocado no Air Force One, para que pudesse sair pela sua porta da frente, como se nada tivesse acontecido.
Tudo isto logo depois de ter participado da reunião anual da OTAN, a organização militar mais poderosa do mundo, onde foi advertido pelo serviço secreto de Israel de que sofreria um atentado da parte do Irã. Esse episódio seria digno de uma comédia tipicamente americana, se não se tratasse do presidente dos EUA, e se ele não tivesse deixado dentro do “avião-isca” os jornalistas que o acompanham em suas viagens, junto com seus secretários de Estado, Marco Rubio, e do Tesouro, Scott Bessent.
E ainda mais, se essa “fuga secreta” não fosse um sinal da grande fragilidade e insegurança atual do presidente Donald Trump, fora da Casa Branca. Inclusive porque não foi apresentada nenhuma prova que corroborasse a informação sobre a ameaça, não se podendo excluir, portanto, outras hipóteses – verossímeis neste momento – como a de um atentado ou ameaça da parte dos inimigos internos de Donald Trump, dentro dos EUA ou da OTAN, ou mesmo de ser apenas um “susto de advertência” da parte de Israel.
Seja como for, depois que esta informação “supersecreta” foi noticiada pelo jornal americano, Washington Post, ela deu volta ao mundo transmitindo uma ideia da extrema fragilidade de um presidente que gosta de transmitir a imagem de um imperador global e todo-poderoso. Esta súbita fragilização da imagem do presidente e do poder americano, talvez explique a sucessão imediata de declarações de onipotência da parte de vários membros do governo Trump, e em particular da sua ala mais belicista.
Foi o caso do subsecretário de Guerra, Elbridge Colby, que declarou no dia 10 de agosto, na cidade de Manila, Filipinas, que os EUA estavam decididos a conter a China na “primeira cadeia de ilhas” através do “world’s biggest stick” – em suas próprias palavras. O mesmo subsecretário que vem defendendo a necessidade do uso de “armas nucleares táticas”, caso seja necessário, para “expulsar os interesses” russos e chineses do Hemisfério Ocidental.
2.
No dia seguinte, 11 de agosto, o Departamento de Estado divulgou um vídeo institucional narrado pelo embaixador dos EUA no Panamá, que dizia “que o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais seria questionado”, dando como exemplo da decisão inquebrantável dos EUA, a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, do dia 3 de janeiro de 2026.
De imediato, no dia 12 de agosto, o Secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, anunciou no Fórum da Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C), realizado na cidade do Panamá, a decisão americana de iniciar de imediato operações militares terrestres na Colômbia, antecipando a visita do Secretário de Estado, Marco Rubio à própria Colômbia, ao Equador e ao Peru, no início do mês de setembro.
No dia 17 de agosto o próprio Donald Trump ameaçou destruir Omã, que é um protetorado militar dos EUA, caso o governo de Omã negociasse separadamente com o Irã uma administração conjunta do Estreito de Ormuz. E uma semana depois, no dia 24 de agosto, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent declarou – ao anunciar as novas sanções econômicas contra o Irã – numa conferência de imprensa na Casa Branca, que “ninguém no mundo está acima do alcance das sanções econômicas dos EUA”.
Esta explosão de onipotência, entretanto, parece cada vez mais descolada dos fatos. Porque até aqui o único grande “trunfo” do governo Donald Trump foi seu ataque à Venezuela realizado depois de uma gigantesca mobilização de forças navais, aéreas e terrestres, levada a cabo durante vários meses, com o objetivo final de capturar apenas duas pessoas.
Mas depois disto, ou ao lado disto, sem respeitar necessariamente a sequência cronológica dos acontecimentos, o governo de Donald Trump fracassou no seu projeto de pacificar a Ucrânia em 100 dias, como havia anunciado em sua campanha presidencial; recuou com relação ao seu anunciado desejo de conquista da Groenlândia e do Canadá; sofreu um grande revés na sua guerra comercial contra a China; não conseguiu atrair a Coreia do Norte para algum tipo de negociação e fratura do bloco de países eurasianos; foi derrotado nas eleições da Hungria, a despeito da intervenção direta e pessoal do vice- presidente americano, David Vance; viu seu projeto de paz de 15 pontos para Gaza rejeitado sem nenhuma contemplação, pelo seu grande aliado Benjamin Netanyahu.
Sofreu uma derrota estratégica fragorosa na sua guerra ao lado de Israel, contra o Irã; não conseguiu impedir que os Houthis conquistassem nos últimos dias, a cidade-porto de Makha e a Ilha Perim, abrindo uma segunda frente vitoriosa, ao lado do Irã e contra os EUA e Israel, e assumindo o controle militar do Estreito de Bab al-Mandeb, e de todo o tráfico marítimo pelo Mar Vermelho, em particular do petróleo da Arábia Saudita.
Finalmente, vem fracassando na sua guerra econômica contra a Rússia, há mais tempo, e agora na sua nova ofensiva contra o Irã – a despeito de toda a empáfia de Scott Bessent – que apesar de intervir diretamente no mercado, por meio de operações financeiras e liberação de reservas estratégicas, nestas últimas semanas, não conseguiu impedir que o preço do petróleo ultrapassasse a “linha vermelha” dos US$ 107 dólares, depois da última ofensiva vitoriosa dos Houthis.
3.
Acrescente-se a esta lista de “insucessos imperiais” de Donald Trump, sua ruptura diplomática com alguns de seus principais aliados e vassalos do Atlântico Norte e da Ásia, muitas vezes sem nenhum tipo de justificação como ocorreu recentemente com a suspensão parcial dos exercícios militares conjuntos dos EUA com a Coreia do Sul.
Ou mesmo, com a guerra comercial extremamente destrutiva com o Canadá, seu vizinho com quem mantinha relações amistosas e pacíficas desde 1815. Contribuindo decisivamente para a fragilização do bloco político-econômico e militar do Atlântico Norte, deixando as portas abertas para o avanço do BRICS e da China, em particular, no Oriente Médio, na Eurásia e África, e até mesmo na América do Sul.
Basta dizer que no mês de agosto, depois de participar da reunião do Escudo das Américas, no Panamá, concebido para conter a presença chinesa na América Latina, várias autoridades sul-americanas visitaram Pequim e manifestaram sua amizade irrestrita com os chineses. Como foi o caso mais “escandaloso” do presidente da Assembleia de El Salvador, Ernesto Castro, aliado muito próximo do presidente Nayib Bukele. Mas também do Ministro de Relações Exteriores do Chile, Perez Mackena que manteve conversações com o Ministro de Relações Exteriores da China, Wang Ji, e com o Vice-Primeiro Ministro chinês, He Lifang.
E, finalmente, do próprio presidente do Equador Daniel Noboa que teve uma recepção oficial do governo chinês, e encontrou-se pessoalmente com o presidente Xi Jinping, tendo declarado “que a China sempre poderá contar com o Equador […] um amigo chinês do outro lado do Pacífico” Somando-se e subtraindo-se todas estas informações entende-se melhor a “queda de Trump”, que alcançou seu máximo de popularidade e prestígio internacional depois do seu “sucesso venezuelano” do dia 3 de janeiro de 2026, e nove meses depois, depois de sua fracassada guerra contra o Irã, e de sua “fuga” apressada da Turquia, transformou-se num dos presidentes mais impopulares da história americana, dentro e fora dos EUA.
Atropelado, além do mais, pela aproximação das próximas eleições parlamentares do midterm do mês de novembro, e por uma disputa cada vez mais intensa entre as várias facções da extrema direita republicana, que se digladiam pela sucessão de Donald Trump, onde se destacam as figuras do Vice-Presidente, David Vance, e do Secretário de Estado, Marco Rubio.
Transmitindo ao mundo a imagem de um império que segue armado “até os dentes” mas perdeu o seu “norte”, e de um governo que aumenta sua agressividade retórica, na mesma medida em que aumenta a sua incapacidade de impor sua vontade ao resto do mundo.
*José Luís Fiori é professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Conjuntura e história (Vozes). [https://link.amazon/B0cDSrftS]
Publicado originalmente no Boletim do Observatório internacional do século XXI, no. 19, setembro de 2026.




